A morte de uma jornalista do Líbano em um um bombardeio israelense causou comoção internacional e gerou o repúdio de diversas organizações de liberdade de imprensa e direitos humanos pelas circunstâncias ainda mais dramáticas do que a de outros que também perderam a vida nos combates.
Amal Khalil, do jornal Al-Akhbar, morreu na quarta-feira (22) após ter ficado encurralada com uma colega de trabalho em uma vila no sul do país e morreu sob os escombros de uma casa atingida por ataques.
Diversos pedidos de socorro foram ignorados por autoridades israelenses após o ataque que a matou e a entrada de socorristas só aconteceu sete horas depois, enquanto ela agonizava.
Nesta quinta-feira, uma multidão acompanhou o cortejo fúnebre, transmitido ao vivo por várias redes de notícias internacionais do mundo árabe.
Dozens of mourners, journalists and family attended the funeral of Amal Khalil, a Lebanese journalist who was killed in an Israeli attack in south Lebanon. Heidi Pett breaks down what we know about the incident, and Khalil’s last message to her family. pic.twitter.com/uTorcdVF4C
— Al Jazeera English (@AJEnglish) April 23, 2026
Em Beirute, manifestantes foram à Praça dos Mártires para uma vigília em homenagem à repórter. Eles levantaram fotos de outros jornalistas mortos e capas de jornais com o rosto de Amal.

Foto: @AmalKhalil83/X
A União de Jornalistas do Líbano convocou a manifestação e repudiou a morte dela em publicação nas redes. “Com este crime agravado, o exército israelense adiciona mais um crime de guerra deliberado e flagrante ao seu longo e sangrento histórico”, afirmou a organização.
O assassinato da repórter engrossa a lista de profissionais da comunicação mortos no Líbano desde a retomada da guerra na região. Ele aconteceu durante um cessar-fogo assinado menos de dez dias atrás.
Comoção internacional
ONGs internacionais de liberdade de imprensa e de direitos humanos repudiaram o assassinato. A Repórteres Sem Fronteiras lamentou a morte e disse que a responsabilidade do crime “também cai sobre aliados de Israel”.
“Pedimos que a comunidade internacional tome medidas firmes para garantir que o governo israelense ponha fim ao assassinato de jornalistas no Líbano e na Palestina.”
O Comitê para Proteção dos Jornalistas afirmou que está “indignado” e apontou que tentativas de resgate da jornalista foram obstruídas pelas Forças de Defesa de Israel. O órgão se pronunciou em uma nota assinada pela diretora regional Sara Qudah.
“O CPJ responsabiliza as forças israelenses pelo risco à vida de Amal Khalil e pelos ferimentos sofridos por Zeinab Faraj após o ataque direcionado ao local onde estavam.”
A Federação Internacional de Jornalistas afirmou que Israel faz uma “violência deliberada” e disse, ainda, que o país repete no Líbano as atrocidades cometidas em Gaza, sem qualquer ação da comunidade internacional.
“Estamos consternados com o assassinato direcionado de nossa colega, Amal Khalil, por Israel, e com a obstrução dos esforços de resgate que impediu que o socorro chegasse até ela enquanto estava presa sob os escombros.”
Pedido de socorro ignorado
De acordo com o governo do Líbano, a jornalista ligou para familiares e para o exército para pedir socorro antes da sua morte.
Khalil estava acompanhada da colega Zeinab Faraj quando um ataque matou duas pessoas perto do carro em que elas viajavam. As duas se abrigaram em uma casa da vila de al-Tayri e, enquanto esperavam por ajuda, foram atingidas por um novo bombardeio.
As tentativas de resgate da jornalista atrasaram após um ataque das Forças de Defesa de Israel contra as equipes de socorro, de acordo com o Líbano.
Quando os socorristas chegaram até a vila, encontraram Faraj ferida. Eles só conseguiram retirar o corpo de Amal Khalil dos escombros sete horas após o ataque.
Segundo a RSF, Khalil “agonizou por horas” aguardando a equipe de socorro. Horas antes da confirmação da morte dela, a ONG chegou a fazer um apelo nas redes sociais.
Em uma publicação, a RSF pediu que Israel deixasse que o resgate fosse até ela.
“Sua vida está em perigo e os constantes ataques israelenses estão impedindo que as equipes de resgate da Cruz Vermelha cheguem até a jornalista, que acredita-se estar presa sob os escombros de um prédio.”
Israel fez ataque deliberado, diz Líbano
O fato de que a repórter foi vítima de bombardeios sequenciais fez com que autoridades libanesas apontassem um ataque deliberado por parte de Israel.
O Ministério da Saúde divulgou uma nota afirmando que a mulher sofreu perseguição e morreu “buscando refúgio”.
O presidente do Líbano, Joseph Aoun, disse que o ataque é um “crime descarado” que viola as regras básicas da lei internacional.
O premiê libanês Nawaf Salam afirmou que os ataques aos jornalistas por parte de Israel são frequentes. Além disso, ele disse que as mortes de hoje constituem um crime de guerra.
Dois anos antes de morrer, a jornalista denunciou que recebeu ameaças de morte de um telefone israelense. Na época, Amal afirmou que mensagens orientavam que ela deixasse o sul do país “se quisesse manter a cabeça no lugar”.
Israel nega que o ataque foi deliberado e também diz que mirava alvos do Hezbollah que “cruzaram uma linha de defesa”. O exército israelense não confirmou a morte da repórter, mas disse que tomou conhecimento de que dois jornalistas se feriram na região.
Líbano lidera mortes de jornalistas em 2026
A morte de Khalil é a nona de um profissional de imprensa em 2026 no Líbano, de acordo com o Comitê para a Proteção dos Jornalistas. Assim como ela, todas as outras vítimas morreram após o início dos bombardeios israelenses no país, em 2 de março.
O caso mais emblemático envolvendo jornalistas no Líbano aconteceu em 28 de março. Na ocasião, três repórteres da Al-Manar TV e da Al-Mayadeen, ligadas ao Hezbollah, morreram após um ataque israelense explodir o carro no qual eles estavam no sul do país.
O segundo lugar no ranking do CPJ é o território palestino ocupado por Israel, com seis mortes desde o começo do ano. Irã e Síria também aparecem no ranking, com uma morte cada.
Além dos jornalistas mortos, o Líbano também registra profissionais feridos por ataques israelenses.
Em um dos casos mais recentes, o britânico Steve Sweeney ficou a poucos metros da queda de um míssil em uma ponte. Uma câmera gravou o momento da explosão e o repórter teve ferimentos leves. O caso também aconteceu no sul do país.
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