A edição 2026 do Global Soft Power Index, elaborada pela consultoria Brand Finance e lançada durante o Fórum Econômico Mundial que termina hoje (23) em Davos – com a batalha de Donald Trump pela anexação da Groenlândia como principal “atração” – revela uma reconfiguração na percepção internacional sobre as principais nações do mundo -e ganhos para o Brasil.
Embora os EUA continuem em primeiro lugar entre os países mais influentes sem uso de força militar ou poderio econômico, vários indicadores que formam a posição no índice caíram, refletindo atos represssivos e intervencionistas. Já os da China, que continua em segundo lugar no ranking de soft power, subiram.
O Brasil passou de 31º para 29º, voltando ao grupo das 30 nações com maior soft power do mundo, depois de vários anos fora dessa faixa, e se mantém como o mais influente da América Latina.
Embora ainda distante das lideranças globais, o país apresentou melhora na pontuação geral (49.2, um aumento de 0.4 em relação a 2025) e avanço em indicadores associados à cultura, comportamento e esportes.
Mas tem deficiências na percepção sobre questões que impactam negócios, como segurança e taxa de corrupção. E enfrenta concorrência da Argentina, que subiu cinco posições e está em 37º.
Como é calculado o Global Soft Power Index
A metodologia do Global Soft Power Index da Brand Finance combina dados quantitativos e qualitativos em uma escala de 0 a 100, considerando 55 métricas agrupadas em pilares como governança, negócios e comércio, educação e ciência, cultura e patrimônio, relações internacionais e sustentabilidade.
O conceito de soft power adotado pelo estudo se refere à capacidade de um país de atrair e persuadir, em vez de impor, moldando preferências e comportamentos no cenário internacional.
Com base em uma pesquisa com mais de 150 mil pessoas em mais de 100 países, o índice avalia o desempenho de todos os 193 Estados-membro da ONU, analisando como são vistos globalmente em aspectos como influência, reputação, valores e cultura.

Estados Unidos sofrem maior queda, mas ainda lideram
Os Estados Unidos permanecem no topo do ranking, mas o destaque vai para a sua acentuada perda de imagem: a pontuação caiu 4,6 pontos em relação ao ano anterior, a maior queda entre todos os países avaliados.
Esse declínio está ligado a uma piora na reputação, que caiu 11 posições, e em atributos tradicionalmente associados ao soft power norte-americano, como relações diplomáticas, valores democráticos e liderança global.
Indicadores como confiança, apoio ao combate às mudanças climáticas, estabilidade política e padrões éticos também apresentaram retrações relevantes sob Donald Trump.
Cultura e influência mantêm EUA no topo
Apesar disso, os Estados Unidos ainda se sustentam na primeira posição graças ao seu poder de influência cultural e midiática, ocupando o primeiro lugar em familiaridade e influência, além de liderar em áreas como entretenimento e exploração espacial.
Marcas icônicas, esportes, inovação tecnológica e o papel dominante de figuras políticas — incluindo o ex-presidente Donald Trump, que continua moldando o noticiário global — reforçam a visibilidade internacional do país, mesmo em meio a um desgaste em sua imagem geral, segundo o estudo da Brand Finance.
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China se aproxima com avanços estruturais
A China, por sua vez, manteve a segunda colocação e reduziu a distância para os Estados Unidos para menos de 1,5 ponto.
O país asiático melhorou em 19 dos 35 atributos avaliados e apresentou avanços consistentes em reputação, governança, educação, ciência e futuro sustentável.
Pela primeira vez, a China superou os Estados Unidos em reputação e passou a liderar globalmente em categorias como inovação, tecnologia e facilidade para fazer negócios.
A combinação entre crescimento econômico, coerência estratégica e projeção internacional contribui para consolidar a China como a principal alternativa ao domínio simbólico dos EUA no cenário global.
Brasil retorna ao top 30 com avanço em imagem cultural
Entre todos os atributos avaliados, o Brasil ficou em primeiro lugar – superando a Argentina – em Esportes, assim como nos anos anteriores, recebendo 4,6 pontos. E se destacou em atributos ligados a aspectos culturais e sociais.
A familiaridade com o país é alta, marcando 8,1 pontos.
As pontuações ficaram acima de 5 em “bom lugar para se visitar” (7,7) , “influente em artes e entretenimento” (5,1), herança cultural ( 5,2), “divertido” (7,1), “amigável (7,7%) e “com potencial de crescimento futuro” (5,2).
Já a pontuação como “nação admirada por outros líderes globais” foi de apenas 2,5. Em “altos padrões éticos e baixa corrupção” o país recebeu nota 2,5, e em “segurança” apenas 2,1, refletindo problemas históricos que aparecem na mídia global.
Outro item preocupante é a pontuação em proteção ambiental, a despeito da visibilidade durante a COP30: apenas 3,4.
Veja os principais países no ranking Soft Power 2026
Japão: turismo e governança impulsionam ascensão ao top 3
O Japão subiu para a terceira colocação no ranking de 2026, ultrapassando o Reino Unido. O desempenho foi impulsionado por bons resultados nos pilares de comércio, sustentabilidade, governança e educação.
A retomada do turismo também teve impacto positivo, com melhora nas percepções sobre estilo de vida, atratividade como destino e simpatia — atributos fortemente associados à experiência direta com o país.
Suíça: consistência e confiança consolidam liderança em atributos
A Suíça lidera em número de métricas individuais do índice, ocupando o primeiro lugar em 17 dos 55 atributos avaliados.
O país manteve sua imagem como referência de estabilidade, confiabilidade e competência, com forte desempenho em governança, economia e diplomacia. Mesmo em um cenário global de declínio, a marca-país suíça demonstrou resiliência exemplar.
Emirados Árabes Unidos: influência regional e reputação em alta
Os Emirados Árabes Unidos entraram no top 10 global com avanços em reputação, influência e percepção de sustentabilidade.
A estratégia de posicionamento como mediador diplomático e parceiro confiável em comércio e investimentos contribuiu para consolidar sua presença no cenário internacional, reforçando a imagem de país-pivô entre Ocidente e Oriente.
Coreia do Sul: cultura pop compensa desafios de governança
A Coreia do Sul alcançou a 11ª posição no ranking, impulsionada pelo sucesso global de sua indústria cultural.
O impacto internacional do K-pop, dos K-dramas e da cosmética coreana (K-beauty) ajudou a melhorar os indicadores de familiaridade e influência, compensando a queda em governança provocada por turbulências políticas recentes.
Itália: alinhamento estratégico minimiza perdas
A Itália registrou a menor queda entre os dez primeiros colocados.
A combinação de alianças tradicionais com uma retórica populista internacionalmente reconhecível — especialmente sob a liderança de Giorgia Meloni — permitiu ao país manter relevância mesmo em um contexto adverso.
Argentina: salto histórico no ranking
A Argentina protagonizou o maior avanço dentro do top 50, subindo cinco posições e alcançando seu melhor desempenho desde que o índice foi criado.
O país soube aproveitar a visibilidade internacional de sua nova administração e reposicionar sua imagem combinando discursos populistas com rearticulação diplomática.
Reino Unido: perda de relevância e desgaste pós-Brexit
O Reino Unido caiu para a quarta colocação, seu pior desempenho histórico. A reputação britânica caiu para o sexto lugar, acompanhada por uma percepção de perda de relevância nos assuntos globais.
As causas apontadas incluem desinvestimento em estratégias de soft power, desafios pós-Brexit, tensões internas e controvérsias em torno das políticas migratórias e de liberdade de expressão.
Alemanha e França: sinais de esgotamento das potências europeias
A Alemanha e a França registraram quedas expressivas em 2026. A Alemanha perdeu pontos nos pilares de economia, ciência, tecnologia e influência diplomática, com a mudança de governo e a ausência de uma liderança com o mesmo prestígio internacional de Angela Merkel.
A França, assim como Canadá, Suécia e Austrália, sofreu uma queda mais ampla, refletindo um enfraquecimento do entusiasmo global pelas democracias ocidentais tradicionais.
Rússia, Coreia do Norte e Burkina Faso: avanços inesperados
Países considerados “estados desafiadores” também apresentaram avanços inesperados, segundo a Brand Finance. A Rússia subiu para a 14ª posição, e a Coreia do Norte foi o país que mais cresceu dentro do top 100.
Já Burkina Faso teve o maior crescimento geral de pontuação, atribuído à percepção positiva sobre a nova liderança de Ibrahim Traoré em áreas como governança e comunicação, apesar de ainda ter desempenho fraco nos pilares estruturais como comércio, ciência e cultura.
Israel: queda acentuada por percepção de contradição
Israel teve a maior queda entre os 50 primeiros colocados, com forte redução na reputação e na influência.
O relatório destaca que, quando o público global percebe uma desconexão entre os valores proclamados por uma nação e suas ações concretas, a penalização afeta diversos domínios, inclusive os aparentemente desconectados de crises ou conflitos específicos.
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