O Exército de Israel anunciou a suspensão das atividades de um batalhão de reservistas que deteve e agrediu jornalistas de uma equipe da CNN durante uma cobertura no norte da Cisjordânia, na semana passada.
Em um raro reconhecimento de conduta inadequada por parte de militares em relação à imprensa, o chefe do Estado-Maior israelense, general Eyal Zamir, informou na segunda-feira (30) que os integrantes da unidade seriam removidos do posto e submetidos a treinamento “com o objetivo de reforçar seus fundamentos profissionais e éticos”, sem indicar quando poderão retornar.
Pelo menos um deles teria sido demitido, de acordo com a rede americana, citando o comunicado oficial.
O ataque de soldados de Israel aos jornalistas da CNN
O caso ocorreu em 26 de março, no vilarejo de Taysir. Segundo relato da CNN e o vídeo documentando a abordagem, a equipe da emissora, liderada pelo correspondente baseado em Jerusalém Jeremy Diamond, foi ao local para documentar a violência de colonos e a instalação de um novo posto avançado de colonos ilegais.
Em poucos minutos, soldados israelenses apontaram rifles para a equipe, exigiram que parassem de filmar, colocaram o fotojornalista da CNN Cyril Theophilos no chão e o imobilizaram com um golpe mata-leão, quebraram celulares, danificaram uma câmera e detiveram os jornalistas, mantendo-os sob vigilância dentro dos carros.
Eles foram liberados duas horas depois. A ação foi registrada pela CNN, que divulgou o vídeo.
A rede de TV informou que a justificativa declarada de um soldado para suas ações foi proteger o posto avançado ilegal e como um ato de vingança pela morte do colono Yehuda Sherman, morto em uma colisão com um veículo palestino em 21 de março.
O relato é feito por um dos soldados ao correspondente.
Israel reconheceu excessos
Antes das medidas anunciadas pelo Estado-Maior israelense, o porta-voz das Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês), Nadav Shoshani, já tinha admitido a má conduta dos integrantes do batalhão.
Em uma postagem no X dois dias após o caso, ele declarou:
“A conduta e as declarações dos soldados neste incidente não representam as IDF, vão contra o que se espera dos soldados e serão investigadas. Imediatamente após recebermos o relatório do incidente, agimos para resolver o problema o mais rápido possível.
Eu pedi desculpas em particular, e vou dizer de novo—isso não deveria ter acontecido. Nosso trabalho é manter a lei e a ordem, entre as quais está permitir a liberdade de imprensa.”
Na nota da segunda-feira, o IDF o general disse que o caso representou um “grave fracasso ético e profissional”, disseram as Forças de Defesa de Israel (IDF), acrescentando que os “padrões de conduta e disciplina demonstrados no incidente não se alinham com os valores da IDF”.
“As armas devem ser usadas apenas com o propósito de realizar a missão, e nunca para vingança. Não aceitaremos tais incidentes dentro das fileiras das FDI”, disse Zamir no comunicado.
Liberdade de imprensa em territórios ocupados e em guerra
A garantia de liberdade de imprensa vai de encontro aos relatos e denúncias de ataques a jornalistas, vários deliberados e assumidos pelo próprio exército sob a justificativa de que profissionais de imprensa palestinos seriam terroristas disfarçados, que já motivaram cinco denúncias de crimes de guerra contra a imprensa por parte da ONG Repórteres Sem Fronteiras junto ao TPI (Tribunal Penal Internacional, a Corte de Haia).
O mais recente aconteceu no Líbano no sábado, quando um carro de reportagem com três profissionais de duas TVs foi atingido por um míssil disparado por Israel para eliminar um deles. Os três morreram no ataque.
Violação dos direitos dos jornalistas, diz CPJ
Ao comentar o caso da agressão à equipe da CNN, a diretora regional do CPJ, Sara Qudah, disse:
“Isso constitui uma clara violação do direito dos jornalistas de documentar e relatar a crescente violência dos colonos que está ocorrendo na Cisjordânia”.
Ela instou as autoridades israelenses a não apenas responsabilizarem os autores do incidente, mas a “abrir investigações rápidas em todos os casos de violações desenfreadas de direitos contra jornalistas, locais e internacionais.”
Segundo a CNN, a União dos Jornalistas de Israel exigiu que as autoridades militares processassem os soldados que agrediram violentamente a equipe de reportagem.
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