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IA e o seu emprego: especialista explica o que já mudou de verdade e o que é exagero ou medo

por Vivek Soundararajan | Professor de estudos sobre trabalho e igualdade na Universidade de Bath (Inglaterra)

Imagem: Tung Nyguyen / Pixabay




Toda semana surgem notícias sobre como a inteligência artificial (IA) está transformando o mundo do trabalho. Um CEO declara uma revolução com a adoção da IA em seu negócio. Um artigo de opinião prevê o desaparecimento de milhões de empregos da noite para o dia. A agitação é incessante.

Mas, tentando deixar os exageros de lado, resta uma pergunta simples. Nas economias desenvolvidas, o que a IA realmente mudou no trabalho até agora?

A resposta é mais interessante — e mais desigual — do que qualquer um dos lados [contra ou a favor] costuma sugerir.

O que é real

Começando pelo que as evidências sustentam. A IA está gerando ganhos reais de produtividade em certos tipos de trabalho baseados em conhecimento e em serviços.

Um estudo experimental constatou que profissionais usando ChatGPT para tarefas de escrita levaram 40% menos tempo para concluí-las, com uma melhora de 18% na qualidade (avaliada por colegas em testes cegos).

E outro estudo com mais de 5 mil agentes de atendimento ao cliente identificou um aumento de 15% no número de problemas resolvidos por hora.

Um experimento do setor, com tarefas realistas e complexas realizadas por consultores de gestão, mostrou que eles concluíram o trabalho 25% mais rápido e produziram resultados considerados 40% melhores em qualidade — mais uma vez, avaliados por especialistas em testes cegos.

Testes randomizados com quase 5 mil desenvolvedores de software documentaram um aumento de 26% nas tarefas concluídas.

Esses números não são pequenos. E a adoção está avançando rapidamente. Uma pesquisa nos EUA constatou que quase quatro em cada dez trabalhadores estavam usando IA generativa no trabalho em meados de 2025.

Esse ritmo de adoção supera os primeiros anos tanto do computador pessoal quanto da internet. Em diferentes países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), empresas relatam que a integração da IA às funções de negócios está se acelerando.

Portanto, a história dos ganhos de produtividade é real, especialmente em tarefas intensivas em texto e mais codificáveis, em áreas como direito, finanças, marketing e atendimento ao cliente. Isso, pelo menos, não é exagero.

O que está sendo superestimado

Mas as previsões apocalípticas ainda não se concretizaram. O emprego nos países da OCDE continua historicamente robusto.

Uma revisão das evidências empíricas disponíveis, produzida nos EUA no início de 2026, concluiu que, apesar da adoção acelerada, a IA até agora provocou pouco em termos de perdas generalizadas de empregos ou cortes salariais.

E um estudo que acompanhou o uso de chatbots de IA em ambientes de trabalho na Dinamarca encontrou efeito praticamente nulo sobre rendimentos ou horas registradas, mesmo entre usuários intensivos e primeiros adotantes.

Por quê? Porque muitos empregos ainda exigem conhecimento tácito, presença física, bom julgamento e o tipo de percepção contextual que a IA ainda não consegue reproduzir.

E a adoção é muito mais desigual do que os números das manchetes sugerem. Embora o uso de IA entre empresas nos EUA tenha disparado entre 2023 e 2025, um relatório mostrou que um número menor de empresas de fato incorporou a tecnologia às suas operações.

O setor de informação, por exemplo, adotou IA em ritmo cerca de dez vezes maior que o de hotelaria.

Um exercício de modelagem econômica estima que a IA pode acrescentar entre 1% e 1,6% ao PIB dos EUA na próxima década. É um impacto relevante, mas ainda muito distante das alegações mais transformadoras.

A distância entre os ganhos de produtividade observados em estudos controlados e uma transformação real dentro das organizações continua enorme. Para a maioria dos ambientes de trabalho, a revolução ainda não chegou.

O que recebe menos atenção

É aqui que a história se torna mais importante — um aspecto que os comentários estão deixando de abordar. Os efeitos distributivos da IA dentro das economias desenvolvidas merecem muito mais atenção. Nem todos estão vivendo essa transformação da mesma forma.

As evidências sobre quem se beneficia são surpreendentemente consistentes. Trabalhadores menos experientes registram os maiores ganhos com ferramentas de IA.

Um estudo mostrou que a IA reduziu a distância entre os funcionários mais e menos produtivos, com as maiores melhorias entre os trabalhadores de menor desempenho.

No atendimento ao cliente, os agentes novatos foram os que mais se beneficiaram. Os funcionários mais experientes tiveram pouca melhora e, em alguns casos, até pequenas quedas de qualidade.

O experimento do setor citado anteriormente concluiu que profissionais abaixo da média melhoraram 43%, enquanto os de melhor desempenho avançaram 17%. Ou seja: os maiores ganhos ficam com os menos experientes, reduzindo a distância entre os melhores e os piores desempenhos dentro das empresas.

O outro lado da moeda

Isso parece uma boa notícia. Mas há um porém.

Embora a IA possa comprimir diferenças de habilidade dentro das empresas, o mercado de trabalho mais amplo conta uma história diferente.

Cargos de entrada estão encolhendo em ocupações expostas à IA. As tarefas rotineiras que antes justificavam a contratação de profissionais juniores — funções que ofereciam oportunidades de aprendizado para quem estava no início da carreira — são as primeiras a ser automatizadas.

A teoria econômica já alertava há muito tempo que a automação desloca trabalhadores de determinadas tarefas, e a criação de novas funções para compensar isso não é automática nem garantida.

Estima-se que 60% dos empregos nas economias avançadas tenham algum nível de exposição à IA.

Na maioria dos cenários realistas, a desigualdade piora sem intervenção deliberada — em parte porque trabalhadores de renda mais alta detêm mais ativos de capital e tendem a se beneficiar do aumento dos retornos sobre investimentos relacionados à IA.

O padrão que começa a emergir é o seguinte: a IA ajuda quem já está do lado de dentro, ao mesmo tempo que vai estreitando silenciosamente a porta para quem tenta entrar.

Prestar atenção à pergunta certa

O setor importa. O tamanho da empresa importa. O tipo de trabalho importa. A transição provocada pela IA não é uma única história. São várias — acontecendo em velocidades diferentes, com consequências distintas, dependendo de onde cada um está na economia.

O debate está aprisionado entre o otimismo frenético e o medo existencial. Nenhum dos dois ajuda muito.

As evidências apontam para algo mais incômodo: uma transformação real, mas parcial; veloz em alguns cantos e travada em outros — e distribuindo seus custos e benefícios de forma moldada por desigualdades que já existiam.

Se os ganhos de produtividade são reais, a pergunta é: quem fica com eles?

Se o trabalho de entrada está desaparecendo, o que vai substituí-lo? E, se a distância entre as empresas que adotam IA e as que não conseguem adotá-la está aumentando, o foco deveria estar no que está sendo construído em resposta. Apenas falar sobre isso não será suficiente.


Este artigo foi publicado originalmente no portal acadêmico The Conversation e é republicado aqui sob licença Creative Commons.

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