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Surto em navio faz disparar boatos nas redes sobre ivermectina como tratamento para hantavírus

OMS afirma que não há tratamento antiviral específico licenciado para infecção por hantavírus; cuidados são de suporte clínico

Navio Houndis onde houve surto de hantavírus

Navio Houndis (foto: divulgação)




O surto de hantavírus identificado a bordo do MV Hondius, navio de cruzeiro da Oceanwide Expeditions que seguia para as Ilhas Canárias, fez disparar nesta semana uma nova onda de boatos nas redes sociais sobre a ivermectina, afirmando que o medicamento poderia tratar ou prevenir a doença.

O alerta foi feito pela NewsGuard, que escolheu a afirmação como sua “False Claim of the Week”, categoria dedicada a alegações comprovadamente falsas que ganham ampla circulação online. Segundo a organização, o caso se destacou pela presença em redes sociais e sites, pelo alto engajamento e pela participação de fontes de grande visibilidade.

Entre os perfis influentes que a compartilharam está o da ex-deputada norte-americana Marjorie Taylor Greene, republicana da Geórgia.

Segundo a NewsGuard, Greene republicou uma mensagem que defendia a ivermectina como opção contra o hantavírus e acrescentou que o medicamento, além de vitamina D e zinco, poderia ser usado contra a infecção.

A publicação recebeu 2,8 milhões de visualizações e 10 mil curtidas em um dia.

A associação entre ivermectina (um vermífugo que na época da pandemia de Covid-19 ganhou visibilidade pro ser apontado como cura para a doença) e hantavírus não tem respaldo científico.

De acordo com especialistas ouvidos pela NewsGuard e com orientação da OMS (Organização Mundial da Saúde), não há tratamento antiviral específico licenciado nem vacina para a infecção por hantavírus.

Como o caso do navio alimentou boatos sobre ivermectina

O hantavírus foi identificado a bordo do MV Hondius, navio da Oceanwide Expeditions que partiu da Argentina em 1º de abril de 2026, com cerca de 150 passageiros.

A situação colocou o cruzeiro no centro de uma resposta internacional de saúde e ampliou a atenção sobre o vírus, que pode causar doenças graves com impacto nos pulmões, no coração e nos rins, levando à morte.

Após a repercussão do surto e das primeiras mortes e internações anunciadas, contas em redes sociais passaram a apresentar a ivermectina como possível tratamento ou cura para o hantavírus, sem apresentar evidências clínicas que sustentassem a desinformação.

Marjorie Taylor Greene ajudou a dar tração à alegação

Entre os exemplos citados pela NewsGuard está uma publicação no X da médica Mary Talley Bowden, especialista em ouvido, nariz e garganta baseada em Houston. Bowden já havia promovido anteriormente a falsa alegação de que a ivermectina poderia tratar a COVID-19.

Em 6 de maio, ela afirmou que o hantavírus, por ser um vírus de RNA, deveria ser afetado pela ivermectina. A publicação não apresentou evidências para sustentar a conclusão, mas alcançou 3,5 milhões de visualizações e 42 mil curtidas em um dia, segundo a NewsGuard.

A mensagem ganhou nova escala quando foi republicada por Marjorie Taylor Greene. Greene não respondeu a uma mensagem enviada pela organização por meio do X solicitando comentários sobre a postagem.

Boatos sobre cura para COVID-19 e câncer

A ivermectina tem um longo histórico de narrativas falsas. 

Durante a pandemia de COVID-19, o medicamento foi promovido como tratamento apesar da ausência de evidências suficientes para esse uso.

Recentemente, a NewsGuard também registrou a promoção de cura para o câncer usando o medicamento em redes sociais

Agora, a associação com o hantavírus reaparece em outro contexto, ligado à repercussão internacional do surto no navio.

Não há evidências de que ivermectina trate hantavírus

O médico Amesh Adalja, especialista em doenças infecciosas e pesquisador sênior do Centro Johns Hopkins para Segurança da Saúde, disse à NewsGuard que não há evidência que apoie o uso de ivermectina para o tratamento do hantavírus.

A OMS afirma que não existe tratamento antiviral específico licenciado nem vacina para infecção por hantavírus. Segundo a organização, os cuidados são de suporte e se concentram no monitoramento clínico rigoroso e no manejo de complicações respiratórias, cardíacas e renais.

Um medicamento pode ter uso reconhecido para determinadas condições e, ainda assim, não ter eficácia demonstrada para outra doença. No caso do hantavírus, a promoção da ivermectina como solução não é sustentada pelas evidências citadas pela NewsGuard..

Hantavírus no navio também gerou outras narrativas falsas

A alegação sobre ivermectina é uma das narrativas falsas relacionadas ao caso do MV Hondius identificadas pela NewsGuard.

A organização também desmentiu afirmações de que um passageiro a bordo seria um “ator de crise”; de que a China teria proibido a entrada de cidadãos dos Estados Unidos por causa do surto; de que nenhuma cepa do vírus poderia se espalhar de humano para humano; de que exercícios pandêmicos da OMS em abril de 2025 e abril de 2026 provariam que o surto foi planejado; e de que infecções por hantavírus seriam efeito colateral da vacina contra a COVID-19.


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