Após pressões de organizações judaicas britânicas contra a contratação de Kanye West para se apresentar no Wireless Festival e da confirmação do governo nesta terça-feira (7) de que não dará autorização para entrada do rapper no país, os organizadores anunciaram o cancelamento do evento.
West, que agora se chama Ye, vem fazendo manifestações em favor do nazismo e contra judeus desde 2022. Em 2025 ele chegou a promover a venda online de uma camisa com uma suástica, e gravou uma música intitulada Heil Hitler.
A reação furiosa contra a sua escalação levou a principal patrocinadora do festival, a Pepsi, e também a Diageo a retirarem seu apoio no domingo (5).
O primeiro-ministro, Keir Starmer, e o prefeito de Londres, Sadiq Khan, estão entre os que declararam preocupação com a entrada do artista no país, em meio a uma tensão causada por diversos atos antissemitas, o mais recente há duas semanas. Quatro ambulâncias de uma ONG judaica foram incendiadas em uma sinagoga.
Após o anúncio do cancelamento do festival na sequência da confirmação de que o visto não seria concedido, Starmer postou:
“Kanye West nunca deveria ter sido convidado para o Wireless. Este governo está firmemente ao lado da comunidade judaica, e não vamos parar em nossa luta para enfrentar e derrotar o veneno do antissemitismo. Sempre tomaremos as medidas necessárias para proteger o público e defender nossos valores.”
Antes de o governo confirmar a decisão de negar o visto, sob a justificativa de que “sua presença não seria propícia ao bem público”, os organizadores do festival e o próprio Kanye West tentaram reverter a onda negativa.
O rapper disse que já se arrependeu publicamente de suas manifestações antissemitas, e que gostaria de se encontrar com a comunidade judaica em Londres.
Em tom conciliador, ele escreveu:
“Eu sei que palavras não são suficientes. Eu terei que mostrar mudança através das minhas ações. Se vocês estiverem abertos, estou aqui.”
Os organizadores pediram que as reações fossem repensadas, alegando que todos merecem perdão por erros. Mas não adiantou, e o Reino Unido seguiu os passos da Austrália, que em 2025 também vetou a entrada do artista.
Entrada de Kanye West é vetada
Na manhã de hoje (7), a empresa Festival Republic divulgou uma nota informando que o governo retirou o ETA (autorização eletrônica de viagem) de Kanye West, o que significa que um pedido de entrada no país seria negado e que o valor dos ingressos já comprados será devolvido.
A nota diz:
“Como em todos os Wireless Festivals, várias partes interessadas foram consultadas antes da contratação de Ye e nenhuma preocupação foi destacada no momento.
O antissemitismo em todas as suas formas é abominável, e reconhecemos o impacto real e pessoal que essas questões tiveram.
Como Ye disse, ele reconhece que palavras sozinhas não são suficientes e, apesar disso, ainda espera ter a oportunidade de iniciar uma conversa com a comunidade judaica no Reino Unido.”
O festival e a controvérsia
O Wireless Festival aconteceria nos dias 10, 11 e 12 de julho, em Finsbury Park, Londres, em um momento de forte atenção ao antissemitismo no Reino Unido, intensificada após as guerras no Irã e em Gaza
A escalação de Kanye West para se apresentar no festival foi um risco alto assumido pelos organizadores.
Desde 2022, Ye vem fazendo comentários antissemitas que levaram ao rompimento de relações com empresas e parceiros comerciais.
Naquele ano, a Adidas anunciou que estava encerrando sua parceria com West por causa de seu antissemitismo.
West foi barrado da rede social X diversas vezes por causa do antissemitismo, postando comentários, incluindo “Eu amo Hitler” e “Eu sou nazista”.
Em 2023 ele chegou a publicar um pedido de desculpas à comunidade judaica. Mas seguiu fazendo postagens antissemitas e em maio de 2025 lançou uma canção chamada “Heil Hitler”, além de vender roupas com símbolos nazistas no site de sua marca de roupas e acessórios na Internet.
Ele fez um anúncio durante o Super Bowl de 2025, direcionando as pessoas para um site que vendia uma camiseta de suástica. Era o único item no site e aparecia ao lado do código “HH-01” , interpretado como referência a “Heil Hitler”.
Em janeiro de 2026, West voltou a pedir desculpas em uma carta aberta veiculada no Wall Street Journal, negando ser nazista e atribuindo os comentários ao diagnóstico de transtorno bipolar.
ONGs judaicas elogiam decisão do governo
Um porta-voz da Campanha Contra o Antissemitismo disse em um comunicado:
“O governo claramente tomou a decisão certa. Pela primeira vez, quando disse que o antissemitismo não tem lugar no Reino Unido, apoiou suas palavras com ação.
Alguém que se gabou de ganhar dezenas de milhões de dólares vendendo camisetas de suástica e que lançou uma música chamada Heil Hitler há apenas alguns meses claramente não seria propício ao bem público no Reino Unido.”
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