O governo do Reino Unido abriu nesta segunda-feira (2) uma consulta pública nacional para definir os próximos passos sobre bem-estar digital infantil, com a possibilidade de restringir ou até proibir o uso de redes sociais por menores em uma escala maior do que fez a Austrália, abrangendo também chatbots de IA e plataformas de jogos.
O processo britânico não se limitará a ouvir especialistas e a indústria: pais, responsáveis e jovens estão sendo chamados a participar, com versões dedicadas do questionário para facilitar o envio de experiências e opiniões.
Além disso, o governo anunciou que vai realizar testes prévios com adolescentes, em “pilotos ao vivo”, para medir na prática o efeito de medidas como banimento, toque de recolher noturno e limites diários de tela antes de transformar as ideias em regulamentação — uma tentativa de ancorar a definição de parâmetros em evidência prática, e não apenas em posições políticas ou percepções.
Proibição de redes sociais no Reino Unido vai além do debate sobre idade
A iniciativa é apresentada como a “consulta mais ambiciosa do mundo” sobre redes sociais e segurança online infantil — e sinaliza que o Reino Unido está decidido a ir além do caminho trilhado pela Austrália.
No comunicado, o governo descreve um sentimento disseminado entre famílias: milhões de pais dizem se preocupar com o impacto do uso de redes sociais no sono, na concentração e na saúde mental de crianças e adolescentes.
Muitos relatam a sensação de estar “perdendo a batalha” contra plataformas construídas para manter o usuário rolando o feed, e citam dúvidas recorrentes — quanto tempo de tela é aceitável, quando entregar o primeiro celular, o que os filhos veem online e quais consequências isso traz.
Um ponto que ganha destaque é a relação de jovens com ferramentas de IA. O texto menciona a preocupação de pais com crianças “falando com chatbots como se fossem pessoas reais” e confiando em conselhos desses sistemas.
Ao incluir explicitamente chatbots no pacote de discussão — ao lado de redes sociais e jogos — o governo amplia a ideia de bem-estar digital para além do feed e do vídeo curto.
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De curfews a recursos “viciantes”: o que está em discussão
A consulta parte do reconhecimento de que o Online Safety Act, a lei de segurança digital britânica, já trouxe “proteções fortes”, mas que cresce o consenso de que é preciso fazer mais.
O objetivo declarado é usar as contribuições do público para determinar quais medidas adicionais fariam sentido e como poderiam funcionar.
Entre as possibilidades listadas, aparece a hipótese de uma idade mínima para acesso a redes sociais — e, nesse cenário, qual seria a idade adequada. O texto também propõe discutir se plataformas deveriam ser obrigadas a desativar recursos considerados viciantes, como rolagem infinita e reprodução automática, especialmente à noite.
Outra frente envolve a ideia de toque de recolher obrigatório durante a madrugada, com a pergunta central: se isso ajudaria as crianças a dormir melhor e a partir de que idade valeria. A consulta ainda questiona se crianças deveriam usar chatbots de IA “sem restrição” e como reforçar a fiscalização de verificação de idade.
Por que entidades de infância alertam contra um banimento amplo
O documento reconhece que há pressões por uma proibição total de redes sociais para menores de 16 anos, apoiada por parte de pais e grupos de campanha.
Mas também aponta o contraponto: organizações de caridade voltadas à infância alertam que um banimento amplo poderia empurrar crianças para “cantos menos regulados” da internet ou deixar adolescentes despreparados quando eventualmente passassem a acessar essas plataformas.
Nessa linha, algumas das principais organizações que defendem direitos infantis e combatem os males causados a crianças e jovens pelas redes sociais têm se mostrado contrárias a um banimento geral por idade, alegando que isso pode levar ao uso de recursos para burlar bloqueios ou ao acesso a plataformas da chamada dark web, mais perigosas e sem qualquer controle.
É justamente por essa divergência que o governo diz que a consulta não se limita ao “sim ou não” de um banimento. A proposta é avaliar um leque de opções e, ao mesmo tempo, discutir como qualquer regra seria implementada na prática para ser efetiva.
Orientação de tempo de tela e “conversa nacional”
A secretária de Tecnologia, Liz Kendall, enquadra o debate como parte do direito a uma boa infância também no ambiente digital e reforça o convite direto a pais e crianças.
Já a secretária de Educação, Bridget Phillipson, descreve a tecnologia como fator que “muda fundamentalmente a infância” e promete, pela primeira vez, publicar orientações de tempo de tela saudável para crianças de 5 a 16 anos.
A consulta pública fica aberta por três meses e aceita contribuições de pais, cuidadores, jovens, profissionais que trabalham com crianças, organizações da sociedade civil, academia e indústria. O prazo para envio de respostas termina em 26 de maio de 2026.
Resposta no verão e poderes para agir “em meses”
Segundo o comunicado, o governo pretende ter uma posição final até o segundo semestre, e “agir rapidamente” com base nas evidências reunidas.
A estratégia inclui novos poderes legislativos anunciados pelo primeiro-ministro e pela secretária de Tecnologia para permitir ajustes mais ágeis após a aprovação — de modo que ministros possam se mover em meses, em vez de esperar anos por novas leis a cada mudança tecnológica.
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