A rainha Camilla fez nesta terça-feira (10) um discurso contundente defendendo sobreviventes de violência sexual e doméstica e condenando a cultura de silêncio em torno desses crimes. A fala foi interpretada como um apoio velado a mulheres vítimas do escândalo envolvendo Jeffrey Epstein e o ex-príncipe Andrew.
O discurso ocorreu no Palácio de St. James, em Londres, durante uma recepção do Women of the World (WOW), organização da qual ela é presidente, em referência ao Dia Internacional da Mulher, e reforça a mudança recente na estratégia de comunicação da realeza britânica.
Mesmo sem citar os nomes de Andrew ou Epstein, o discurso foi associado ao caso, demonstrando que o padrão histórico de evitar declarações que pudessem aproximar a família de temas negativos está ficando para trás. No dia em que Andrew foi preso, o rei Charles divulgou uma nota referindo-se às investigações.
A rainha da Grã-Bretanha afirmou sua “solidariedade, tristeza e simpatia” às vítimas e disse que muitas delas ainda não conseguiram contar suas histórias ou não mereceram confiança.
“Vocês não estão sozinhas”, declarou.
O discurso chamou atenção pelo momento em que foi feito.
Nas últimas semanas, a prisão de Andrew Mountbatten-Windsor voltou a colocar a monarquia sob pressão e reforçou críticas sobre a forma como a família real lidou, ao longo dos anos, com a proximidade do então príncipe Andrew com Jeffrey Epstein.
Discurso de Camilla rompe padrão de silêncio da monarquia
Sem citar Andrew ou Epstein, Camilla adotou um tom incomum para os padrões da família real ao tratar publicamente de vergonha, violência e responsabilidade coletiva, em um contexto difícil de não associar com o caso envolvendo o irmão do rei Charles III.
Em vez de manter distância do tema, como costuma ocorrer em crises internas, ela fez uma fala centrada nas vítimas e na necessidade de romper o silêncio – justamente o que está acontecendo no caso do envolvimento do ex-príncipe Andrew com Epstein, condenado por crimes sexuais.
Um dos principais símbolos do discurso foi o broche com a frase “Shame Must Change Sides”, que usava ao lado do distintivo do WOW.
Segundo Camilla, a peça foi um presente de Gisèle Pelicot, que ela encontrou no mês passado. Ao mencionar Pelicot, a rainha reforçou a ideia de que a mudança necessária não é apenas legal, mas cultural.
Ao longo do discurso, Camilla afirmou que “toda mulher tem uma história” e usou dados sobre feminicídio, abuso doméstico, estupro, violência sexual e assédio no Reino Unido para sustentar que a violência contra mulheres continua disseminada e naturalizada.
Rainha Camilla associa violência contra mulheres à cultura do silêncio
Ela também rejeitou a ideia de que esse tipo de violência deva ser tratado como “um problema das mulheres” ou como uma questão que cabe às vítimas evitar. Disse ainda que tampouco se trata de apontar todos os homens como agressores em potencial.
Sua formulação foi outra: é “problema de todos”.
Esse ponto foi reforçado na parte do discurso dedicada a meninos e jovens homens. Camilla afirmou que muitos deles crescem sob pressão para corresponder a modelos de masculinidade que não compreendem plenamente e alertou para o peso do ambiente digital nessa formação.
Segundo ela, misoginia e ódio disseminados online precisam ser enfrentados antes que se consolidem como padrão entre os mais jovens.
A rainha também defendeu que escolas, famílias e locais de trabalho tenham papel mais ativo na discussão sobre consentimento, respeito e igualdade.
A fala foi recebida com simpatia pela imprensa britânica, mas as críticas à realeza relacionadas ao caso Andrew continuam. O grupo Republic, que defende o fim da monarquia, questiona o que a família sabia sobre os atos do ex-príncipe, e porque tudo ficou oculto por tanto tempo.
Leia também | Prisão do ex-príncipe Andrew foi boa ou ruim para a monarquia? Veja o dizem os súditos em nova pesquisa
Leia também | Como a monarquia britânica pode reconstruir sua reputação após a prisão do ex-príncipe Andrew? Entenda o ‘contágio social’
Leia também | Foto icônica de Andrew arrasado após prisão estampa capas de jornais britânicos e do mundo; veja como foi feita






