A decisão do órgão regulador de telecomunicações dos EUA aprovando a fusão das empresas de radiodifusão Tegna e Nexstar foi recebida com preocupação por organizações que defendem a liberdade de imprensa, devido ao risco de concentração de propriedade de mídia.
Em nota sobre a fusão, o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) afirmou que a aprovação confirmada na quinta-feira (19) viola as próprias normas e regulamentos, do FCC (Comissão Federal de Comunicações), “e representa um sinal preocupante de concentração de mídia patrocinada pelo governo nos Estados Unidos.”
A Repórteres Sem Fronteiras advertiu que a fusão, que já está sendo questionada judicialmente em alguns estados, “é um desastre para a liberdade de imprensa americana”.
O negócio foi aprovado na quinta-feira (20). A Tegna, que possui estações de televisão locais em todo o país, foi vendida para a rival Nexstar, que disse que suas estações agora atingirão 80% das famílias dos EUA.
No comunicado à imprensa confirmando o negócio, o fundador e CEO da Nexstar, Perry Sook, agradeceu ao presidente Trump, ao chefe do FCC, Brendan Carr, e ao Departamento de Justiça por “reconhecerem a dinâmica de forças moldando a indústria de mídia e permitindo que a transação fosse concluída”.
Para o CPJ, no entanto, a visão é outra.
“Esta decisão altamente incomum foi tomada sem um processo aberto, sem votação completa da FCC e em flagrante violação das restrições atuais em relação ao alcance da mídia”, disse a CEO do CPJ, Jodie Ginsberg.
Regras de propriedade de mídia podem ser alteradas?
Segundo a RSF, para aprovar a fusão, o FCC renunciou à sua própria regra que garante que nenhum grupo de estações possa alcançar mais de 39% das famílias dos EUA. A empresa recém-formada alcançaria mais do que o dobro desse número.
“A desregulamentação da propriedade da mídia tem sido uma prioridade para o presidente da FCC nomeado pelo presidente Donald Trump, Brendan Carr, que implicitamente vinculou a aprovação deste acordo às suas próprias ameaças contra a mídia quando encorajou os proprietários de estações como a Nexstar a boicotarem o apresentador Jimmy Kimmel, efetivamente coagindo a mídia a se autocensurar em troca de um resultado favorável”, apontou a RSF.
A Nexstar removeu brevemente o talk show “Jimmy Kimmel Live!” de suas afiliadas da rede ABC em setembro de 2025, levando a uma suspensão do programa e protestos nacionais dos defensores da liberdade de expressão.
A FCC disse que tem poderes para alterar a regra de propriedade, mas especialistas jurídicos afirmam que a agência não tem autoridade para alterar a regra sem ação do Congresso, apontou o Comitê.
“Vimos em nosso trabalho em todo o mundo que a consolidação corporativa da mídia, especialmente em nível local, dificulta severamente o acesso a informações que são de interesse público”, acrescentou Jodie Ginsberg.
Estados contra a concentração de mídia
A comissária da FCC, Anna Gomez, a única Comissária Democrata, criticou a fusão e a falta de transparência no processo de aprovação. Oito estados entraram com uma ação no tribunal federal da Califórnia na quarta-feira para bloquear a fusão.
Algumas emissoras acreditam que o acordo apoiará a sustentabilidade financeira do jornalismo local, já que as afiliadas locais competem com redes nacionais, serviços de streaming e notícias de mídia social.
A Associação Nacional de Emissores chamou o limite de propriedade de “desatualido” sem tomar uma posição específica sobre a transação, de acordo com o CPJ.
Outros antecipam que a fusão causará perda de empregos para jornalistas locais e profissionais de mídia, e aumentará os preços para os consumidores. Dezenas de jornalistas já foram demitidos pela Nexstar em Nova York, Los Angeles e Chicago em antecipação à fusão, alertou a ONG.
O CPJ expressou também preocupação com um padrão de ameaças politizadas e ações retaliatórias da FCC na segunda administração Trump. Há duas semanas ele endossou uma declaração de Brendan Carr afirmando que licenças de transmissão poderiam ser revistas se a cobertura da guerra com o Irã não estivesse de acordo com o que o governo entende como interesse nacional.
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