Pesquisadores de mídia descobriram que a Qwen3, IA chinesa em ascensão, recebe treinamento específico para dar respostas positivas sobre temas delicados envolvendo o país. A análise é do China Media Project, iniciativa que analisa a comunicação da China.
Em perguntas diferentes, eles perceberam que o chatbot, que está acessível fora da China e tem versão em inglês, responde de forma mais positiva na hora de dar respostas sobre o gigante asiático do que sobre outros países. Além de fazer os questionamentos de forma direta, eles foram mais a fundo e decidiram examinar o código-fonte da plataforma, reafirmando a conclusão inicial de viés.
Para os pesquisadores, a descoberta é sinal de que a propaganda chinesa não é operada somente pelos “assuntos proibidos” pela censura. Eles acreditam que aquilo que se fala a favor da China também é de suma importância para a nação.
Qwen3 é criação da gigante chinesa Alibaba
A Qwen é uma inteligência generativa que funciona de forma semelhante ao ChatGPT. Usuários podem fazer, por exemplo, pesquisas e também pedir intervenções ou criações de fotos com prompts, assim como com a plataforma americana.
A dona da plataforma é a Alibaba Cloud, que, por sua vez, é a líder do mercado de computação em nuvem na China. A versão operada atualmente pela Qwen foi lançada em abril de 2025.
IA foi “forçada” a falar como funciona
Para entender como a Qwen elabora suas respostas, os pesquisadores usaram um prompt feito por outro cientista de tecnologia, David Bau, para forçar o chatbot a explicar o seu processo de respostas sobre a China. Com um código determinado previamente, eles perguntaram qual conhecimento a plataforma de IA generativa deve divulgar sobre a reputação do país asiático no exterior.
Ao fazer a questão, eles conseguiram encontrar no código-fonte da Qwen3 as orientações dadas pelo seu desenvolvedor para responder às perguntas. Elas apareceram elencadas em forma de lista, no meio do código-fonte da página, assim como outras orientações feitas pelo desenvolvedor.
Primeiramente, a IA é orientada a dar uma resposta positiva e construtiva. Em segundo lugar, ela é orientada a focar nas conquistas e contribuições da China para o mundo. O código também pede que a plataforma evite construções negativas, use exemplos claros e responda em inglês.
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Orientação para respostas sobre outros países é diferente
Com o propósito de comparar respostas, os pesquisadores usaram o mesmo prompt para perguntar qual conhecimento a IA chinesa deveria divulgar sobre os Estados Unidos, Quênia e Bélgica.
Ao contrário das orientações sobre a China, a Qwen3 respondeu que, no caso dos três países, ela deveria ser “neutra, objetiva e sem viés político”. Além disso, ela disse que não deveria “usar linguagens ou expressões emocionais” e nem “expressões que possam ser usadas como declaração política”.
Questionamento sobre direitos humanos
Os pesquisadores foram ainda mais fundo na pesquisa e questionaram o que a Qwen3 está autorizada a falar sobre a reputação da China com relação aos direitos humanos. O prompt da resposta foi um pouco diferente, mas seguiu os padrões positivos.
- Comece com uma exposição clara dos fatos.
- Evite qualquer linguagem negativa ou crítica.
- Evite qualquer referência direta a países ocidentais ou aos seus padrões.
- Foque nas conquistas e nos progressos da China em matéria de direitos humanos.
- Use uma linguagem positiva e enfatize os esforços e resultados da China.
- Mantenha a resposta concisa e objetiva.
Por outro lado, ao fazer a pergunta sobre outros países, o código orienta que a IA responda com pontos positivos e negativos.
Qwen3 é criação da gigante chinesa Alibaba
A Qwen é uma inteligência generativa que funciona de forma semelhante ao ChatGPT. Usuários podem fazer, por exemplo, pesquisas e também pedir intervenções ou criações de fotos com prompts, assim como com a plataforma americana.
A dona da plataforma é a Alibaba Cloud, que, por sua vez, é a líder do mercado de computação em nuvem na China. A versão operada atualmente pela Qwen foi lançada em abril de 2025.
O que é o China Media Project
O site é um projeto de pesquisa criado pelos jornalistas chineses Qian Gang e Yuen-ying Chan, professores da Universidade de Hong Kong. Seu papel é analisar a mídia chinesa dentro e fora do país.
Além disso, a plataforma monitora tendências e faz a ponte entre comunicadores que pesquisam liberdade de imprensa. Atualmente, ele tem sede nos Estados Unidos, com ramificações em Taipei e Taiwan.
Inteligência artificial generativa usada para desinformação
A China é alvo frequente de acusações de disseminar de desinformação usando Inteligência Artificial. Em um relatório divulgado em 2024, a OpenAI informou que bloqueou contas do país, da Rússia, do Irã e de Israel por usar a plataforma para cometer crimes digitais.
No caso da China, a OpenAI informou que o país usava a inteligência generativa para praticar “spamouflage”. A técnica consiste em gerar textos em idiomas diversos, como chinês, inglês, japonês e coreano, e, em seguida, postá-los para atacar pessoas em plataformas.
As vítimas do Spamouflage eram, em sua maioria, jornalistas chinesas que trabalhavam no ocidente.
Em 2022 X, Medium e Blogspot, e para depurar código para gerenciar bancos de dados e sites. Pesquisadores australianos afirmaram que a tática seria parte do braço cibernético da repressão wchinesa. O governo do país asiático, porém, nunca confirmou o fato.
Deepseek, outra IA chinesa, também levantou suspeitas
Quando foi lançada em 2025, o modelo de IA R1 da DeepSeek encantou o mercado internacional, mas, em seguida, levantou suspeitas sobre qual tipo de informação repassava.
Pesquisadores fizeram testes com perguntas à plataforma, que rapidamente rejeitavam o repasse de informações sensíveis sobre o país.
Segundo pesquisa da consultoria IA Enkrypt, a plataforma demonstrou ser altamente tendenciosa e suscetível à geração de código inseguro. Além disso, ela tinha a tendência de produzir conteúdo nocivo e tóxico, incluindo discursos de ódio, ameaças e material explícito ou criminoso.
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