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Liberdade de imprensa

Comitê para Proteção de Jornalistas pressiona Kuwait por jornalista preso após postar imagens da guerra no Irã

Ahmed Shihab-Eldin não é visto em público e nas redes sociais desde 2 de março, quando divulgou vídeos de aviões americanos abatidos

Jornalista Ahmed Shihab‑Eldin visitava parentes no Kuwait quando desapareceu; segundo o Comitê de Proteção a Jornalistas, ele foi preso após divulgar vídeos da guerra no Irã Foto: AJ+/Reprodução de vídeo/Youtube

Jornalista Ahmed Shihab‑Eldin visitava parentes no Kuwait quando desapareceu; segundo o Comitê de Proteção a Jornalistas, ele foi preso após divulgar vídeos da guerra no Irã Foto: AJ+/Reprodução de vídeo/Youtube




Um jornalista americano foi preso no Kuwait após divulgar uma série de vídeos de caças dos EUA sendo abatidos no país durante a guerra com o Irã. Ahmed Shihab-Eldin, que tem origem árabe, desapareceu em março, quando visitava o país do Golfo Pérsico, segundo denúncia do Comitê para Proteção dos Jornalistas.

Ele trabalhou para veículos americanos famosos, como o The New York Times, HBO, BBC e PBS e Al Jazeera.

A prisão do jornalista, divulgada nesta terça-feira (14), acontece em um contexto de repressão crescente nos países da região. Mesmo não estando diretamente envolvidos no conflito, os países viraram alvos de ataques israelenses por terem bases americanas.

Nesta quarta-feira (15), o comitê abriu uma petição pedindo a libertação “imediata e incondicional” do jornalista. O documento é voltado às autoridades do Kuwait e está escrito em árabe e em inglês.

Prisão de Shihab-Eldin

As imagens da guerra são negativas para uma região que depende não só do petróleo, mas também de escalas turísticas em seus grandes hubs de aviação.

De acordo com o CPJ, o jornalista estava no Kuwait visitando a família e foi preso no começo de março. Suas últimas publicações na rede social Substack são do dia 2 daquele mês, mostrando caças americanos abatidos por fogo amigo do Kuwait.

Além de divulgar um vídeo geolocalizado mostrando a queda de um dos caças, ele também postou fotos da população socorrendo os pilotos.

“Os dois pilotos conseguiram se ejetar e sobreviveram. Um vídeo divulgado nas redes sociais mostra moradores ajudando a equipe em um caminhão civil”, diz uma das publicações.

Não é possível saber por qual publicação as autoridades justificaram prisão do jornalista. O CPJ também não tem detalhes sobre onde ele está detido, nem sobre qual o seu estado de saúde.

Segundo o comitê, ele foi detido por “disseminar informações falsas, prejudicar a segurança nacional e fazer uso indevido de seu telefone celular”. O órgão ressaltou que as acusações são vagas e constantemente usadas para silenciar jornalistas.

“Jornalismo não é crime, e o caso de Shihab-Eldin reflete um padrão mais amplo de uso de leis de segurança nacional para sufocar o escrutínio e controlar a narrativa.”

A maior preocupação dos ativistas de liberdade de expressão é que Shihab-Eldin receba acusações baseadas em novas leis antiterroristas do Kuwait.

Outras entidades de proteção à liberdade de imprensa já alertaram que o nível da repressão do país aumentou significativamente após o início da guerra.

Repressão no Kuwait

O Kuwait publicou ao menos quatro decisões judiciais diferentes que endurecem a fiscalização contra imagens relacionadas à guerra do Irã no país.

Além disso, o país também aprovou duas leis diferentes que dão espaço para a classificação de meras publicações como “terrorismo” e “espionagem”. Todas as decisões são de março de 2026, após o início do confilto.

De acordo com o Centro do Golfo para os Direitos Humanos, o país prendeu “dezenas de cidadãos” por “espionagem e simpatia para estados estrangeiros”. Essas pessoas teriam publicado vídeos que, de acordo com o governo, “prejudicavam a segurança do estado”.

A proibição das gravações não acontece só na esfera legislativa, mas também vira orientação ao público. Neste mês, o Ministério do Interior do Kuwait proibiu explicitamente a gravação de vídeos de mísseis sendo interceptados e de autoridades trabalhando.

A alegação deles foi de que isso pode “incitar a ansiedade entre os membros da comunidade” e “impactar os procedimentos de segurança. De acordo com o ministério, quem espalhar boatos vai sofrer “medidas legais”.

Quem é Ahmed Shihab-Eldin

Nascido nos Estados Unidos, o repórter é filho de dois palestinos que, segundo ele, foram expulsos de assentamentos por Israel. Ele tem nacionalidade do Kuwait.

Em um dos seus trabalhos mais recentes, para a BBC, o jornalista cobriu como a polícia e as autoridades do Egito perseguem a população LGBTQIAP+.

O documentário “Queer Egypt Under Attack” ganhou o British Journalism Award. Em 2012, ele recebeu uma indicação ao Emmy pelo talk show interativo The Stream.

Para Al Jazeera English, ele fez reportagens sobre apoiadores de Trump e sobre o discurso de ódio crescente nos EUA.

Além disso, o jornalista também foi professor adjunto de mídia digital na Universidade de Columbia, referência em comunicação mundial.

Liberdade de expressão sufocada no Golfo Pérsico

Os problemas de repressão à liberdade de expressão não estão resumidos ao Kuwait.

Apesar de se declararem “amigáveis” e abertos ao turismo internacional, alguns países do Golfo Pérsico têm histórico de repressão a jornalistas. Isso foi reforçado no último mês para evitar a disseminação de imagens de ataques no contexto da guerra do Irã.

De acordo com o Centro do Golfo para os Direitos Humanos, a guerra em curso virou pretexto para perseguir jornalistas, blogueiros e ativistas.

O Catar divulgou um comunicado oficial em março desaconselhando a publicação de imagens da guerra. O país afirmou que queria “evitar a circulação de rumores” e disse que aqueles que publicassem poderiam sofrer com “responsabilidade legal”. 

Antes disso, duas semanas após o começo da guerra, os Emirados Árabes Unidos declararam que prenderam 45 pessoas por “crimes cibernéticos”. Esses presos, de acordo com as autoridades, gravaram pontos de ataque e “divulgaram ataques imprecisos que poderiam espalhar boatos”.


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