O Google e os veículos de imprensa vivem há anos uma disputa em torno do uso de conteúdo jornalístico sem remuneração, e o Reino Unido acaba de dar um passo para obrigar a plataforma a reduzir o impacto dos resumos de notícias feitos por IA e exibidos aos usuários no topo da tela de buscas.
A Autoridade de Competição e Mercados (CMA) do país propôs nesta quarta-feira (28) um pacote de medidas que foi chamado pela instituição de “um acordo mais justo” para os dois lados, colocando-as em consulta pública.
Embora o problema não seja novo, ele se intensificou quando o Google passou a exibir no topo da página de resultados resumos de notícias feitos por inteligência artificial, usando informações de veículos jornalísticos.
A medida levou a uma queda nos acessos dos sites de notícias, uma vez que os internautas não precisam mais clicar nas chamadas das matérias para entender os acontecimentos. Isso acarreta perda de audiência e de receita dos veículos.
Segundo a CMS, a Busca do Google responde por mais de 90% de todas as pesquisas gerais no Reino Unido, com milhões de pessoas dependendo dela como principal porta de entrada para a internet. Mais de 200 mil empresas no Reino Unido gastaram juntas mais de £ 10 bilhões em publicidade nos mecanismos de busca do Google no ano passado.
“Esses serviços são importantes para a economia e a sociedade britânicas, por isso é fundamental que a concorrência funcione de forma saudável”, disse o órgão ao anunciar a consulta pública, cujos subsídios serão utilizados para formular a regra definitiva.
O que a CMA propõe
A autoridade britânica quer mais controle e tratamento mais justo para as empresas jornalísticas, com mais opções e transparência sobre como seu conteúdo é usado nas Visões Gerais de IA do Google (AI Overview).
Pela proposta, os editores poderão optar por não ter seu conteúdo usado para alimentar recursos de IA, como as Visões Gerais de IA, ou para treinar modelos de IA fora da Busca do Google, o que não acontece atualmente. O Google também será obrigado a tomar medidas práticas para garantir que o conteúdo dos editores seja devidamente atribuído nos resultados de IA.
O pacote prevê também que a abordagem do Google para classificar os resultados de pesquisa seja justa e transparente para as empresas, com um processo eficaz para relatar e investigar problemas. O Google deverá demonstrar à CMA e aos seus usuários que classifica os resultados de pesquisa de forma justa, inclusive em suas Visões Gerais de IA e Modo IA.
O órgão propõe ainda mais transparência sobre o sistema de ranqueamento de resultados e maior facilidade para que as pessoas usem outros mecanismos de busca, criando páginas de escolha entre buscadores como padrão.
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Autoridade defende mudanças
O pacote proposto pelo CMA foi submetido a uma consulta pública, que está aberta. A autoridade afirma que “as medidas foram concebidas para apoiar a inovação e o crescimento, garantindo que as pessoas se beneficiem de uma experiência digital de alta qualidade”.
Segundo Sarah Cardell, diretora-executiva da CMA, “essas ações dariam às empresas e aos consumidores do Reino Unido mais opções e controle sobre como interagem com os serviços de busca do Google”.
Ela apontou também que as medidas aumentariam oportunidades de inovação no setor de tecnologia.
“Elas também proporcionariam um tratamento mais justo para os editores de conteúdo, principalmente organizações de notícias, sobre como seu conteúdo é usado nas Visões Gerais de IA do Google.”
Reações à proposta da CMA
O jornal britânico The Guardian ouviu representantes da imprensa sobre as propostas da CMA. De acordo com o jornal, elas foram bem recebidas, mas o fato de que a autoridade vai esperar um ano antes de adotar qualquer mudança frustrou alguns.
O Google, por sua vez, recebeu as sugestões com ceticismo, apesar de afirmar já estar trabalhando para permitir que os sites de notícias possam se descadastrar dos resumos de IA.
“Qualquer novo controle precisa evitar quebrar a busca de uma forma que leve a uma experiência fragmentada ou confusa.”
O diretor de gestão de produtos do Google, Ron Eden, disse ao Guardian que a empresa aguarda o resultado da consulta da CMA e que continuará debatendo o tema.
“Nosso objetivo é proteger a utilidade da busca para pessoas que desejam informações rapidamente, ao mesmo tempo em que oferecemos aos sites as ferramentas adequadas para gerenciar seu conteúdo.”
Histórico de tensões entre Google e veículos de imprensa
A tensão entre veículos de notícias e o Google não é novidade e esta também não é a primeira vez que o assunto é levado a instâncias de governo.
No próprio Reino Unido, em dezembro de 2024 o governo propôs uma lei que autoriza empresas de tecnologia a usar conteúdos de notícias ou artísticos para treinar modelos de IA, sem que seja necessário pagar direitos autorais.
O projeto enfureceu não apenas empresas de mídia, mas também artistas, com nomes como Paul McCartney e Elton John fazendo críticas públicas.
A União Europeia foi por outra direção e já abriu mais de uma investigação contra o Google por uso de conteúdo de maneira indevida e por desfavorecimento de sites de notícias nos resultados de busca.
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