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Publicidade digital

Google perde recurso em tribunal da UE contra multa por anúncios ilegais de apostas no YouTube

Julgamento envolve multa na Itália por vídeos que promoviam jogos de azar em canais parceiros do YouTube

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O Google perdeu nesta quinta-feira (16)  a etapa europeia do processo em que tenta evitar uma multa de 750 mil euros (cerca de R$ 4,4 milhões) aplicada na Itália por anúncios de apostas no YouTube.

A empresa recorreu à Justiça italiana para anular a penalidade imposta em 19 de julho de 2022 pela AGCOM (Autoridade para as Garantias nas Comunicações), órgão regulador italiano.

O caso envolve centenas de vídeos publicados por um criador conhecido como Spike, que mantinha uma parceria comercial com o Google.

A Corte de Justiça da União Europeia (CJUE) decidiu que o Google pode ser responsabilizado pelo conteúdo de um parceiro comercial quando conhece as características do canal e participa de sua monetização.

A decisão não encerra o processo: caberá agora ao Conselho de Estado italiano julgar o caso com base na interpretação definida pelo tribunal europeu.

Multa por anúncios de apostas foram aplicadas em 2022

Além do Google, a AGCOM  italiana também responsabilizou a Top Ads Ltd, empresa ligada ao site SpikeSlot e aos canais que publicavam os vídeos.

A companhia recebeu uma multa de 700 mil euros (cerca de R$ 4,1 milhões) por divulgar publicidade proibida de jogos de azar, enquanto o Google foi multado em 750 mil euros por permitir a circulação e a monetização desse conteúdo no YouTube.

O regulador italiano determinou ainda a retirada de 630 vídeos do YouTube. Os vídeos estavam distribuídos em cinco canais ligados ao criador Spike. Quatro deles estavam habilitados para monetização.

O criador recebia uma parcela da receita dos anúncios, enquanto o Google ficava com outra parte. Alguns canais também ofereciam assinaturas pagas, cobradas pela própria plataforma, que davam acesso a vídeos, transmissões e conversas exclusivas.

Para o regulador italiano, essa estrutura diferenciava o criador de um usuário comum.

A AGCOM sustentou que o Google havia examinado os canais antes de admiti-los no programa, mantinha um contrato com o responsável pelo conteúdo e obtinha receita com a audiência gerada pelos vídeos.

O Google alegou que os anúncios exibidos junto aos vídeos eram diferentes do conteúdo produzido pelo criador. Também afirmou que os usuários eram responsáveis por garantir que seus vídeos respeitassem a legislação e as regras da plataforma.

Anúncios de apostas e o ‘Decreto Dignidade’

A AGCOM considerou que os vídeos violavam o artigo 9º do chamado Decreto Dignidade, aprovado na Itália em 2018.

A norma proíbe qualquer forma, direta ou indireta, de publicidade de jogos de azar e apostas com prêmios em dinheiro, independentemente do meio utilizado.

O valor total da multa resultou de cinco sanções de 150 mil euros, uma para cada canal analisado.

O órgão regulador também ordenou que o Google removesse os vídeos indicados no processo e conteúdos semelhantes publicados pelo mesmo criador.

Google foi à Justiça para evitar a multa italiana

O Google contestou a decisão diante do TAR do Lácio, o Tribunal Administrativo Regional responsável pelo primeiro julgamento do caso.

A empresa argumentou que atuava apenas como provedora de hospedagem dos vídeos e não deveria ser responsabilizada pelo conteúdo publicado por terceiros.

Em 8 de setembro de 2023, o tribunal italiano anulou a decisão da AGCOM. O regulador recorreu então ao Conselho de Estado, a instância administrativa superior da Itália.

Durante a análise do recurso, o Conselho de Estado decidiu consultar a Corte de Justiça da União Europeia sobre a aplicação das regras europeias de responsabilidade dos serviços de hospedagem.

A decisão de encaminhar as questões foi tomada em 11 de junho de 2024, dando origem ao processo C-421/24.

A consulta buscava esclarecer se o Google poderia usar a isenção de responsabilidade destinada a plataformas que apenas armazenam, de maneira técnica e passiva, conteúdos enviados por usuários.

Parceria comercial afastou argumento de plataforma passiva

O ponto central da decisão europeia foi a relação comercial entre o Google e o criador dos vídeos.

Os canais participavam do Programa de Parcerias do YouTube, que permite a divisão das receitas obtidas com os anúncios exibidos antes ou durante os vídeos.

Para aceitar um canal nesse programa, o Google examinava seu tema principal, os vídeos mais vistos e mais recentes e os metadados associados ao conteúdo.

Segundo a Corte da UE, essa análise dava à empresa conhecimento específico sobre as características essenciais dos canais.

Nessas condições, o Google não poderia ser tratado automaticamente como um intermediário estritamente técnico, automático e passivo.

Para os juízes, a empresa pode ser responsabilizada quando participa de uma relação comercial estruturada e conhece o tipo de conteúdo que gera receita para a plataforma e para o criador.

A decisão não afirma que o Google responde por todos os vídeos publicados por usuários do YouTube.

O entendimento está relacionado às circunstâncias específicas do caso, especialmente à parceria comercial, à avaliação prévia dos canais e ao compartilhamento de receitas.

Decisão final ainda caberá à Justiça italiana

A Corte de Justiça da União Europeia não julgou diretamente se a multa de 750 mil euros deve ser paga.

Em processos desse tipo, o tribunal europeu responde às questões sobre a interpretação do direito da União Europeia, mas o julgamento da disputa concreta permanece sob responsabilidade da Justiça nacional.

O processo retornará ao Conselho de Estado italiano.

O tribunal terá de verificar se, diante da parceria comercial e da análise feita antes da monetização, o Google poderia razoavelmente desconhecer que os canais eram dedicados a jogos de azar e continham vídeos destinados a promovê-los.

 

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