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Propaganda política

‘Slopaganda’: como memes de Trump e do Irã feitos com IA viraram a nova forma de propaganda política

por Mark Alfano professor de filosofia da Macquarie University, e Michał Klincewicz, professor de ciência cognitiva computacional da Tilburg University

Meme de Trump criado pelo Irã com Lego, classificado como slopaganda

Reprodução



Das imagens de Trump com Jesus e da tensão com o papa aos vídeos iranianos com bonecos de Lego, a “slopaganda” é uma nova forma de ruído visual: conteúdos feitos para circular rápido, provocar resposta emocional e embaralhar as fronteiras entre humor, falsidade e disputa de poder.


No início de março, uma semana depois dos primeiros ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, a Casa Branca publicou um vídeo com ataques reais dos EUA misturados a cenas de filmes, séries de televisão, videogames e animes populares.

O Irã e seus simpatizantes responderam aos ataques inundando as redes sociais com imagens antigas de guerra, supostamente do conflito atual, junto com conteúdo gerado por IA mostrando ataques a Tel Aviv e a bases dos EUA no Golfo Pérsico.

Mais recentemente, vídeos virais supostamente criados por uma equipe de iranianos retrataram Donald Trump, Jeffrey Epstein, Satanás, Benjamin Netanyahu, Pete Hegseth, o aiatolá Khamenei e outros como bonecos de Lego.

Bem-vindo ao admirável mundo novo da slopaganda.

A ascensão da slopaganda

No fim do ano passado, em um artigo publicado na Filisofiska Notiser, cunhamos o neologismo “slopaganda” para nos referirmos ao slop gerado por IA que serve a fins propagandísticos.

Por propaganda política pol, entendemos a comunicação destinada a manipular crenças, emoções, atenção, memória e outros processos cognitivos e afetivos para alcançar objetivos políticos. Acrescente-se a inteligência artificial generativa, e o resultado é a slopaganda.

Desde então, a situação da slopaganda se tornou muito pior do que esperávamos.

Em outubro de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicou um vídeo gerado por IA que o mostrava pilotando um caça, usando uma coroa e despejando fezes sobre manifestantes americanos.

Mais recentemente, ele publicou um vídeo gerado por IA imaginando sua biblioteca presidencial como um enorme e espalhafatoso arranha-céu, com direito a elevador dourado.

A slopaganda com tema de Lego criada pelo Irã é apenas mais um exemplo. O material não se limita a vídeos. Também pode incluir imagens, textos ou qualquer outra coisa que a IA consiga gerar.

Como a slopaganda atravessa nossas defesas

Qual é o objetivo de toda essa slopaganda? Até agora, temos várias respostas.

Primeiro, por meio da exposição repetida tanto na mídia tradicional quanto nas redes sociais, a slopaganda pode penetrar nossas defesas mentais habituais.

Ela funciona quando chama atenção, provoca forte reação emocional — normalmente negativa — e chega a um público distraído, como pessoas rolando o feed das redes sociais ou alternando entre abas do navegador.

Em segundo lugar, é uma forma muito eficaz de diluir o ambiente epistêmico — o mundo daquilo que achamos que sabemos — com falsidades e meias-verdades.

Como filósofos já argumentaram, o ChatGPT e outras ferramentas de IA generativa podem ser máquinas de bobagens, no sentido de produzirem conteúdo indiferente à verdade.

A slopaganda pode ser entendida como um tipo especial de bobagem de IA, mas suas características próprias ficam mais claras quando observamos seu uso em campanhas como a dos vídeos iranianos de Lego.

Isso não é apenas bobagem. Ninguém é levado a acreditar que Trump possa pilotar um F-16 e despejar fezes dele. Ninguém — esperamos — acredita que bonecos de Lego de plástico de Trump estejam em conluio com um boneco de plástico de Satanás.

Em vez de buscar precisão, a slopaganda é expressiva e emblemática de sentimentos e emoções, e pretende criar uma associação. As conexões pretendidas são algo como associar Satanás a Trump, enquanto os Estados Unidos são associados ao mal, e assim por diante.

Quando a slopaganda confunde realidade e piada

Um terceiro ponto é que algumas formas de slopaganda são, de fato, enganosas. Isso pode ocorrer por intenção deliberada ou porque uma piada ou provocação escapa de seu contexto original e passa a ser interpretada como algo sério — fenômeno que estudiosos chamam de “colapso de contexto”.

A slopaganda enganosa, incluindo deepfakes, pode ser gerada rapidamente durante conflitos, crises e emergências, quando as pessoas querem informações, mas fontes confiáveis são escassas.

Depois que uma informação enganosa ou uma determinada associação entra na mente de alguém, pode ser difícil removê-la. Como a slopaganda pode alcançar públicos enormes, mesmo um pequeno efeito enganoso na população em geral pode ter consequências significativas.

Atores estatais, empresas e indivíduos privados podem potencialmente influenciar crenças e decisões coletivas, incluindo resultados eleitorais, movimentos de protesto ou o sentimento geral sobre uma guerra impopular.

O que a slopaganda significa para a verdade compartilhada

Em quarto lugar, a disseminação da slopaganda pode nos levar a duvidar de todo o resto. Sem dúvida, as pessoas vão se tornar melhores em identificar esse tipo de material, mas também tenderão mais a classificar erroneamente conteúdos autênticos como slop.

Como resultado, a confiança pública em pessoas e instituições genuinamente confiáveis também pode cair.

Quando isso acontece, o efeito geral tende a ser uma redução da confiança pública em indivíduos e instituições realmente confiáveis, levando a uma espécie de dúvida niilista sobre a possibilidade de saber qualquer coisa de fato.

Quando é difícil ou impossível identificar fontes confiáveis, você pode escolher acreditar no que lhe parecer reconfortante, estimulante ou irritante.

Em sociedades cada vez mais polarizadas, às voltas com crises econômicas, políticas, militares e ambientais interligadas, o colapso de fontes compartilhadas de verdade só tende a piorar as coisas.

Três formas de evitar o ‘slopagandapocalipse’

O que pode ser feito diante dessa tempestade de merda da slopaganda? Há intervenções possíveis em três níveis diferentes.

Primeiro, os indivíduos podem se tornar mais alfabetizados digitalmente, por exemplo, procurando sinais reveladores de IA em textos, imagens e vídeos.

Também podem aprender a verificar fontes, em vez de apenas passar os olhos por manchetes e outros conteúdos, bem como bloquear fontes que espalham slopaganda rotineiramente, em vez de tentar avaliar cada peça de conteúdo isoladamente. Isso os ajudará a evitar cair na slopaganda sem deixar de confiar em fontes autênticas de notícias e outras informações.

Segundo, a indústria e os reguladores podem implementar soluções tecnológicas para aplicar marcas d’água em conteúdo gerado por IA. Alguns conteúdos talvez até precisem ser removidos de plataformas nas quais as pessoas veem notícias e outras informações importantes.

Terceiro, grandes empresas de tecnologia como OpenAI, Google e X podem ser responsabilizadas pelo que criaram. Isso poderia ser feito por meio de tributação e outras intervenções destinadas a financiar tanto esforços regulatórios quanto educação em letramento digital.

A slopaganda provavelmente veio para ficar. Mas, com visão suficiente e coragem, talvez ainda possamos nos adaptar a ela — e até controlá-la.

Este artigo foi publicado originalmente no portal acadêmico The Conversation e é republicado aqui sob licença Creative Commons.


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