A prisão do ex-príncipe Andrew nesta quinta-feira (19), dia de seu aniversário de 66 anos, ocorre quase sete anos depois de uma entrevista para a BBC considerada um divisor de águas em sua queda pública — e que, de tão emblemática, virou um filme da Netflix.
Scoop, lançado em 2024, reconstitui a negociação nos bastidores que levou a BBC a gravar dentro do Palácio de Buckingham para o programa Newsnight. A obra recria com perfeição a entrevista com a apresentadora Emily Maitlis, incluindo a tensão vista na exibição da conversa na vida real, em horário nobre.
Na entrevista de 2019, Andrew tentou se defender das acusações de Virginia Giuffre — mas as contradições e justificativas dadas diante das câmeras acabaram ampliando o escândalo.
Embora a prisão do ex-príncipe não esteja relacionada a acusações de má conduta sexual, e sim a supostos vazamentos de documentos confidenciais do governo para Jeffrey Epstein, a entrevista foi decisiva para que o então príncipe e representante oficial do Reino Unido em missões comerciais envolvendo países estrangeiros fosse gradativamente caindo em desgraça.
Ex-príncipe Andrew preso: a entrevista de 2019 que marcou um caminho sem volta
O filme Scoop (jargão para “furo” jornalístico) concentra-se no relato da produtora Sam McAlister, que não apareceu na entrevista mas escreveu um livro contando como conseguiu convencer a assessora de Andrew a agendar a conversa com Emily Maitlis em pleno Palácio.
O objetivo de Andrew era se defender das acusações feitas por Virginia Giuffre de que teria tido relações sexuais com ele quando ela era menor de idade, aliciada pelo pedófilo James Epstein e pela socialite Ghislaine Maxwell.
Mas o efeito foi o oposto. Para milhões de pessoas, a entrevista expôs as contradições da versão do que muitos apontavam como o filho preferido de Elizabeth II.
O Palácio nunca se pronunciou oficialmente, mas os rumores são de que ele tomou a iniciativa de dar a entrevista sozinho, sem a participação da assessoria de comunicação oficial da realeza, tendo uma de suas filhas a seu lado.
Sob a rainha Elizabeth II, o Palácio de Buckingham manteve o lema “não reclame, não explique”, uma forma de esperar a poeira baixar após escândalos sem ampliar sua repercussão, o que reforça a ideia de que a conversa foi um plano próprio e não uma estratégia de comunicação de crise.
Scoop e os bastidores do “desastre” de relações públicas
Sam McAlister é interpretada no filme da Netflix pela ex-estrela pop e agora atriz Billie Piper. Maitlis é representada por Gillian Anderson, enquanto Andrew é vivido por Rufus Sewell.
Para quem assistiu à entrevista na vida real, a recriação do ambiente e a semelhança dos personagens impressionam. A tensão nos rostos e o ritmo da conversa reproduzem o que se viu no programa. Apenas na noite em que foi exibida pela primeira vez, a audiência foi de 1,9 milhão de pessoas.

Segundo a sinopse da Netflix, Scoop dá aos espectadores uma visão interna do furo da década — e dos muitos obstáculos que a equipe da BBC superou para garantir a entrevista, desde vetos palacianos até os ensaios e, finalmente, a gravação.
Emily Maitlis, que deixou a BBC e agora é uma das apresentadoras do podcast de notícias The News Agents, relatou na época que, até o último momento, achava que a entrevista poderia ser cancelada.
As “lembranças variadas” sobre Virginia Giuffre
Ao descrever o filme usando a expressão “lembranças variadas”, o diretor se referiu às tentativas do príncipe Andrew de sustentar sua versão de que nunca conheceu a jovem, apesar de aparecer em uma foto ao lado dela.
Andrew virou meme nas redes sociais e assunto na mídia internacional por sugerir que a foto era manipulada e por dizer que o relato de Giuffre — de que dançaram até suar em uma boate — era falso, já que, segundo ele, devido a um acidente quando combateu na Ilha das Malvinas, teria perdido temporariamente a capacidade de transpirar.
Não tardaram a aparecer fotos diversas do então príncipe suado, geralmente em animadas pistas de dança. A autenticidade da foto foi confirmada nos novos arquivos do caso Epstein liberados nas últimas semanas.
O então príncipe Andrew também afirmou que, na noite em que o encontro com Giuffre teria acontecido, no apartamento de Ghislaine Maxwell, ele tinha ido levar a filha a uma festinha infantil na Pizza Express — algo difícil de ocorrer sem registros oficiais, devido à segurança em torno da família real e aos depoimentos dos que certamente teriam notado sua presença.
Os dois acabaram fazendo um acordo para colocar fim ao processo, o que motivou críticas de antimonarquistas sobre quem estaria pagando para silenciar uma acusação de abuso sexual contra uma menor de idade.
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Andrew: do “filho preferido” ao ostracismo e à prisão
Andrew, que muitos dizem ter sido o filho preferido da rainha Elizabeth II e protegido por ela durante o escândalo, já vinha desgastado antes, desde que sua amizade com Jeffrey Epstein se tornou pública, na esteira das acusações que levaram o financista milionário a cometer suicídio na prisão, em Nova York.
Mas a entrevista foi decisiva para selar seu futuro, apesar de tentativas da mãe de preservá-lo — como a decisão de entrar com ele na igreja para a missa de um ano do príncipe Philip, a despeito das acusações e do processo judicial movido por Giuffre.
O Palácio de Buckingham o removeu de atividades oficiais em promoção de negócios bilaterais para o Reino Unido; ele perdeu comendas militares, deixou de usar o título “Sua Alteza Real” e ficou relegado ao ostracismo dentro da família.
Ao assumir o trono, o rei Charles removeu o irmão do conselho familiar que pode tomar decisões caso o monarca se veja impedido.
Mais recentemente, Andrew perdeu os títulos que ainda mantinha, incluindo o de príncipe.
Depois de ameaças de despejo da casa onde vivia, dentro da propriedade do Castelo de Windsor, ele resistiu e continuou morando lá, até ser obrigado a sair pelo Rei este ano, na esteira dos novos arquivos do caso Epstein, que envolvem também sua ex-mulher, Sarah Ferguson.
Após a prisão nesta quinta-feira, o Palácio divulgou uma nota assinada pelo rei Charles III declarando apoio às investigações em curso, sem tentar defender o irmão.
Mas o grupo antimonarquia Republic tem pressionado a realeza a ser mais transparente sobre o que sabia a respeito dos atos do ex-príncipe e de encontros de outros integrantes com Epstein.
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