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Inteligência Artificial

‘Autoria Humana’: escritores britânicos criam selo para diferenciar livros não gerados por IA

Iniciativa surge como resposta ao avanço de obras criadas por inteligência artificial generativa sem que os leitores sejam informados

Selo da Sociedade de Autores Britânicos, para indicar obras feitas sem uso de IA

Foto: Unsplash




Em meio à explosão de livros com textos feitos por inteligência artificial (IA), os escritores do Reino Unido decidiram reagir com um novo marcador de confiança para leitores e autores.

A Society of Authors (SoA), principal sindicato de escritores do país, anunciou nesta terça-feira (10) durante a Feira do Livro de Londres o lançamento do selo Human Authored (Autoria Humana), criado para identificar obras escritas exclusivamente por seres humanos, embora o uso de IA seja permitido em tarefas de apoio.

Apresentada pela romancista Tracy Chevalier, autora de Girl with a Pearl Earring, a iniciativa foi descrita como um ponto de virada para a transparência e para a defesa da criatividade humana.

O objetivo é deixar claro para o público quais livros tiveram seu texto produzido sem o uso de ferramentas de IA generativa

A criação do selo ocorre em um momento de pressão crescente no setor editorial. Segundo a SoA, o mercado digital está cada vez mais inundado por livros gerados por IA, dificultando a identificação do trabalho genuinamente autoral.

Regulação de IA no Reino Unido desagrada setor cultural

Para a entidade, reconhecer a criatividade humana tornou-se vital em um ambiente onde a automação avança mais rápido do que a regulação – que não necessariamente protege a indústria criativa como ela gostaria.

Um projeto de lei em discussão, proposto pelo governo, pode tornar livre o uso de conteúdo jornalístico ou artístico pelas plataformas de inteligência artificial, cabendo aos donos dos direitos notificarem as empresas caso discordem do uso.

Estrelas como Paul McCartney e Elton Jonh estão entre as que encabeçam o movimento contra a proposta, alegando que ela pode ter forte impacto sobre o setor, e prejudicar sobretudo pequenos criadores sem condições de contratar advogados para representá-los nas discussões com as plataformas.

Igualmente preocupados, os escritores lançaram durante a feira literária de Londres um livro em branco, Don’t Steal This Book. A obra não tem texto, apenas os nomes dos autores envolvidos, e representa o impacto nos meios de subsistência dos autores e na indústria editorial que é esperado se o governo prosseguir com planos que facilitariam o treinamento de modelos de IA em trabalhos protegidos por direitos autorais sem uma licença.

Como vai funcionar o selo para obras que não foram feitas com IA

A proposta do selo é simples. Autores poderão registrar suas obras em um banco de dados oficial e, após verificação, baixar o logotipo Human Authored para usar na contracapa, em materiais promocionais e também em versões digitais.

Além de servir como uma identificação visual imediata, o sistema cria um catálogo público de livros declarados como feitos por autores humanos.

Segundo a SoA, para ter direito a usar o selo, o livro deve  representar a expressão da criatividade de um autor humano e não ter sido  produzido pelo uso de um modelo de Inteligência Artificial generativa (GAI), por exemplo, pelo uso de prompts.

Mas o uso de  ferramentas com recursos incorporados em IA não desqualifica um trabalho de ser “Autor Humano” sob este esquema, desde que as ferramentas tenham sido usadas apenas para fins de assistência (processamento de texto, verificações ortográficas e gramaticais, pesquisa, brainstorming ou  qualquer outro uso que não gere texto).

Na prática, a SoA quer oferecer ao leitor um marcador confiável de origem. A entidade defende que esse tipo de identificação ajuda a destacar qualidades que associa à produção humana, como habilidade, empatia e imaginação.

Inicialmente o selo ficará disponível para escritores associados, mas os planos são de expandir para outros autores.

Um recado direto às plataformas e empresas de tecnologia

Durante o lançamento, Tracy Chevalier afirmou que a medida não é apenas simbólica. Para ela, trata-se de uma reação concreta a um problema que já afeta autores e consumidores.

A escritora ressaltou que plataformas digitais recebem uma enxurrada de livros gerados por IA sem qualquer indicação clara de origem, o que deixa leitores sem informação suficiente no momento da compra e autores em posição de desvantagem.

A SoA reforça o mesmo argumento: embora o selo seja voluntário, ele surge enquanto ainda não existe uma regulamentação que obrigue empresas de tecnologia a rotular conteúdo automatizado. Na visão da entidade, o peso dessa transparência não deveria recair sobre os escritores, mas sobre as companhias que desenvolvem e distribuem essas ferramentas.

Ainda assim, o sindicato vê a iniciativa como uma forma de proteger o trabalho intelectual e de defender uma remuneração mais justa para autores e tradutores em um cenário de crescente automação.

Reino Unido segue movimento que já ganhou força fora do país

A medida britânica repete com iniciativas internacionais semelhantes. Em 2025, a Authors Guild, nos Estados Unidos, lançou um programa com o mesmo nome, Human Authored, para certificar livros feitos por humanos, e não com sistemas de IA.

No Reino Unido, editoras independentes já haviam criado certificações alternativas, como a Organic Literature Certification, mas o selo anunciado pela SoA se destaca por ser o primeiro com alcance nacional e respaldo institucional mais robusto.

A Society of Authors afirma que a proposta não é demonizar a tecnologia. O foco está em garantir que a criatividade humana continue visível, valorizada e reconhecida.

A mensagem central da entidade é que escrever vai além da simples combinação de palavras: envolve experiência, emoção e perspectiva — elementos que, segundo a organização, continuam sendo prerrogativas da criação humana.


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