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Censura digital

Rússia aplica multa milionária ao Telegram e amplia bloqueio do app no país

Tribunal de Moscou decidiu multar app de mensagem no equivalente a US$ 432.366 (mais de R$ 2,2 milhões)

Telegram tem sido alvo de restrições e multa na Rússia Foto: Christian Wiediger/Unsplash

Telegram tem sido alvo de restrições e multa na Rússia Foto: Christian Wiediger/Unsplash




A Rússia aplicou uma multa milionária contra o aplicativo Telegram ao mesmo tempo em que bloqueou ainda mais o acesso aos seus usuários no país.

De acordo com a agência de notícias russa Interfax, um tribunal de Moscou considerou a empresa culpada por cinco acusações de omissão. O Telegram teria sido omisso em remover conteúdo extremista e pornográfico publicado na rede.

O valor da multa aplicada foi de 35 milhões de rublos, equivalente a US$ 432.366 (ou R$ 2,2 milhões).

Multa acontece durante aumento do bloqueio do app no país

A multa é o segundo grande golpe sofrido pelo Telegram na Rússia neste ano. Em fevereiro, o governo restringiu o funcionamento do app alegando que ele “faz pouco para combater fraudes”.

Neste fim de semana, de acordo com o site de oposição Meduza, que opera no exílio a partir da Letônia, o aplicativo parou de funcionar totalmente no país. Usuários russos, fizeram mais de 18 mil notificações de problemas, a maioria delas em Moscou e em São Petesburgo.

Algumas pessoas relataram que não conseguiam abrir o aplicativo, enquanto outras disseram que não conseguiam enviar fotos e vídeos. Nem mesmo os serviços de VPN e internet móvel, usados para burlar os bloqueios, funcionavam, segundo a publicação.

Telegram rejeita a acusação

Por mais de uma vez, a plataforma negou omissão no controle de conteúdo no país. Para o Telegram, as acusações e a multa do governo da Rússia são mais uma forma de censurar a operação do app.

O criador do Telegram é russo e critica publicamente o governo Putin. Em fevereiro, Pavel Durob ressaltou que a Rússia tenta impor um aplicativo de mensagem desenvolvido pelo estado. 

“Há 8 anos, o Irã tentou a mesma estratégia — e falhou. Proibiu o Telegram sob pretextos inventados, tentando forçar as pessoas a usar uma alternativa estatal.”

Rússia diz que vai trabalhar com redes estrangeiras que seguirem a lei

Mesmo diante de uma série de bloqueios, as autoridades russas continuam negando que tenham planos para banir totalmente as redes do país. O problema é que, para eles, só continuarão operando na Rússia as plataformas “que respeitem a lei”.

O próprio Roskomnadzor, responsável pela censura no país, disse que não restringe os aplicativos estrangeiros – contanto que eles “respeitem a Rússia e seus cidadãos”.

Além disso, segundo o comunicado, os aplicativos precisam ter “conformidade com a legislação vigente”. O governo acusa tanto o Telegram, quando o Whatsapp de ignorar requisitos para operar no país.

Restrições a redes sociais não são novidade

Banimento de redes sociais no país faz parte de estratégia que começou oficialmente em 1º de novembro de 2019. Nesta data, o governo instituiu a “lei da internet soberana” na Rússia. A lei não só dá ao governo poderes para desconectar a Rússia da rede global, como também permite que isso seja feito sem a declaração formal de emergência.

Em agosto de 2025, o alvo da vez foi o Whatsapp. O governo Putin limitou o uso de chamadas de voz e vídeo pela plataforma. Ao mesmo tempo, ele classificou a Meta, dona do aplicativo, como uma organização extremista.

A agência reguladora Roskomnadzor alegou, assim como nesta semana, que fez o banimento por “segurança”. Na verdade, a restrição sinaliza um plano maior do governo Putin.

Enquanto limita as redes estrangeiras, a Rússia trabalha para implementar plataformas desenvolvidas no país. Analistas apontam que isso acontece para que o Estado controle com mais facilidade os usuários.

Aplicativo estatal virou “alternativa”

Como parte dessa estratégia, o governo russo lançou o Max. O aplicativo é da empresa VK Company, que também controla a principal rede social russa, a VKontakte. O Ministério do Desenvolvimento Digital supervisionou a o desenvolvimento de ambos aplicativos.

Apresentado como uma alternativa nacional aos serviços de mensagem, o app saiu de 2 milhões de usuários em agosto para 75 milhões em dezembro de 2025, segundo a própria VK.

O Max concentra funções como mensagens, chamadas, pagamentos, acesso a serviços públicos e mapas. Na prática, ele é um “hub digital” com integração total às plataformas estatais.

Segundo veículos de imprensa independentes russos e ucranianos, o Max permitirá acesso irrestrito ao microfone dos usuários. Ele também acessará a câmera, localização, contatos e arquivos de quem o baixar.

O aplicativo coleta dados com privilégios avançados (conhecidos como “root”), enviando-os aos servidores do governo.

De acordo com a publicação especializada em tecnologia TechRadar, o Max pode também descobrir se usuário está usando uma VPN, identificar o endereço IP do servidor VPN, consulte o ISP do usuário, e detectar quais restrições ou bloqueios oficiais o usuário está contornando.

Instalação obrigatória e vigilância ampliada

Putin sancionou, em setembro de 2025, uma lei determinando a instalação do Max em todos os smartphones vendidos na Rússia. As configurações do sistema dificultam a exclusão do aplicativo, ao mesmo tempo em que permitem compartilhar dados com autoridades mediante solicitação, conforme os termos de uso.

Grupos de direitos digitais têm expressado preocupação com a medida. Eles enxergam a lei como uma forma de vigilância em massa, similar ao modelo adotado pelo governo chinês com o app WeChat.

O Kremlin avança na construção da RuNet, uma infraestrutura digital própria, projetada para funcionar de forma autônoma e blindada contra o que o governo considera influências externas indesejáveis.

Liberdade de imprensa na Rússia

A liberdade de imprensa na Rússia foi sistematicamente reduzida por meio de leis restritivas nos últimos anos. O governo Putin comete perseguição judicial enquanto faz controle estatal dos principais veículos de comunicação.

O país está em 177º lugar entre 180 nações no Global Press Freedom Index da organização Repórteres Sem Fronteiras, que mede a liberdade de imprensa no mundo.


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