Moradores da Rússia enfrentam desde a segunda-feira (9) problemas para acessar o Telegram. O governo Putin não negou que interferiu no funcionamento da plataforma. Pelo contrário: ele disse que “continuará restringindo” o app que, segundo eles, “faz pouco para combater fraudes”.
A restrição acontece na esteira de outros bloqueios parciais a redes sociais, incluindo no WhatsApp.
A mudança sinaliza mais um passo no caminho do governo Putin ao fechamento total das suas redes. O Kremlin, porém, nega que essa seja a sua intenção.
Tráfego do app diminuiu, diz jornal
Devido à nebulosidade em dados públicos, sites precisam fazer pesquisas independentes e consultar fotes sigilosas para comprovar a instabilidade. Segundo fontes ouvidas pela Forbes Russia, a instabilidade começou em regiões menores e, em seguida, seguiu para Moscou e São Petesburgo.
Parte dos leitores do site Meduza, por sua vez, afirmaram que também sentiram o problema no aplicativo. A situação parece afetar menos aqueles que usam VPN, burlando a limitação geográfica do bloqueio, segundo o jornal.
Para alguns analistas, a atitude significa um “tiro no pé” do governo, que também usa a plataforma.
Desde o começo da guerra, o Telegram é usado como um meio oficial para divulgar notas e informações. Atualmente, há diversas listas de transmissão ativas por parte do próprio governo.
Criador do Telegram, que é russo, criticou governo Putin
Pavel Durov confirmou a restrição e chamou a medida de “autoritária”. Ele disse, ainda, que “a liberdade vai prevalecer.
Russia is restricting access to Telegram to force its citizens onto a state-controlled app built for surveillance and political censorship. This authoritarian move won’t change our course. Telegram stands for freedom and privacy, no matter the pressure.
— Pavel Durov (@durov) February 10, 2026
No seu comunicado, Durov ressaltou que a Rússia tenta impor um aplicativo de mensagem desenvolvido pelo estado. Veja mais sobre o assunto abaixo.
Há 8 anos, o Irã tentou a mesma estratégia — e falhou. Proibiu o Telegram sob pretextos inventados, tentando forçar as pessoas a usar uma alternativa estatal.
Rússia diz que vai trabalhar com redes estrangeiras que seguirem a lei
As autoridades russas continuam negando que tenham planos para banir totalmente as redes do país. O problema é que, para eles, só continuarão operando na Rússia as plataformas “que respeitem a lei”.
O próprio Roskomnadzor, responsável pela censura no país, disse que não restringe os aplicativos estrangeiros – contanto que eles “respeitem a Rússia e seus cidadãos”.
Além disso, segundo o comunicado, os aplicativos precisam ter “conformidade com a legislação vigente”. O governo acusa tanto o Telegram, quando o Whatsapp de ignorar requisitos para operar no país.
Restrições a redes sociais não são novidade
Banimento de redes sociais no país faz parte de estratégia que começou oficialmente em 1º de novembro de 2019. Nesta data, o governo instituiu a “lei da internet soberana” na Rússia. A lei não só dá ao governo poderes para desconectar a Rússia da rede global, como também permite que isso seja feito sem a declaração formal de emergência.
Em agosto de 2025, o alvo da vez foi o Whatsapp. O governo Putin limitou o uso de chamadas de voz e vídeo pela plataforma. Ao mesmo tempo, ele classificou a Meta, dona do aplicativo, como uma organização extremista.
A agência reguladora Roskomnadzor alegou, assim como nesta semana, que fez o banimento por “segurança”. Na verdade, a restrição sinaliza um plano maior do governo Putin.
Enquanto limita as redes estrangeiras, a Rússia trabalha para implementar plataformas desenvolvidas no país. Analistas apontam que isso acontece para que o Estado controle com mais facilidade os usuários.
Aplicativo estatal é promovido como alternativa
Como parte dessa estratégia, o governo russo lançou o Max. O aplicativo é da empresa VK Company, que também controla a principal rede social russa, a VKontakte. O Ministério do Desenvolvimento Digital supervisionou a o desenvolvimento de ambos aplicativos.
Apresentado como uma alternativa nacional aos serviços de mensagem, o app saiu de 2 milhões de usuários em agosto para 75 milhões em dezembro de 2025, segundo a própria VK.
O Max concentra funções como mensagens, chamadas, pagamentos, acesso a serviços públicos e mapas. Na prática, ele é um “hub digital” com integração total às plataformas estatais.
Segundo veículos de imprensa independentes russos e ucranianos, o Max permitirá acesso irrestrito ao microfone dos usuários. Ele também acessará a câmera, localização, contatos e arquivos de quem o baixar.
O aplicativo coleta dados com privilégios avançados (conhecidos como “root”), os enviando aos servidores do governo.
Instalação obrigatória e vigilância ampliada
Putin sancionou, em setembro de 2025, uma lei determinando a instalação do Max em todos os smartphones vendidos na Rússia. As configurações do sistema dificultam a exclusão do aplicativo, ao mesmo tempo em que permitem compartilhar dados com autoridades mediante solicitação, conforme os termos de uso.
Grupos de direitos digitais têm expressado preocupação com a medida. Eles enxergam a lei como uma forma de vigilância em massa, similar ao modelo adotado pelo governo chinês com o app WeChat.
Pressão para saída dos aplicativos
Apesar das restrições, o Whatsapp segue capengando no mercado russo. Autoridades do país, porém, indicaram que a plataforma precisa “andar na linha”, ou eventualmente será obrigada a sair.
O deputado Anton Gorelkin declarou publicamente que o aplicativo “deve se preparar para sair do mercado russo”.
O Kremlin avança na construção da RuNet, uma infraestrutura digital própria, projetada para funcionar de forma autônoma e blindada contra influências externas. Ela deve causar reflexos nocivos sobre a liberdade de imprensa e o jornalismo independente.
Liberdade de imprensa na Rússia
A liberdade de imprensa na Rússia foi sistematicamente reduzida por meio de leis restritivas nos últimos anos. O governo Putin comete perseguição judicial enquanto faz controle estatal dos principais veículos de comunicação.
O país está em 177º lugar entre 180 nações no Global Press Freedom Index da organização Repórteres Sem Fronteiras, que mede a liberdade de imprensa no mundo.






