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Argentina

Notícias falsas e repórteres com nomes inventados: entenda a ‘conexão russa’ que fez Milei barrar jornalistas na Casa Rosada

Consórcio de jornais apurou que rede de propaganda ligada ao governo russo manipulou notícias contra o presidente da Argentina

Javier Milei, presidente da Argentina, em discurso

Javier Milei, presidente da Argentina (foto: redes sociais)




Um grupo de jornalistas foi barrado da Casa Rosada após uma denúncia sobre uma campanha de difamação da Rússia contra o governo de Javier Milei, abrindo nova crise do presidente da Argentina com a imprensa.

A punição, aplicada a ao menos seis veículos argentinos, aconteceu nesta segunda-feira (6), dias após a publicação de documentos que apontam supostos pagamentos a jornais para espalharem desinformação contra o governo argentino.

De acordo com a denúncia, apurada por um consórcio internacional de jornais e publicada pelo projeto openDemocracy, ao menos 250 peças de conteúdo com distorções, exageros ou mentiras foram encontradas.

Essas publicações aconteceram em 2024, no primeiro ano de governo Milei, e duraram seis meses. A openDemocracy é uma iniciativa britânica de verificação de fatos.

O governo assumiu que o veto aos repórteres tem ligação direta com a denúncia e afirmou, ainda, que a proibição não era “pessoal”, e sim focada nos veículos.

Lista com nomes e fotos dos barrados

De acordo com alguns dos jornalistas presentes na Casa Rosada na segunda-feira (6), seguranças ficaram na entrada do prédio público com uma lista de fotografias para identificar os barrados.

A ação gerou reação imediata por parte dos repórteres. “Não conheço nenhum russo. Nunca nem viajei para a Rússia”, afirmou a jornalista Liliana Franco, do Ámbito Financiero.

“Sou um dos membros credenciados da Casa Rosada afetados pela censura do Governo”, disse Javier Slucki, do El Destape.

O governo Milei não deu uma previsão para devolver as credenciais aos repórteres, mas disse que chamaria representantes dos veículos para prestar esclarecimentos sobre o caso nos próximos dias.

Governo argentino confirmou que barrou repórteres

Em posicionamento enviado a jornais locais, a Casa Rosada disse que o que aconteceu não foi uma revogação de credenciais, e sim uma remoção como medida preventiva “até que os fatos sejam esclarecidos”. O governo Milei não divulgou a lista das pessoas proibidas no local.

Apesar da divulgação recente de documentos (veja mais sobre eles abaixo), o governo argentino informou que acompanha o caso desde outubro de 2025. Parte das informações obtidas pelo governo são consideradas “segredo de estado”, informou a presidência ao openDemocracy.

Além da Casa Rosada, a Câmara dos Deputados da Argentina também barrou os jornalistas. Segundo o Círculo de Periodistas Parlamentários, quatro vículos tiveram entrada proibida no local. A casa é presidida por Martín Menen, apoiador do presidente Milei.

Como é a rede russa que interferiu nas notícias

A rede de propaganda e desinformação identificada como “A Companhia” atuou não só contra o governo de Milei, mas também em ao menos 30 países da América do Sul e África. O objetivo dela, segundo a denúncia, é gerar o caos e a desordem com informações imprecisas ou falsas sobre política.

Uma das principais missões do grupo seria minar a credibilidade de instituições legítimas. Além disso, o grupo ainda trabalharia para incentivar uma visão pró-Rússia nos países onde estava incluído.

No caso da Argentina, 23 veículos de comunicação teriam recebido US$ 283.000 (mais de R$ 1,4 milhão) para a publicação de 250 notas coorrdenadas pelo grupo.

As investigações identificaram ao menos três agentes ligados ao grupo no país de Milei. São eles: Alexey Evgenievich Shilov, Lev Konstantinovich Andriashvili e Irina Yakovenko.

Os dois últimos são um casal que mora em Buenos Aires e seria a “peça central” da agência de desinformação no país. Eles não responderam ao openDemocracy e saíram da Argentina após a divulgação do escândalo.

Segundo a investigação, “A Companhia” tem ligação direta com o Serviço de Inteligência Estrangeira da Rússia (SVR) e com a organização Grupo Wagner.

O link ente o grupo de desinformação e o Kremlin está em documentos obtidos pelo jornal The Continent, da África do Sul. Entre os documentos estão relatórios de pagamentos enviados a superiores e uma lista com os perfis de agentesm membros do grupo.

O que diziam as notícias

Uma das principais notícias falsas divulgadas pelos jornais tentava causar uma tensão diplomática entre Argentina e Chile. A publicação informava da detenção de três argentinos com explosivos e outros materiais para fazer um atentado no país vizinho.

Outra publicação que chamou atenção informava que Milei comprou coleiras de luxo para seus cães, no valor de US$ 64.000 (R$ 330.000). Relatórios supostamente enviados aos jornais por parte do grupo de desinformação também orientavam que eles fizessem “entrevistas especializadas” e que divulgassem conteúdos pró-Rússia nas suas postagens.

Além das notícias falsas presentes na denúncia, os perfis dos “jornalistas” também publicavam artigos com informações verdadeiras sobre o governo Milei. Para o openDemocracy, esta era uma tentativa de dar credibilidade aos perfis falsos.

Nomes e fotos falsas

Enquanto parte dos textos que criticavam o governo de Milei não tinham assinatura, aqueles que tinham jornalistas identificados ostentavam nomes e até mesmo fotos falsas, diz a denúncia.

Falso jornalista identificado como "Manuel Godsin" usava foto de IA gerada em 2018 Foto: openDemocracy/Divulgação
“Manuel Godsin” usava foto de IA gerada em 2018
Foto: openDemocracy/Divulgação

De acordo com o openDemocracy, um mesmo autor, identificado como Manuel Godsin, fez ao menos 20 publicações diferentes contra o governo em quatro sites. O problema é que Manuel não existe.

Todas as credenciais do falso jornalista, que se apresenta como formado em comunicação política na Universidade Nacional de Avellaneda, são mentirosas. O curso no qual ele diz que se formou não existe e a foto dele é, na verdade, uma imagem gerada por IA em 2018.

Outro “jornalista”, identificado como Juan Carlos López, que postou nove reportagens no Diario Registrado, usa uma foto comumente encontrada em um banco de imagens.

Um terceiro repórter, Marcelo Lopreiatto, que fez 12 textos em dois canais diferentes, usa uma uma foto distribuída por uma companhia de IA em uma campanha promocional em 2019.

Jornais deram respostas variadas sobre escândalo

Segundo o openDemocracy, dois jornais preferiram não comentar sobre o assunto, enquanto outros cinco não responderam sobre o caso.

Dois veículos argentinos (Realpolitik e Big Bang News) negaram que receberam qualquer dinheiro para fazer as publicações, assim como um site chileno (Osorno en Vivo).

Os jornais que teriam recebido o maior valor para as publicações, Diario Registrado, com US$ 28.600 (R$ 147.000), e C5N, com US$ 32.500 (R$ 167.000) não responderam aos pedidos de entrevista.

Dois jornalistas ouvidos em sigilo afirmaram que receberam dinheiro para publicar os artigos. Eles disseram, porém, que o valor era bem menor do que o que consta nos documentos.

Além disso, eles falaram que não sabiam que estavam contribuindo com uma organização russa. De acordo com eles, um “intermediário que alegava representar empresários argentinos preocupados com a indústria nacional” foi quem os procurou.

Apesar de negar que recebeu dinheiro, o jornal El Grito del Sur informou que está empenhado em divulgar qualquer informação que desacredite o governo Milei se ela estiver baseada em “fatos objetivos”.


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