O bilionário James Murdoch, filho do magnata conservador da mídia Rupert Murdoch, anunciou a compra de cerca de metade da Vox Media, uma operação que vai além do aspecto comercial e representa um novo capítulo na história da família que muitos apontam como inspiração da série Succession.
James discordava abertamente da linha política e editorial de empresas da família – e do pai – em temas como proteção ambiental e tratamentos para a Covid-19. Ele rompeu com o grupo em 2019, quando criou a empresa Lupa Systems, com negócios em mídia e eventos.
Em 2023 o patriarca passou o controle do conglomerado para o filho mais novo, Lachan, e em 2024 tentou judicialmente alterar as regras do trust familiar seu preferido no controle após sua morte. James e as irmãs contestaram a tentativa, mas a ação acabou em acordo, consolidando Lachan no topo.
Com a compra da Vox, James Murdoch escala sua presença do mundo da mídia ao adquirir marcas importantes e influentes da Vox: a rede de podcasts, o site de notícias Vox e a New a New York Magazine, que já foi do grupo familiar. .
Por que a Vox vendeu ativos
A Vox Media foi fundada em 2011 por três nomes centrais do jornalismo digital: Jim Bankoff, Ezra Klein e Matthew Yglesias. A empresa nasceu a partir do site SB Nation, que já era liderado por Bankoff, e depois se expandiu com o lançamento do Vox.com
Assim como outras empresas de mídia digital, ela vinha sofrendo com a queda da publicidade online e pela a redução de tráfego causada por mudanças nos motores de busca e pela IA. E decidiu vender seus ativos separadamente porque entender que cada marca isolada valia mais do que o grupo inteiro.
As partes começaram a negociar no ano passado, quando outra empresa mostrou interesse na rede de podcasts da Vox. Elas não divulgaram o valor da transação, mas a estimativa de fontes familiarizadas com o assunto é de um investimento de US$ 300 milhões.
Dentro da rede de podcasts está o famoso “Today, Explained”, de notícias; “Criminal”, de true crime, e o “America, Actually”, sobre política, cultura e economia. Já no caso da New York Magazine, a aquisição também inclui o “The Cut” e a “Vulture”.
A compra não inclui outras marcas da Vox Media, como o site The Dodo, o The Verge, Popsugar e o site gastronômico Eater. Essas marcas serão parte de um novo conglomerado que ainda não tem nome.
Murdoch queria “Jornalismo aprofundado e reflexivo”
Em entrevista ao The New York Times para anunciar a compra da Vox Media, James Murdoch afirmou que não queria uma “empresa de notícias diárias”, e sim um “jornalismo mais aprofundado e reflexivo, que realmente possa dialogar com a cultura”.
“Queremos criar plataformas onde pessoas realmente incríveis e talentosas possam vir e fazer o melhor trabalho das suas vidas.”
Ao lado dele, Jim Bankoff, diretor executivo da Vox, também comemorou a transação e disse que buscava um “gestor a longo prazo”. “Não ficamos parados reclamando, embora tivéssemos todos os motivos para reclamar”, afirmou.
Apesar de a New York Magazine já ter sido de propriedade do pai dele, o conservador Rupert Murdoch, James negou que a compra em questão tenha qualquer significado especial.
“Estou apenas tentando construir um grande negócio.”
Quando anunciou a venda aos seus funcionários, Bankoff explicou que a transação vai durar cerca de seis semanas até ser concluída.
Ele vendeu a negociação como algo positivo para as duas companhias criadas a partir de agora.
“Cada companhia ficará mais bem posicionada para crescer com um portfólio focado de negócios complementares.”
Sobrenome poderoso do mundo da mídia
Nascido na Austrália, Rupert Murdoch herdou do pai o controle de um pequeno jornal e o transformou em um império global.
O grupo detém a News Corp, dona de jornais e TVs em vários países, e a Fox Corporation, que inclui a Fox News, canal conservador que abraçou Donald Trump durante o seu primeiro mandato.
James Murdoch fundou a Lupa Systems em 2019 para se afastar do conglomerado conservador. No ano seguinte, ele pediu demissão do cargo de conselheiro da News Corp. alegando discordâncias editoriais e “diferenças irreconciliáveis” com o pai.
Em 2023, o patriarca anunciou a aposentadoria do cargo de executivo principal do conglomerado, e passou o poder ao filho Lachlan, um conservador que já era seu braço-direito.
Em 2024, preocupado com a divisão do poder entre os filhos após a sua morte, Murdoch pediu judicialmente mudança das regras do trust. De acordo com o pedido, a concentração de poder nas mãos de Lachlan seria benéfica para os negócios do grupo, era baseada em boa-fé, e traria vantagens para todos os herdeiros.
Em outras palavras, o alinhamento do irmão de James ao conservadorismo e à extrema-direita era lucrativo. A partir daí, uma batalha judicial começou, liderada pelo filho mais velho e apoiada pelas duas irmãs.
Desfecho da saga Murdoch
Em setembro de 2025, a família confirmou que firmou um acordo sobre a batalha judicial. Segundo o documento judicial, Lachlan manteve o comando do grupo, enquanto James e as duas filhas mais velhas de Rupert, Elisabeth e Prudence, receberam cerca de US$ 1,1 bilhão cada. Com esse dinheiro, elas abriram mão de participação e poder de voto no conglomerado de mídia.
Hoje, mesmo tendo se afastado oficialmente da liderança do conglomerado, Rupert Murdoch segue influente e aparentemente participando das decisões sobre os negócios, como a de lançar um jornal na Califórnia nos moldes do sensacionalista New York Post.
O bilionário também comprou uma briga com Donald Trump, a quem sempre apoiou, ao discordar dele sobre a política tarifária e ao deixar um de deus jornais publicar uma notícia desagradável envolvendo o nome do republicano.
Após a publicação de uma mensagem de aniversário de Trump ao pedófilo Jeffrey Epstein, o presidente processou Murdoch e o Wall Street Journal.
No mês passado, um juíz da Flórida rejeitou o processo, afirmando que as alegações do presidente eram insuficientes.
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