O relato de uma apresentadora de TV que foi vítima de manipulações com IA para criação de fotos e vídeos pornô vem gerando protestos na Alemanha desde a semana passada e pode mudar a legislação de proteção a mulheres no país.
Collien Fernandes, um dos rostos mais conhecidos da mídia alemã, afirmou que o ex-marido é o autor de montagens usando sua imagem e voz.
A existência de conteúdo pornô envolvendo Fernandes, que já foi atriz e modelo antes de se tornar apresentadora, já era conhecido. Mas foi só após uma entrevista na semana passada à revista Der Spiegel que tomou as proporções atuais. Pela primeira vez ela apontou o ator Christian Ulmen, com quem foi casada até 2025, como suposto autor do crime.
A repercussão da reportagem, intitulada “Você me estuprou virtualmente”, provocou uma onda de protestos na Alemanha, com manifestações em várias cidades. A maior delas aconteceu em Berlim, na frente do Portão de Brandesburgo, em 22 de março.
Der neue SPIEGEL ist da:
📍 Sexualisierte Gewalt: Collien Fernandes zeigt ihren Ex-Mann an
📍 Rechte Aktivist:innen in Südkorea kopieren die MAGA-Ideologie
📍 Warum Dobrindts »Migrationswende« wackeltMorgen am Kiosk, jetzt online: https://t.co/yO5imL0zA4 pic.twitter.com/7q7MWfD9r0
— DER SPIEGEL (@derspiegel) March 19, 2026
Na última quinta-feira (26) a apresentadora compareceu a um protesto em Hamburgo usando um colete à prova de balas e acompanhada de policiais. Ela relatou que tem recebido ameaças de morte desde que denunciou o caso.
Um manifesto assinado por mais de 250 mulheres, incluindo políticas, artistas e celebridades foi entregue ao governo alemão, pedindo que deepfakes de caráter sexual sejam criminalizados.
Depois que o caso tomou conta da mídia o governo foi obrigado a se manifestar e anunciou a intenção de endurecer a punição de crimes de violência digital e uso de deepfakes.
O projeto em discussão prevê penas de até dois anos de prisão e a proibição de aplicativos baseados em inteligência artificial que tiram roupas de pessoas retratadas em fotos reais e as colocam em poses sexualizadas, como o Grok do X.
O caso da apresentadora alemã
Collien Fernandes e Christian Ulmen se conheceram em 2010, quando gravavam um filme juntos. Eles se casaram menos de um ano depois e sempre estiveram sob os holofotes da mídia, formando um dos casais mais famosos do país.
Os dois anunciaram a separação em setembro de 2025, sem explicar o motivo. Eles têm uma filha de 14 anos.
Fernandes afirmou que tomou conhecimento sobre conteúdo pornô envolvendo seu rosto há mais de 20 anos. Só recentemente, porém, ela levou o problema a público, dando declarações sobre os crimes dos quais foi vítima.
Entre as declarações está até um documentário, “Deepfake Porn: Digital abuse”, feito para o canal alemão ZDF em 2024.
No mesmo ano ela fez uma queixa criminal em Berlim, sem indicar que o então marido era suspeito, e o caso acabou arquivado.
Entrevista foi divisor de águas
À reportagem da Der Spiegel, ela contou que, no Natal de 2024, Christian Ulmen teria lido a queixa-crime e confessado que estava por trás das montagens de IA. Na época, eles ainda eram casados, de acordo com a publicação.
Segundo a apresentadora, o homem teria aberto contas falsas nas redes sociais para postar as imagens pornô de IA falsas.
Ele teria, ainda, iniciado “relacionamentos” com cerca de 30 homens se passando por ela. Alguns dos homens eram do próprio ciclo de convivência da vítima.
Por isso, o caso tem sido comparado ao da francesa Gisèle Pelicot, cujo marido foi condenado por dopá-la para permitir que outros homens a violentassem. Em uma das postagens no Instagram convocando o público a participar de manifestações, a apresentadora escreveu:
“Por quê [ir]? Porque é preciso coragem para falar, e anunciar que o querido tio/avô/pai – talvez não seja apenas o querido tio/avô/pai legal!”
Nesta mesma entrevista, Fernandes disse que escolheu denunciar o ex também na Espanha – onde eles moraram – por acreditar que o país encara os direitos da mulher de uma forma melhor. Ela também criticou a Alemanha, chamando o país de um “paraíso para os agressores”.
Situação piorou com avanço das IAs, diz apresentadora
Apesar de ser vítima de montagens com cunho sexual há duas décadas, a apresentadora explicou que o avanço da IA tornou os conteúdos pornográficos ainda mais realistas nos últimos anos.
A apresentadora também contou que outras plataformas foram usadas para produzir conteúdo pornô recentemente. Além de fotos e vídeos, foram também usadas ferramentas de áudio para imitar a voz dela e fazer sexo por telefone, por exemplo.
“Até dois ou três anos atrás, sempre ficava claro que essas fotos e vídeos não eram reais. Isso mudou.”
Ex-marido de apresentadora negou acusações
Ulmen não fez manifestações públicas sobre o assunto, mas seus advogados divulgaram uma nota em resposta às denúncias. Eles negaram que ele tenha feito qualquer vídeo da ex ou de qualquer outra pessoa e classificaram a reportagem da Der Spiegel, que jogou luz sobre o assunto, como “ilegal”.
Com base nessa alegação, os advogados do ator afirmaram que vão acionar a Justiça contra a publicação.
Mudança legislativa
A repercussão do caso da apresentadora gerou protestos nas ruas, forçando o governo a avançar com mudanças legislativas, ainda que as opiniões estejam divididas sobre o escândalo envolvendo as duas celebridades.
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De acordo com a ministra da Justiça e Proteção ao Consumidor da Alemanha, Stefanie Hubig, o governo planeja um projeto de lei para “fechar brechas legais” e punir crimes de violência digital na Alemanha.
A ideia é de que a nova lei criminalize de forma explícita a produção e distribuição dos deepfakes. Além disso, a expectativa do governo é de criminalizar outros materiais de abuso divulgados nas redes, mesmo que não sejam feitos por IA.
“Queremos garantir que os agressores não se sintam mais seguros, mas que tenham a certeza de serem identificados e processados de forma eficaz.”
A ação também gerou uma pressão considerável no chanceler do país, Friederich Merz, criticado por seu “distanciamento” com as causas dos jovens. Ele foi questionado no Bundestag, o parlamento alemão, e afirmou que houve uma “explosão de violência” física e digital no país.
IA usada para imagens pornô
A situação vivida pela apresentadora vítima de imagens pornô feitas com IA na Alemanha reflete um cenário preocupante do uso da inteligência artificial no mundo.
Pesquisadores da organização britânica Internet Watch Foundation revelaram que, em 2025, encontraram um total de 8.029 fotos e vídeos criados ou manipulados com recursos de IA generativa mostrando crianças sendo abusadas sexualmente de forma realista.
O número é 14% maior do que o do ano anterior e meninas são a maioria das vítimas, aparecendo em 97% das imagens. Em um relatório alarmante divulgado na quarta-feira (24) eles apontaram que as imagens têm potencial de alimentar o interesse sexual em crianças, normalizar a violência extrema e aumentar o risco de crimes com contato físico.
Diante de tantas ações criminosas, naturalmente, o número de vítimas que buscam Justiça pelos crimes sofridos aumentou. Os processos miram não só os autores do material criminoso, mas também as plataformas que permitem a veiculação e a criação desses conteúdos.
O Grok, IA embutida na rede social X, de Elon Musk, é um dos alvos de processos judiciais mais recentes. Em uma das ações, duas adolescentes do Tennessee processaram a companhia por “aproveitar uma oportunidade de negócio” para disseminar pornografia infantil.
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