A inteligência artificial está se tornando a nova porta de entrada para o consumo de notícias no mundo, mas as escolhas que os sistemas fazem sobre quais fontes são usadas e citadas ainda são pouco transparentes, alerta um novo estudo do think tank britânico Institute for Public Policy Research (IPPR), que apontou o The Guardian como a fonte mais mencionada.
O levantamento revelou que ferramentas como ChatGPT e Gemini favorecem alguns veículos em detrimento de outros, ignorando até mesmo a BBC — considerada a fonte mais confiável do Reino Unido.
A proposta dos pesquisadores é ousada: implementar um “rótulo nutricional” nas respostas de IA, indicando de forma clara de onde veio a informação. E impor regras para evitar o favorecimento por razões diversas, incluindo a existência de acordos de licenciamento do conteúdo com algumas empresas jornalísticas.
Critérios pouco transparentes para fontes usadas pela inteligência artificial
Segundo o relatório “AI’s got news for you”, a inteligência artificial redesenhou silenciosamente o ecossistema informativo. Já são 2 bilhões de usuários mensais expostos às respostas do Google AI Overviews, e 24% das pessoas utilizam chatbots de IA semanalmente para buscar informação.
A pesquisa analisou 100 consultas sobre temas jornalísticos feitas a quatro ferramentas de IA — ChatGPT, Gemini, Perplexity e Google AI Overviews — e mapeou mais de 2,5 mil links.
O resultado foi revelador: uma única fonte jornalística, o jornal The Guardian, respondeu por 34% de todas as citações, e cada ferramenta demonstrou forte tendência a priorizar um único veículo.
O Guardian, que tem acordo comercial com a OpenAI, foi citado em 58% das respostas do ChatGPT. A Reuters e o Independent também tiveram destaque.
Já a BBC, apesar de ser a fonte mais confiável e popular do Reino Unido, foi completamente ignorada pelo ChatGPT e pelo Gemini — embora apareça em 52% das respostas do Google AI Overviews.
O impacto na diversidade informativa e na sustentabilidade do jornalismo
A concentração de fontes e a falta de clareza sobre os critérios de seleção preocupam os pesquisadores.
Para o IPPR, essa “editorialização invisível” está criando uma nova geração de vencedores e perdedores no ecossistema informativo, o que pode limitar o acesso do público a diferentes perspectivas e agendas.
Essa dinâmica também ameaça a sustentabilidade financeira do jornalismo. Ferramentas de IA como o Google AI Overviews já impactam diretamente o tráfego para os sites de notícias.
Usuários tendem a clicar quase duas vezes mais em links quando a resposta automática da IA não está presente, segundo o estudo. Outros sistemas ainda não têm o mesmo efeito, mas a tendência é semelhante.
Além disso, os acordos de licenciamento entre empresas de IA e veículos de mídia beneficiam principalmente os maiores grupos editoriais. Pequenos e médios veículos — especialmente os locais — ficam de fora, aumentando a dependência do setor jornalístico em relação às big techs.
Para Roa Powell, pesquisador sênior do IPPR, a fonte de notícias mais confiável do Reino Unido desaparecendo completamente das respostas da IA, é um sinal de alerta.
“Se as empresas de IA vão lucrar com o jornalismo e moldar o que o público vê, elas devem ser obrigadas a pagar de forma justa pelas notícias que usam e operam sob regras claras que protegem a pluralidade, a confiança e o futuro do jornalismo independente.”
Propostas para tornar a Inteligência artificial mais justa e transparente
O IPPR sustenta que esse cenário não é inevitável e defende uma ação coordenada para redirecionar o uso da inteligência artificial no jornalismo. Três metas principais são propostas:
- Melhorar a IA como interface para notícias, com a implementação de “rótulos nutricionais” que tornem transparentes as fontes utilizadas e deem ao público mais controle sobre a curadoria das respostas.
- Criar um mercado de licenciamento justo, com atuação de autoridades como a Competition and Markets Authority (CMA), garantindo negociações equilibradas com empresas de tecnologia e proteção ao direito autoral.
- Reduzir a dependência das big techs, com incentivo a novos modelos de negócios e apoio público ao jornalismo local e independente, além do fortalecimento de instituições como a BBC no uso da IA.
O relatório afirma que, diante da crise de confiança nas instituições, do aumento da desinformação e da baixa alfabetização midiática, é urgente tornar a inteligência artificial uma aliada da democracia — e não apenas mais uma camada opaca no acesso à informação.
O relatório completo pode ser visto aqui.






