Os advogados do jornalista americano-kuwaitiano Ahmed Shihab-Eldin informaram que ele foi absolvido de todas as acusações movidas pelo governo do Kuwait nesta quinta-feira (23), após quase dois meses de detenção.
A informação foi confirmada pelo Comitê para a Proteção de Jornalistas (CPJ). A defesa contratada pelas irmãs do jornalista disse em nota que a libertação dele estava em tramitação após o veredito.
Shihab-Eldin havia sido preso em março no país árabe, onde estava visitando parentes, após divulgar uma série de vídeos de caças dos EUA sendo abatidos no país durante a guerra com o Irã.
Ele trabalhou para veículos americanos famosos, como o The New York Times, HBO, BBC e PBS e Al Jazeera, e foi acusado de “disseminar informações falsas, prejudicar a segurança nacional e fazer uso indevido de seu telefone celular”.
“Estamos aliviados que ele tenha sido considerado inocente após 52 dias de detenção”, disse a CEO do CPJ, Jodie Ginsberg.
“A liberdade e a segurança de Ahmed continuam sendo nossa principal prioridade e continuaremos monitorando de perto seu caso.
O CPJ tinha aberto uma petição pública pedindo a libertação “imediata e incondicional” do jornalista, voltado às autoridades do Kuwait.
Prisão de Shihab-Eldin
As últimas publicações do jornalista no Substack antes de ser preso foram exibidas no dia 2 de março. Ele mostrou cenas de caças americanos abatidos por fogo amigo do Kuwait.
Além de divulgar um vídeo geolocalizado mostrando a queda de um dos caças, ele também postou fotos da população socorrendo os pilotos.
“Os dois pilotos conseguiram se ejetar e sobreviveram. Um vídeo divulgado nas redes sociais mostra moradores ajudando a equipe em um caminhão civil”, diz uma das publicações.
Enquanto ele ficou detido, não houve informações sobre o local onde estava ou seu estado de saúde.
O Comitê ressaltou que as acusações contra ele eram vagas e constantemente usadas para silenciar jornalistas.
“Jornalismo não é crime, e o caso de Shihab-Eldin reflete um padrão mais amplo de uso de leis de segurança nacional para sufocar o escrutínio e controlar a narrativa.”
Quem é Ahmed Shihab-Eldin
Nascido nos Estados Unidos, o repórter é filho de dois palestinos que, segundo ele, foram expulsos de assentamentos por Israel. Ele tem nacionalidade do Kuwait.
Em um dos seus trabalhos mais recentes, para a BBC, o jornalista cobriu como a polícia e as autoridades do Egito perseguem a população LGBTQIAP+.
O documentário “Queer Egypt Under Attack” ganhou o British Journalism Award. Em 2012, ele recebeu uma indicação ao Emmy pelo talk show interativo The Stream.
Para Al Jazeera English, ele fez reportagens sobre apoiadores de Trump e sobre o discurso de ódio crescente nos EUA.
Além disso, o jornalista também foi professor adjunto de mídia digital na Universidade de Columbia, referência em comunicação mundial.
Repressão no Kuwait
As imagens da guerra são negativas para uma região que depende não só do petróleo, mas também de escalas turísticas em seus grandes hubs de aviação.
O Kuwait publicou ao menos quatro decisões judiciais diferentes que endurecem a fiscalização contra imagens relacionadas à guerra do Irã no país.
Além disso, o país também aprovou duas leis diferentes que dão espaço para a classificação de meras publicações como “terrorismo” e “espionagem”. Todas as decisões são de março de 2026, após o início do confilto.
De acordo com o Centro do Golfo para os Direitos Humanos, o país prendeu “dezenas de cidadãos” por “espionagem e simpatia para estados estrangeiros”. Essas pessoas teriam publicado vídeos que, de acordo com o governo, “prejudicavam a segurança do estado”.
A proibição das gravações não acontece só na esfera legislativa, mas também vira orientação ao público. Neste mês, o Ministério do Interior do Kuwait proibiu explicitamente a gravação de vídeos de mísseis sendo interceptados e de autoridades trabalhando.
A alegação deles foi de que isso pode “incitar a ansiedade entre os membros da comunidade” e “impactar os procedimentos de segurança. De acordo com o ministério, quem espalhar boatos vai sofrer “medidas legais”.
Liberdade de expressão sufocada no Golfo Pérsico
Os problemas de repressão à liberdade de expressão não estão resumidos ao Kuwait.
Apesar de se declararem “amigáveis” e abertos ao turismo internacional, alguns países do Golfo Pérsico têm histórico de repressão a jornalistas. Isso foi reforçado no último mês para evitar a disseminação de imagens de ataques no contexto da guerra do Irã.
De acordo com o Centro do Golfo para os Direitos Humanos, a guerra em curso virou pretexto para perseguir jornalistas, blogueiros e ativistas.
O Catar divulgou um comunicado oficial em março desaconselhando a publicação de imagens da guerra. O país afirmou que queria “evitar a circulação de rumores” e disse que aqueles que publicassem poderiam sofrer com “responsabilidade legal”.
Antes disso, duas semanas após o começo da guerra, os Emirados Árabes Unidos declararam que prenderam 45 pessoas por “crimes cibernéticos”. Esses presos, de acordo com as autoridades, gravaram pontos de ataque e “divulgaram ataques imprecisos que poderiam espalhar boatos”.
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