O julgamento histórico que está colocando grandes plataformas digitais diante de um júri começou nesta segunda-feira (9) no Tribunal Superior de Los Angeles com uma acusação contundente contra a Meta e o YouTube.
Nas falas iniciais, o advogado da autora da causa, Mark Lanier, afirmou que as empresas teriam construído deliberadamente “máquinas de dependência” capazes de viciar crianças.
Este não é o primeiro processo contra redes sociais nos EUA, mas é o primeiro em que o centro da discussão diante de jurados não é “qual conteúdo fez mal”.
A pergunta que vai orientar o caso é se as empresas foram negligentes ao criar e ajustar seus produtos para incentivar que usuários passassem mais tempo nas plataformas — e se essa suposta negligência causou danos.
A ação toma como referência a história de uma jovem identificada como KGM, a autora, uma californiana de 19 anos.
Ela diz ter desenvolvido ansiedade, depressão e problemas de imagem corporal após usar Instagram, Snapchat, TikTok e YouTube quando era criança. TikTok e Snapchat já fecharam acordos fora do tribunal.
Assim, quem segue como ré no julgamento é a Meta (dona do Instagram e do Facebook) e o YouTube, do Google.
As falas iniciais no julgamento das redes sociais
Para transformar o argumento de vício em imagem, Lanier levou no primeiro dia ao tribunal blocos infantis — como os de alfabetização — e os posicionou diante do júri com três palavras ao lado das letras A, B e C: “Addicting”, “Brains” e “Children”.
A cena tentou fixar, desde o início, a tese de que não se trata de um post isolado, mas de escolhas de produto que, segundo a acusação, foram desenhadas para manter jovens conectados.
Lanier disse que pretende mostrar aos jurados a “addiction machine” (“máquina da dependência”) que, segundo ele, Meta e YouTube construíram.
Prometeu recorrer a documentos internos e e-mails de executivos, materiais que, na sua narrativa, ajudariam a explicar como decisões de negócio foram convertidas em metas de engajamento.
Um dos exemplos apresentados no primeiro dia foi um trecho selecionado de um e-mail de 2015 atribuído a Mark Zuckerberg, CEO da Meta. Segundo Lanier, a mensagem cobraria que o “time spent” — o tempo gasto — aumentasse 12% nas plataformas para atender objetivos internos.
O trecho apoia a tese de que a busca por crescimento e atenção não seria efeito colateral, mas objetivo explícito de produto — e que essa pressão por “tempo gasto” ajudaria a explicar a existência e a persistência de mecanismos projetados para manter usuários conectados.
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YouTube: ‘babá digital’
O YouTube foi alvo de um argumento paralelo. Lanier afirmou que a plataforma teria mirado intencionalmente usuários jovens porque poderia “cobrar mais de anunciantes”, em comparação com o YouTube Kids.
Ele também acusou o serviço de tentar se beneficiar de pais ocupados em busca de uma espécie de “babá digital”, transformando a plataforma em solução para entreter crianças — e, ao mesmo tempo, ampliar permanência e exposição.
Por que este julgamento das redes sociais é um caso-piloto
O caso é descrito como um “bellwether trial”, ou seja, um processo-piloto usado como termômetro para uma fila maior de disputas semelhantes.
A expectativa é que ele ajude a medir como júris reagem à tese do “design viciante” e a balizar valores de compensação em litígios futuros. Os autores afirmam que plataformas como Instagram, Facebook, YouTube, TikTok e Snapchat “reprogramaram” como crianças pensam, sentem e se comportam.
Ao longo do julgamento, mecanismos de produto devem aparecer como peças centrais dessa disputa. Um exemplo citado com frequência nesse tipo de ação é o “scroll infinito”, formato em que o feed não termina e elimina pontos naturais de parada, prolongando o tempo de uso.
A previsão é de que as empresas enfrentem cerca de 22 casos-piloto dentro desse conjunto, enquanto advogados consideram depoimentos e evidências em um universo mais amplo de ações que reúne testemunhos de mais de 1.500 pessoas.
O que pode acontecer se as empresas perderem
Para as empresas, cujos executivos deverão depor, o risco de uma derrota pode ir além de indenizações.
Como o foco está no desenho do produto, uma decisão desfavorável pode aumentar a pressão por mudanças em recursos e escolhas de design das plataformas — justamente no que hoje é tratado como motor de engajamento.
A Meta e o Google negam as acusações.
A empresa de Mark Zuckerberg, dona do Instagram e do Facebook publicou um texto em seu blog afirmando que os processos “simplificam demais” um tema complexo e acusou os advogados dos autores de citarem documentos internos de forma seletiva para construir uma narrativa enganosa, sugerindo que a empresa teria priorizado crescimento acima do bem-estar de adolescentes.
A companhia diz que as alegações “não refletem a realidade” e que as evidências mostrariam uma empresa que conduz pesquisas, ouve pais, acadêmicos e especialistas em segurança e toma medidas.
Os próximos passos do julgamento das redes sociais
Daqui para a frente, o caso deve se concentrar no contraste entre a história que os autores tentarão construir a partir de metas internas, documentos e e-mails, e a defesa de que segurança e bem-estar vêm sendo tratados com responsabilidade.
Ao final, os jurados terão duas decisões centrais: se houve negligência no design e, em caso afirmativo, se ela causou os danos alegados por KGM.
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