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Liberdade de imprensa

Ex-âncora da CNN é solto nos EUA após detenção por cobrir ato contra o ICE em igreja de Minnesota

Juiz federal entendeu que prisão foi feita sem justa causa; jornalista teve que pagar fiança e responderá a processo

Don Lemon jornalista preso nos EUA cobrindo protesto contra o ICE em igreja

Don Lemon na cobertura do protesto que o levou para a prisão (reprodução YouTube)



Um dos mais conhecidos nomes da TV americana, o jornalista Don Lemon deixou a cadeia um dia após sua detenção devido à cobertura de um ato contra as perseguições a imigrantes em uma igreja em Minnesota, e promete não ser silenciado.


“Eu nunca vou parar”, disse o jornalista americano Don Lemon ao ser solto mediante pagamento de fiança nesta sexta-feira após passar o dia na cadeia sob acusação de “interferir em um culto religioso” por ter coberto um protesto contra as forças de segurança do ICE (Immigration and Custom’s Enforcement) em uma igreja em Minnesota.

Lemon é um jornalista com mais de 30 anos de experiência que trabalhou na CNN por 17 anos e atualmente atua de forma independente, publicando em seu Substack. Ele foi preso em Los Angeles na noite de quinta-feira (29), onde estava para a cobertura dos prêmios Grammy.

A jornalista Georgia Fort também foi presa, em casa, pelo mesmo motivo.

O caso provocou indignação de organizações que acompanham a deterioração da liberdade de imprensa nos EUA desde que Donald Trump assumiu o cargo, há pouco mais de um ano.

O Comitê de Proteção aos Jornalistas (CPJ) condenou a prisão de Don Lemon e Georgia Fort durante um protesto contra as forças de segurança do ICE (Immigration and Custom’s Enforcement) nos Estados Unidos.

“Este é um ataque flagrante à Primeira Emenda [da Constituição americana] e à capacidade dos jornalistas de exercerem seu trabalho”, disse Jodie Ginsberg, diretora-executiva do Comitê de Proteção aos Jornalistas (CPJ). 

“Como organização internacional, sabemos que o tratamento dado aos jornalistas é um importante indicador da condição da democracia de um país. Essas prisões são apenas as mais recentes em uma série de ameaças crescentes à imprensa nos Estados Unidos – e um ataque ao direito das pessoas de saber.”

Um juiz federal considerou que o governo Trump não tinha justa causa para prender Lemon e vários outros réus com base em uma lei federal que, segundo um alto funcionário do Departamento de Justiça, nunca havia sido usada antes no contexto de um protesto em uma igreja.

Ao ser libertado, Don Lemon declarou:

“A Primeira Emenda da Constituição me protege, assim como a diversos outros jornalistas que fazem o que eu faço. Estou ao lado de todos eles e não serei silenciado. Aguardo ansiosamente o meu dia [de depoimento]  no tribunal.”

Entenda o que aconteceu

As prisões de Lemon e Frost,  jornalista independente detentora de um prêmio Emmy. estão relacionadas à cobertura de um ato contra o ICE que aconteceu no dia 18 de janeiro em uma igreja na cidade de St. Paul, cidade vizinha a Minneapolis, onde as tensões entre a populações e os agentes de segurança estão mais intensas desde a morte de Renee Gold e Alex Pretti durante protestos.

Em um vídeo publicado em seu canal no YouTube, Lemon relata o protesto de dentro da igreja, realizado por manifestantes que interromperam o culto sob o argumento de que um diretor do ICE é pastor na congregação.

A procuradora-geral dos Estados Unidos, Pam Bondi, publicou em seu perfil no X que os jornalistas e outras duas pessoas foram presas por ordem dela.

Em seguida, ela publicou um vídeo dizendo que neste governo as pessoas têm o direito ao culto, em referência ao suposto bloqueio da entrada da igreja.

Quais são as acusações contra eles

Lemon foi acusado de conspirar para privar outros de seus direitos civis e violar a Lei de Liberdade de Acesso às Entradas de Clínicas (FACE, na sigla em inglês) ao supostamente obstruir o acesso a um local de culto – o que o vídeo  sugere não ter acontecido, já que ele está dentro da igreja e vários fiéis também.

Segundo o CPJ, as acusações foram feitas apesar de um juiz federal de primeira instância e um tribunal federal de apelações terem rejeitado anteriormente a tentativa do Departamento de Justiça de prender Lemon e seu produtor.

O advogado de Lemon, Abbe Lowell, afirmou que a prisão é “um ataque sem precedentes à Primeira Emenda.”

A acusação contra Fort não é clara, mas ela publicou um vídeo em seu perfil no Facebook no qual relata que agentes federais disseram a ela que tinham um mandado de prisão concedido por um júri de acusação.

As manifestações contra o ICE

Os protestos no estado do Minnesota estão acontecendo ao longo de todo o mês devido a ação truculenta dos agentes do ICE.

A morte de Renee provocou revolta, que se intensificou no último dia 24, quando agentes mataram o enfermeiro Alex Pretti.

Nesta sexta-feira milhares de manifestantes foram às ruas em Minneapolis e pessoas de todo o país aderiram à uma greve geral contra as políticas repressivas de migração e à violência do ICE.

Liberdades de expressão e de imprensa estão ameaçadas nos Estados Unidos

Ainda que seja raro nos Estados Unidos que jornalistas sejam presos ou detidos em função do exercício da profissão, o país tem adotado cada vez mais políticas repressoras, especialmente após o início do segundo mandato do presidente Donald Trump.

O governo Trump intensificou rapidamente os ataques à imprensa em diversas frentes. Seus métodos incluem descredibilizar e processar a imprensa, ordens executivas que dificultam o trabalho jornalístico, censura e ataques físicos a jornalistas.

No começo do mês, o FBI fez buscas na casa de uma jornalista do jornal The Washington Post e apreendeu seus equipamentos eletrônicos, uma ação que o jornal classificou como “agressiva” e “incomum”.

Mesmo que incomum, as prisões não são impossíveis nos EUA. Em junho de 2025, o jornalista premiado Mario Guevara foi preso enquanto cobria um protesto.

Ele ficou detido por mais de 100 dias e acabou sendo deportado para seu país de origem, El Salvador, ainda que tivesse nos Estados Unidos de maneira legal.

A diretora do CPJ comentou a situação nos EUA:

“Jamais imaginamos que a erosão da liberdade de imprensa aconteceria tão rapidamente e de tantas maneiras. (…) Este não é um problema futuro – sem acesso a informações independentes e baseadas em fatos, todos nós ficamos menos seguros e menos livres.”

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