A Apple surpreendeu o mercado ao anunciar nesta segunda-feira (1) uma troca de comando em sua área de IA. Amar Subramanya, executivo já da casa e com passagens pelo Google e pela Microsoft, assume a liderança da divisão de inteligência artificial no lugar de John Giannandrea.
Embora o comunicado oficial tenha adotado o tom protocolar de agradecimento pela contribuição de Giannandrea, a leitura do mercado foi outra.
A mudança é vista como reação a problemas crescentes e à frustração com os resultados de projetos estratégicos, em especial o desempenho da assistente pessoal Siri e os atrasos do projeto Apple Intelligence.
Troca de comando da IA: Apple tenta se reposicionar
Subramanya já ocupava posição de destaque na engenharia de machine learning e foi promovido internamente. A escolha reforça a tentativa de reposicionar a empresa em um setor que se tornou vital para o futuro da indústria de tecnologia. E no qual a Apple não está navegando bem.
A Siri deveria receber uma versão mais avançada com recursos de inteligência artificial em 2025, mas os prazos foram adiados para 2026.
Problemas técnicos e bugs levaram a atrasos “feios e embaraçosos”, assim classificados pelos próprios executivos da Apple, de forma anônima, em reportagens recentes.
Internamente, engenheiros relatam frustração e perda de talentos para concorrentes mais avançados. Isso faz com que a imprensa de tecnologia acompanhe com atenção as dificuldades da empresa, que revolucionou o setor com produtos como o iPhone e o iPad.
A dúvida é se ela se manterá como fonte de soluções revolucionárias ou ficará para trás em relação a outras forças como a OpenIA e o Google.
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O comunicado oficial da Apple
No anúncio da troca de comando, o CEO da Apple, Tim Cook, afirmou:
“Estamos gratos pelo papel que John desempenhou na construção e no avanço de nossa atuação em IA, ajudando a Apple a continuar a inovar e enriquecer a vida dos nossos usuários.”
A empresa também tentou tranquilizar o mercado sobre sua solidez em IA:
“Este momento marca um novo capítulo emocionante, à medida que a Apple fortalece seu compromisso de moldar o futuro da IA para usuários em todos os lugares.”
Como a imprensa especializada reagiu à troca de comando na IA
A imprensa especializada em tecnologia recebeu o anúncio da saída de John Giannandrea com forte dose de ceticismo.
O TechCrunch destacou que a promoção de Amar Subramanya é uma tentativa de reorganizar esforços após meses de tropeços, especialmente os atrasos da Siri e a percepção de que a Apple Intelligence não entregou o que havia sido prometido.
O MacRumors apontou os sucessivos adiamentos da Siri como pano de fundo da saída de Giannandrea, lembrando que recursos anunciados para 2025 foram empurrados para 2026, gerando frustração entre usuários e engenheiros.
No comunicado, Tim Cook confirmou que a Siri turbinada chegará apenas em 2026.
Já o The Verge analisou que a Apple Intelligence foi lançada às pressas e sem maturidade suficiente. Nesse sentido, avalia que a troca de liderança reflete a necessidade de corrigir a rota e recuperar credibilidade em um setor que se tornou vital para o futuro da empresa.
Esse cenário havia sido antecipado em maio em uma reportagem da Bloomberg, analisando o desempenho fraco da Apple em IA.
A revista descreveu a crise interna de liderança, a falta de integração com outras divisões e a partida de integrantes da divisão liderada por Giannandrea para concorrentes como Meta e OpenAI.
Temor de bolha da IA
A mudança na Apple acontece em meio a uma insegurança mais ampla do mercado. Analistas discutem se a atual euforia em torno da inteligência artificial pode configurar uma bolha prestes a estourar, com impactos significativos sobre as grandes empresas de tecnologia.
Nesse cenário, a Apple não apenas enfrenta críticas por estar atrasada. Ela também precisa provar que sua aposta em uma IA “mais privada e integrada” será suficiente para sustentar a confiança de consumidores e acionistas.
A nomeação de Amar Subramanya foi interpretada como tentativa de recuperar credibilidade e acelerar projetos que se tornaram críticos para o futuro da companhia, enquanto o mercado observa com cautela se a onda da inteligência artificial se sustentará.
O grande temor é a repetição do estouro da bolha das Big Techs ocorrido entre 2000 e 2001. Após um pico de valorização de empresas de tecnologia, muitas faliram. O índice Nasdaq, que mede o desempenho das companhias do setor, atingiu seu pico em março de 2000 e depois caiu cerca de 75%, até 2002. Investidores perderam trilhões de dólares, e o episódio ficou marcado como a primeira grande crise das “big techs” modernas.
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