*atualizada em 27/9

Londres – O movimento antivacina, que no Reino Unido virou uma dor de cabeça para as autoridades de saúde pública, está ofuscando o brilho da nova temporada de uma das maiores atrações da TV britânica, iniciada no sábado (25/9)

Pelo menos três participantes do Strictly Come Dancing, equivalente local ao Dança dos Famosos, não quiseram tomar a vacina contra a Covid-19, colocando a BBC, que exibe a atração, no centro da polêmica sobre o direito de obrigar cidadãos, funcionários ou frequentadores de estabelecimentos comerciais a se imunizarem. 

No dia seguinte à estreia, a rede anunciou que uma dupla tinha testado positivo para a Covid e iria ficar em quarentena. O ator Tom Fletcher e a dançarina profissional Amy Dowden ficarão de fora da próxima rodada, mas não houve confirmação de que eles estavam entre os que não quiseram tomar a vacina. 

Antivacina ficaram anônimos

A controvérsia em torno do Strickly Come Dancing começou duas semanas antes da estreia, quando o jornal tabloide The Sun revelou que dois membros do elenco, formado por 18 dançarinos profissionais que fazem duplas com celebridades, decidiram não ser vacinados contra o coronavírus. Em seguida o jornal confirmou que um terceiro artista também recusou a vacina.

Segundo o The Sun, houve “ressentimento” entre os membros do elenco e da equipe do programa. Desde então os rumores não pararam de crescer, em um momento em que o movimento antivacina preocupa a população e o governo britânico. 

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Na quinta-feira (23/9) a BBC emitiu um comunicado assegurando que estava tomando cuidados para garantir a segurança dos participantes, negou que alguns quisessem deixar a atração e indicou que não iria interferir na decisão dos participantes em relação à vacina. 

Nas redes sociais do programa não houve menção ao problema das vacinas, apenas clips alegres apresentando os participantes antes da estréia no sábado, como este vídeo que mostra o elenco de celebridades, e clipes da estreia. 

Mesmo depois da notícia ter sido confirmada, as redes sociais continuaram mudas sobre a controvérsia. E um clipe da dupla que testou positivo continuava no ar, com a sugestiva mensagem “eles lembrarão para sempre a noite de 25 de setembro”. 

Taxa alta de não-vacinados 

Apesar de ter implantado um elogiado programa de imunização, o Reino Unido tem apenas 67% de sua população vacinada com as duas doses. A recusa é maior entre os jovens, justamente a faixa etária mais atingida por programas com o Dança dos Famosos.

Os integrantes do movimento antivacina têm realizado manifestações e chegaram a tentar invadir sedes de veículos de imprensa e do Google em Londres nas últimas semanas. 

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O “sermão” de Boris Johnson 

Até o primeiro-ministro Boris Johnson entrou no debate. Durante a visita oficial aos Estados Unidos, ele disse que não não se importaria em “dar uma lição” aos profissionais do Strictly para convencê-los a receber a vacina:

“Acho que isso é uma questão dos produtores, mas acredito fortemente que as pessoas deveriam ser vacinadas.

“Não quero intimidar as pessoas ou dar um sermão, mas, bem, não me importo em dar um sermão, vou dar um sermão: acho que [tomar a vacina] é uma coisa ótima para você, para sua família, para sua comunidade.”

O primeiro-ministro teve Covid-19 em 2020 e ficou em situação grave, passando vários dias internado.  

O Reino Unido tem feito campanhas passivas voltadas para jovens para reverter os efeitos do movimento antivacina, que tiveram até a adesão de casas noturnas famosas quando havia a possibilidade de adoção do passaporte de vacinação para frequentá-las, ideia que acabou abandonada.

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O que diz a BBC 

A situação da BBC é delicada, pois ela é uma emissora pública, e a vacinação é uma política de governo.

Ainda assim, ela parece não querer se indispor com os que defendem o direito de não aceitar a vacina e tentou ficar longe da polêmica, afirmando que segue todas as diretrizes para que o programa, que este ano volta a ter platéia ao vivo, seja feito com segurança. 

Mas a poeira não abaixou. Na quinta-feira (23/9), a emissora foi obrigada a divulgar um comunicado negando especulações de que artistas quisessem deixar o programa, sem no entanto voltar atrás na decisão de autorizar participantes não vacinados a continuarem no elenco.

“Muito tem sido escrito sobre vacinação e sobre o Strictly Come Dancing nos últimos dias. A BBC nunca comentou nem confirmou o status de vacinação de ninguém no programa. Não é nossa função.

“Não é fato que as preocupações tenham sido levantadas com a BBC ou a equipe de produção do Strictly a respeito de dançarinos ou celebridades sobre a vacinação, ou que eles ameaçaram desistir.

“Temos procedimentos rígidos para proteger aqueles que estão no show e a produção em geral. Entre as muitas medidas em vigor no Strictly, os dançarinos são testados regularmente para estar em contato próximo com seus parceiros.

“O elenco, a equipe e todos que trabalham no Strictly estão focados no primeiro show ao vivo deste fim de semana e em  realizar outra temporada brilhante.”

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“Bolhas” para ensaiar 

Assim como no ano passado, as duplas compostas por um bailarino profissional e uma celebridade formaram “bolhas” antes do início da produção para ensaiar as coreografias. 

A estrela do programa Great British Bake Off, John Whaite, o ator Greg Wise, a estrela da novelas Katie McGlynn e o atleta olímpico Adam Peaty estão no elenco da nova temporada.

O que pensam os artistas

Os participantes do Dança dos Famosos deste ano não se manifestaram publicamente. Mas o tema entrou na pauta das redes sociais e de programas de TV. 

O ex-dançarino James Jordan, que atuou no programa de 2006 a 2013, falou sobre o drama, afirmando que os profissionais não vacinados não deveriam ter permissão para participar.

Ele disse em entrevista ao programa Good Morning Britain, da ITV: “Eu definitivamente acredito que eles não merecem seu direito no show e as celebridades têm todo o direito de se recusar a dançar com eles”. 

Já o dançarino profissional Gorka Marquez disse à ITV acreditar que acreditar que os esforços da produção para manter todos seguros iriam funcionar, assim como funcionaram em 2020, quando o Strickly Come Dancing foi apresentado pela primeira vez sem plateia e antes de a vacinação começar.  

Questionado sobre se preferiria estar em um ambiente com pessoas vacinadas, ela disse: “Todos são livres para fazer o que quiserem –  se você está na rua encontra com pessoas vacinadas e outras não”. 

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