© Conteúdo protegido por direitos autorais

Soft Power

EUA perdem força, China avança e Brasil sobe em ranking de soft power lançado em Davos

Relatório da consultoria Brand Finance traz o país em 29º, retornando aos Top 30 do ranking de influência

Donald Trump assistindo a discurso do presidente Lula na Assembleia Geral da ONU em Nova York em 2025

A ONU divulgou foto de Donald Trump assistindo ao discurso do presidente Lula na Assembleia Geral da organização, em 2025.



Ranking de Soft Power 2026 divulgado no Fórum de Davos traz Brasil em 29º e mostra abalos na reputação global dos EUA, enquanto a China ganha pontos em atributos importantes e se aproxima do líder em influência.


A edição 2026 do Global Soft Power Index, elaborada pela consultoria Brand Finance e lançada durante o Fórum Econômico Mundial que termina hoje (23) em Davos – com a batalha de Donald Trump pela anexação da Groenlândia como principal “atração” – revela uma reconfiguração na percepção internacional sobre as principais nações do mundo -e ganhos para o Brasil.

Embora os EUA continuem em primeiro lugar entre os países mais influentes sem uso de força militar ou poderio econômico, vários indicadores que formam a posição no índice caíram, refletindo atos represssivos e intervencionistas. Já os da China, que continua em segundo lugar no ranking de soft power, subiram.

O Brasil passou de 31º para 29º, voltando ao grupo das 30 nações com maior soft power do mundo, depois de vários anos fora dessa faixa, e se mantém como o mais influente da América Latina.

Embora ainda distante das lideranças globais, o país apresentou melhora na pontuação geral (49.2, um aumento de 0.4 em relação a 2025) e avanço em indicadores associados à cultura, comportamento e esportes.

Mas tem deficiências na percepção sobre questões que impactam negócios, como segurança e taxa de corrupção. E enfrenta concorrência da Argentina, que subiu cinco posições e está em 37º.

Como é calculado o Global Soft Power Index

A metodologia do Global Soft Power Index da Brand Finance combina dados quantitativos e qualitativos em uma escala de 0 a 100, considerando 55 métricas agrupadas em pilares como governança, negócios e comércio, educação e ciência, cultura e patrimônio, relações internacionais e sustentabilidade.

O conceito de soft power adotado pelo estudo se refere à capacidade de um país de atrair e persuadir, em vez de impor, moldando preferências e comportamentos no cenário internacional.

Com base em uma pesquisa com mais de 150 mil pessoas em mais de 100 países, o índice avalia o desempenho de todos os 193 Estados-membro da ONU, analisando como são vistos globalmente em aspectos como influência, reputação, valores e cultura.

Tabela soft power 2026 Brand Finance
Screenshot

Estados Unidos sofrem maior queda, mas ainda lideram

Os Estados Unidos permanecem no topo do ranking, mas o destaque vai para a sua acentuada perda de imagem: a pontuação caiu 4,6 pontos em relação ao ano anterior, a maior queda entre todos os países avaliados.

Esse declínio está ligado a uma piora na reputação, que caiu 11 posições, e em atributos tradicionalmente associados ao soft power norte-americano, como relações diplomáticas, valores democráticos e liderança global.

Indicadores como confiança, apoio ao combate às mudanças climáticas, estabilidade política e padrões éticos também apresentaram retrações relevantes sob Donald Trump.

Cultura e influência mantêm EUA no topo

Apesar disso, os Estados Unidos ainda se sustentam na primeira posição graças ao seu poder de influência cultural e midiática, ocupando o primeiro lugar em familiaridade e influência, além de liderar em áreas como entretenimento e exploração espacial.

Marcas icônicas, esportes, inovação tecnológica e o papel dominante de figuras políticas — incluindo o ex-presidente Donald Trump, que continua moldando o noticiário global — reforçam a visibilidade internacional do país, mesmo em meio a um desgaste em sua imagem geral, segundo o estudo da Brand Finance.

China se aproxima com avanços estruturais

A China, por sua vez, manteve a segunda colocação e reduziu a distância para os Estados Unidos para menos de 1,5 ponto.

O país asiático melhorou em 19 dos 35 atributos avaliados e apresentou avanços consistentes em reputação, governança, educação, ciência e futuro sustentável.

Pela primeira vez, a China superou os Estados Unidos em reputação e passou a liderar globalmente em categorias como inovação, tecnologia e facilidade para fazer negócios.

A combinação entre crescimento econômico, coerência estratégica e projeção internacional contribui para consolidar a China como a principal alternativa ao domínio simbólico dos EUA no cenário global.

Brasil retorna ao top 30 com avanço em imagem cultural

Entre todos os atributos avaliados, o Brasil ficou em primeiro lugar – superando a Argentina – em Esportes, assim como nos anos anteriores, recebendo 4,6 pontos.  E se destacou em atributos ligados a aspectos culturais e sociais.

A familiaridade com o país é alta, marcando 8,1 pontos.

As pontuações ficaram acima de 5 em “bom lugar para se visitar” (7,7) , “influente em artes e entretenimento” (5,1), herança cultural ( 5,2), “divertido” (7,1), “amigável (7,7%) e “com potencial de crescimento futuro” (5,2).

Já a pontuação como “nação admirada por outros líderes globais” foi de apenas 2,5. Em “altos padrões éticos e baixa corrupção” o país recebeu nota 2,5, e em “segurança” apenas 2,1, refletindo problemas históricos que aparecem na mídia global.

Outro item preocupante é a pontuação em proteção ambiental, a despeito da visibilidade durante a COP30: apenas 3,4.

Veja os principais países no ranking Soft Power 2026

Japão: turismo e governança impulsionam ascensão ao top 3

O Japão subiu para a terceira colocação no ranking de 2026, ultrapassando o Reino Unido. O desempenho foi impulsionado por bons resultados nos pilares de comércio, sustentabilidade, governança e educação.

A retomada do turismo também teve impacto positivo, com melhora nas percepções sobre estilo de vida, atratividade como destino e simpatia — atributos fortemente associados à experiência direta com o país.

Suíça: consistência e confiança consolidam liderança em atributos

A Suíça lidera em número de métricas individuais do índice, ocupando o primeiro lugar em 17 dos 55 atributos avaliados.

O país manteve sua imagem como referência de estabilidade, confiabilidade e competência, com forte desempenho em governança, economia e diplomacia. Mesmo em um cenário global de declínio, a marca-país suíça demonstrou resiliência exemplar.

Emirados Árabes Unidos: influência regional e reputação em alta

Os Emirados Árabes Unidos entraram no top 10 global com avanços em reputação, influência e percepção de sustentabilidade.

A estratégia de posicionamento como mediador diplomático e parceiro confiável em comércio e investimentos contribuiu para consolidar sua presença no cenário internacional, reforçando a imagem de país-pivô entre Ocidente e Oriente.

Coreia do Sul: cultura pop compensa desafios de governança

A Coreia do Sul alcançou a 11ª posição no ranking, impulsionada pelo sucesso global de sua indústria cultural.

O impacto internacional do K-pop, dos K-dramas e da cosmética coreana (K-beauty) ajudou a melhorar os indicadores de familiaridade e influência, compensando a queda em governança provocada por turbulências políticas recentes.

Itália: alinhamento estratégico minimiza perdas

A Itália registrou a menor queda entre os dez primeiros colocados.

A combinação de alianças tradicionais com uma retórica populista internacionalmente reconhecível — especialmente sob a liderança de Giorgia Meloni — permitiu ao país manter relevância mesmo em um contexto adverso.

Argentina: salto histórico no ranking

A Argentina protagonizou o maior avanço dentro do top 50, subindo cinco posições e alcançando seu melhor desempenho desde que o índice foi criado.

O país soube aproveitar a visibilidade internacional de sua nova administração e reposicionar sua imagem combinando discursos populistas com rearticulação diplomática.

Reino Unido: perda de relevância e desgaste pós-Brexit

O Reino Unido caiu para a quarta colocação, seu pior desempenho histórico. A reputação britânica caiu para o sexto lugar, acompanhada por uma percepção de perda de relevância nos assuntos globais.

As causas apontadas incluem desinvestimento em estratégias de soft power, desafios pós-Brexit, tensões internas e controvérsias em torno das políticas migratórias e de liberdade de expressão.

Alemanha e França: sinais de esgotamento das potências europeias

A Alemanha e a França registraram quedas expressivas em 2026. A Alemanha perdeu pontos nos pilares de economia, ciência, tecnologia e influência diplomática, com a mudança de governo e a ausência de uma liderança com o mesmo prestígio internacional de Angela Merkel.

A França, assim como Canadá, Suécia e Austrália, sofreu uma queda mais ampla, refletindo um enfraquecimento do entusiasmo global pelas democracias ocidentais tradicionais.

Rússia, Coreia do Norte e Burkina Faso: avanços inesperados

Países considerados “estados desafiadores” também apresentaram avanços inesperados, segundo a Brand Finance. A Rússia subiu para a 14ª posição, e a Coreia do Norte foi o país que mais cresceu dentro do top 100.

Já Burkina Faso teve o maior crescimento geral de pontuação, atribuído à percepção positiva sobre a nova liderança de Ibrahim Traoré em áreas como governança e comunicação, apesar de ainda ter desempenho fraco nos pilares estruturais como comércio, ciência e cultura.

Israel: queda acentuada por percepção de contradição

Israel teve a maior queda entre os 50 primeiros colocados, com forte redução na reputação e na influência.

O relatório destaca que, quando o público global percebe uma desconexão entre os valores proclamados por uma nação e suas ações concretas, a penalização afeta diversos domínios, inclusive os aparentemente desconectados de crises ou conflitos específicos.

error: O conteúdo é protegido.