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Futuro da monarquia

‘Naufrágio do Titanic’: líder de grupo republicano analisa futuro da monarquia britânica após prisão de Andrew

Graham Smith, diretor do Republic UK, defende plebiscito para decidir permanência do regime atual, e critica comunicação ‘insossa’ da família real sobre o caso

Faixa amarela diante do Palácio de Buckingham em protesto contra silêncio da família real em relação ao envolvimento de Andrew com Epstein

Foto: divulgação



Graham Smith, do grupo Republic, comparou a crise da realeza britânica após a prisão do ex-príncipe Andrew com o naufrágio do Titanic, e defendeu plebiscito para decidir sobre a abolição da monarquia.


“Há definitivamente uma mudança sísmica… e é uma questão de quando, não se”, disse Graham Smith, líder do grupo republicano Republic UK, sobre a crise da realeza britânica após a prisão do ex-príncipe Andrew e e os riscos para o atual regime de monarquia parlamentar.

Em entrevista coletiva para a imprensa realizada na sexta-feira (20) na Associação de Correspondentes Estrangeiros de Londres (FPA London), Smith descreveu a gravidade do momento atual comparando-o com crises passadas.

Para ele, o episódio da morte da princesa Diana foi como um pequeno bote virando, enquanto a situação atual seria o equivalente ao naufrágio do Titanic. 

Diante de correspondentes estrangeiros, ele descreveu a prisão de Andrew como “extraordinária”.

“Eu nunca realmente pensei que isso fosse acontecer.”

Smith disse que já havia denunciado membros da família real outras vezes e que, em sua experiência, as autoridades costumavam se limitar a dizer que “olhariam” o caso — sem investigar de fato.

 Andrew e a crise da monarquia 

O encontro com jornalistas estrangeiros ocorreu um dia após a prisão de Andrew, que teve seus títulos removidos e não é mais formalmente tratado como príncipe pela Coroa depois de evidências cada vez mais constrangedoras de seu envolvimento com o pedófilo Jeffrey Epstein, indo além de possíveis crimes sexuais. 

O ex-príncipe foi detido na quinta-feira (19) para responder sobre compartilhamento de informações confidenciais do governo com o financista enquanto atuava como enviado especial do Reino Unido para missões comerciais estrangeiras.

Após passar o dia sob custódia, ele foi liberado para voltar para casa, mas continua sob investigação por um crime que pode até resultar em prisão perpétua.

Uma cultura de impunidade e malas de dinheiro

Durante a entrevista, Smith criticou o que chamou de cultura de deferência que protegeu a família real por décadas, com incentivos e sinais de status que, segundo ele, envolvem, instituições e a mídia.

Nesse contexto, ele criticou especialmente a atuação de veículos e emissoras, em particular a BBC, dizendo que ajudariam a sustentar um ambiente em que a realeza se sente protegida de escrutínio.

Para Smith, o pano de fundo é um sistema de poder que opõe “os poderosos versus os não poderosos”.

Pressão para investigar Andrew

O líder do Republic UK afirmou que havia encaminhado há duas semanas um relatório à Polícia de Thames Valley, região onde fica localizada a atual residência de Andrew,  denunciando-o por suspeita de compartilhar informações confidenciais com Jeffrey Epstein depois que documentos liberados nos EUA apontaram evidências de que isso tenha ocorrido.

Ele relatou que, no mesmo dia, a polícia passou a ser cobrada publicamente por jornalistas e confirmou que investigaria.

Para Smith, o Palácio também reagiu de forma incomum ao declarar apoio a qualquer investigação policial — algo que, na visão dele, não deveria ser celebrado. “Foi absolutamente o mínimo que poderiam ter feito”, disse.

O que disse o Palácio de Buckingham sobre a prisão de Andrew

Na quinta-feira, o Palácio de Buckingham divulgou uma nota oficial assinada pelo monarca declarando apoio e intenção de colaborar com as investigações.

“Deixe-me afirmar claramente: a lei deve seguir o seu curso.”

No entanto, a postura de não comentar diretamente e continuar a vida normal no dia em que o país acompanhava minuto a minuto a detenção de Andrew – Charles e Camilla participaram de atividades públicas programadas anteriormente sem responder a perguntas sobre o caso que chocou a nação – tem sido criticada por jornalistas e analistas de imagem.

Graham Smith avaliou que a instituição passou a enfrentar um dilema: permanecer em silêncio e alimentar suspeitas, ou abrir arquivos e expor segredos.

“Se eles continuarem quietos e em silêncio, e se continuarem escondendo as coisas, isso continuará a levantar suspeitas e a danificar sua reputação. Se eles se abrirem e começarem a revelar seus segredos, isso será o fim deles.”

Comunicação insossa e minimalista

Ele classificou a comunicação oficial como “insossa e minimalista” e afirmou que o chefe de Estado deveria aparecer diante de câmeras, fazer uma declaração contundente e aceitar perguntas de jornalistas.

Na visão do ativista, a monarquia precisaria assumir o compromisso de não impor barreiras à apuração: permitir que a polícia “siga o rastro onde quer que ele leve”, abrir registros e arquivos, ampliar o acesso a documentos, colocar informações sob instrumentos de transparência e explicar o que sabia e quando.

Smith também ressaltou uma mudança de contexto com a ausência de Elizabeth II. Para ele, a rainha funcionava como um “escudo térmico” capaz de desviar críticas.

“A rainha era a monarquia para tantas pessoas… e sem ela a dinâmica muda completamente”, disse, argumentando que parte do público se mostra mais disposta a criticar Charles e William quando há motivos.

Smith relembrou denúncias contra o rei Charles III, mencionando a denúncia de que o monarca teria recebido 3 milhões de euros em dinheiro vivo de um ex-primeiro-ministro do Catar, indagando por que nenhuma pergunta foi feita sobre a origem dos valores.

E e questionou o contraste com o tratamento dado a cidadãos comuns.

“Se eu aparecer na alfândega com 3 milhões de euros em dinheiro, eles vão querer saber de onde veio.”

Desgaste da monarquia a longo prazo

Graham Smith situou a crise atual em uma trajetória de desgaste de longo prazo. Ele disse que o apoio à monarquia vem caindo “de forma constante”, e citou uma pesquisa recente que colocaria esse apoio em 45%.

Para ele, o fator decisivo é demográfico: pessoas com menos de 50 anos seriam cada vez mais propensas a preferir uma república. O líder do Republic argumentou que uma mudança geracional vem se consolidando e que, ao contrário do que se presume, não estaria ocorrendo uma migração automática para posições monarquistas com o envelhecimento.

Ainda que descreva o cenário de abolição da monarquia como inevitável, Smith reconheceu que o caminho institucional não é simples.

Ele afirmou que, constitucionalmente, o Parlamento poderia abolir a monarquia sem referendo, mas que, politicamente, a sociedade exigiria uma consulta popular.

O líder do Republic disse que a meta do grupo é pressionar para que um referendo aconteça — mesmo que a maioria dos parlamentares não deseje a mudança.

Smith mencionou exemplos de plebiscitos que avançaram apesar da resistência de elites políticas e defendeu que o debate público tende a deslocar opiniões rapidamente quando as pessoas param para considerar o tema.

Charles pode abdicar em favor de William?

Quando a hipótese de abdicação de Charles foi levantada, Smith disse que é uma possibilidade, porém “altamente improvável”.

Ele afirmou que a troca de rosto não apagaria o passado e rejeitou a ideia de que William representaria um recomeço, apontando que o príncipe já ocupa posição sênior há anos.

O ativista republicano lembro que o príncipe de Gales já era um adulto em 2022, quando Andrew recebeu apoio financeiro da família real para pagar uma indenização a Virginia Duffrie, e colocar fim ao processo movido por ela.

Para ele, o ponto central é que a pressão por transparência e responsabilização da família real  tende a aumentar — e que a crise acelerada pela prisão de Andrew não se resume a um escândalo passageiro, mas a uma mudança de era: “é uma questão de quando, não se”.


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