No ano em que a liberdade de imprensa global caiu ao seu menor nível histórico, o Brasil está entre os poucos locais do mundo onde ela melhorou: o país subiu onze posições no ranking anual da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), figurando agora figura em 52º entre 180 mercados listados. Desde 2022, o país ganhou 58 posições.
Já os EUA estão pagando o preço da segunda administração de Donald Trump. Refletindo o primeiro ano do republicano de volta ao posto de presidente, marcado por pressões e medidas contra a liberdade de imprensa, o país desceu sete posições e agora está em 64º.
A RSF destacou que primeira vez nos 25 anos de seu Índice Mundial de Liberdade de Imprensa, divulgado nesta quinta-feira (30) em Paris, mais da metade dos países do mundo agora se enquadra nas categorias “difíceis” ou “muito sérias”. A pontuação média de todos os países e territórios pesquisados nunca foi tão baixa.
O indicador que mais caiu
Dos cinco indicadores usados para avaliar a liberdade de imprensa em todo o mundo — que avaliam os ambientes econômicos, legais, de segurança, políticos e sociais para o jornalismo — o indicador jurídico foi o que registrou declínio mais acentuado este ano, tendo recuado em mais de 60% das nações listadas. .
Ele foi impulsionado principalmente por leis, medidas e processos para restringir o trabalho do jornalismo sob o argumento de proteção da segurança nacional, situação encontrada pela RSF até em democracias.
Os 10 melhores em liberdade de imprensa em 2026
O mapa mostra em cores a extensão do declínio da liberdade de imprensa no mundo.

Os 10 melhores países em liberdade de imprensa continuam sendo da Europa Ocidental: Noruega (em primeiro lugar há dez anos), Holanda, Estônia, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Irlanda, Suíça, Luxemburgo e Portugal.
Entre os 20 que lideram o ranking só aparece um país fora dessa região, o Canadá (em 20º).
Os 10 piores em liberdade de imprensa em 2026
A Eritreia continua em último, assim como em 2025. Antes dela aparecem Coreia do Norte, China, Irã, Arábia Saudita, Afeganistão, Vietnã, Turcomenistão, Rússia, Azerbaijão e Bahrein.
A Síria, que até o ano passado estava entre os últimos, foi a nação que mais ganhou posições este ano (36), refletindo a queda de Assad.
O recuo mais acentuado registrado no Índice de 2026 (-37) foi o Níger (em 120º), em meio ao declínio mais amplo da liberdade de imprensa na região do Sahel visto nos últimos anos, sob o impacto de ataques de grupos armados e juntas militares no poder.
A queda desde 2022: o efeito de guerras e ditaduras
Em 2002, 20% da população global vivia em um país onde o estado da liberdade de imprensa era categorizado como “bom”.
Vinte e cinco anos depois, menos de 1% da população mundial vive em um país que se enquadra nessa categoria, diz a RSF.
Em alguns deles, como o Iraque (162º), o Sudão (161º) e o Iêmen (164º), o conflito armado recorrente é a principal razão para esse declínio na liberdade de imprensa.
As guerras em andamento tiveram um forte impacto este ano, notadamente na Palestina (156ª), onde o governo de Benjamin Netanyahu em Israel (que caiu 4 posições no Índice este ano) continua sua ofensiva.
Desde outubro de 2023, mais de 220 jornalistas foram mortos em Gaza pelo exército israelense, incluindo pelo menos 70 que foram mortos enquanto realizavam seu trabalho. O mesmo aconteceu no Sudão (-5) e no Sudão do Sul (em 118º, -9).
Europa Oriental e Oriente Médio, os locais mais perigosos
Em vários países com regimes ditatoriais, de acordo com a classificação da RSF, o estado da liberdade de imprensa não mudou. Este é o caso da China (178ª), Coreia do Norte (179ª) e Eritreia (180ª), onde o jornalista Dawit Isaak foi preso sem julgamento por 25 anos.
A Europa Oriental e o Oriente Médio são as duas regiões mais perigosas para os jornalistas do mundo, como têm sido há 25 anos.
A Rússia de Vladimir Putin (172ª) continua como um dos piores países para a liberdade de imprensa. O Irã (177º, -1 posição) também permanece perto da parte inferior do ranking, retido pela repressão do regime e pela guerra EUA-Israel em seu solo.
No Oriente Médio, a Arábia Saudita (-14) está pagando o preço pelos repetidos atos de violência das autoridades contra jornalistas em 2025, incluindo a execução de Turki al-Jasser em 2025, aponta a organização.
A situação crítica da liberdade nas Américas
A Repórteres Sem Fronteiras afirma no relatório que sob líderes como Donald Trump, Javier Milei e Nayib Bukele, o jornalismo está cada vez mais sendo criminalizado e exposto à violência em toda a região.
Os Estados Unidos (64º, -7) estão caindo devido à crescente pressão política, enquanto a Argentina (98º, -11) está vivendo uma multiplicação de ações judiciais contra a imprensa.
Em El Salvador (143º, -8), a lei de agentes estrangeiros de 2025 está intensificando a repressão à imprensa e forçando muitos jornalistas ao exílio.
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