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Desinformação

Burlando a lei, empresa de saúde faz posts patrocinados vendendo falsa cura de câncer com ivermectina

The Wellness Company usa enquete feita com supostos pacientes em seu próprio site como se fosse estudo científico real

Em uma das publicações patrocinadas, pesquisador Peter McCullough - que assina o estudo - fala sobre suposta ação do remédio no câncer Foto: @JackPosobiec/Reprodução de vídeo

Em uma das publicações patrocinadas, pesquisador Peter McCullough - que assina o estudo - fala sobre suposta ação do remédio no câncer Foto: @JackPosobiec/Reprodução de vídeo




Influenciadores e sites conservadores receberam dinheiro da The Wellness Company, uma empresa de saúde dos EUA, para fazer publicações sobre um “estudo” que vende uma aparente cura para o câncer usando uma combinação dos vermífugos mebendazol e ivermectina , substância que foi falsamente apresentada como tratamento eficaz para a covid-19.

O NewsGuard, site jornalístico de combate à desinformação, denunciou o caso, que viola a lei de propaganda de medicamentos dos EUA e coloca o público em risco não apenas no país , já que posts em redes sociais não têm barreiras geográficas como a propaganda tradicional e são vistos em qualquer mercado.

Há várias postagens no X em português reproduzindo essas informações e citando o suposto estudo.

Com vídeos de um cientista bem apessoado que fala em nome da empresa, as publicações e notícias elencam números surpreendentes. Mas o suposto estudo é apenas uma pesquisa feita pela própria empresa ouvindo opiniões de pessoas que teriam feito o tratamento.

Os ótimos resultados vêm acompanhados de um cupom de desconto, que torna a droga “mais acessível” aos leitores daquele conteúdo patrocinado.

A denúncia não só mostra um caso de desonestidade com pacientes doentes, como também levanta o alerta para como algumas empresas burlam as leis para seguirem lucrando.

A situação é ainda mais grave quando o país no qual o anúncio foi divulgado é analisado: nos Estados Unidos, mais de 70% dos pacientes curados de câncer lidam com dívidas médicas assumidas durante o seu tratamento, segundo análise de 2022 da American Cancer Society.

O Ministério da Saúde do Brasil já publicou uma nota informando que a ivermectina não deve ser usada no tratamento de câncer, assim como diversas organizações internacionais como o Macmillan Cancer Support.

Ivermectina e mebendazol: a falsa cura do câncer

 Segundo os posts sem embasamento científico, uma simples combinação de ivermectina e mebendazol trariam “benefício clínico” para 84% dos pacientes. Para 48,4% deles, o “remédio milagroso” diminuiu tumores ou curou a doença.

A ivermectina e o mebendazol têm uso autorizado, mas a combinação das duas drogas cria um medicamento manipulado, ou seja: sem qualquer aprovação da Agência de Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA).

Apesar disso, um suprimento de 90 dias anunciado pela marca custa US$ 600 (equivalente a R$ 3.000).

Propagandas nas redes sociais

Apesar dos alertas de fontes confiáveis e oficiais, os “resultados positivos” da droga estão espalhados em mensagens nas redes sociais e publicados em sites.

A pesquisa do NewsGuard mostrou que ao menos duas contas conservadoras e com milhões de seguidores no X fizeram publicações patrocinadas sobre a falsa cura do câncer, acessíveis não só nos EUA mas em qualquer país.

Uma delas (@catturd2), com quatro milhões de seguidores, fez posts diferentes: o primeiro com os detalhes do suposto estudo. O outro, por sua vez, tinha um cupom de desconto para o medicamento “milagroso”.

A outra, do ativista de direita Jack Posobiec, editor do jornal Human Events e apoiador de Trump, também fez uma parceria paga promovendo o medicamento.

A mensagem postada na conta dele e é quase igual à do outro influenciador e também dá um desconto de US$ 60 no combo de remédios.

Nos dois casos, o que também chama atenção é a quantidade de respostas validando o suposto estudo.

“Funcionou para mim”, disse uma das pessoas. “Minha filha tinha câncer no osso, que não podia ser curado com terapia”, disse outra seguidora, afirmando que o vermífugo solucionou a doença.

Sites também divulgaram conteúdo patrocinado

O NewsGuard também encontrou notícias sobre o remédio em três sites de noticias conservadores, com o alerta de conteúdo patrocinado.

O Breitbart, The Western Journal e The Gateway Pundit começam seus textos falando de um “novo estudo inovador”. Um deles, inclusive, traz no título a clássica frase provocativa usada em propagandas sensacionalistas: “não querem que você saiba”

Além disso, eles também têm em comum a divulgação dos supostos dados em tópicos, da mesma forma que as publicações feitas no X.

Nenhum dos sites ou influenciadores retornou aos pedidos de resposta do NewsGuard. Até a sexta-feira (24) as publicações seguiam no ar, assim como os comentários.

Por que o estudo é problemático

A pesquisa por si só é repleta de falhas e levantou alerta dos especialistas. Primeiramente, ela usa como base de dados a experiência pessoal de usuários, que preencheram formulários online.

Além disso, não houve qualquer ensaio clínico, que compara resultados de quem recebeu o remédio com quem tomou placebos. Nenhum outro especialista revisou o estudo antes da sua publicação em um repositório online.

Por último, o diretor científico da The Wellness Company, Peter McCullough, aparece como uma das pessoas que assina o estudo. Isso representa um conflito de interesses entre o resultado e o autor da análise.

Em entrevista ao NewsGuard, o Dr. Skyler Johnson, da Universidade de Utah, afirmou que o autorrelato não é suficiente para comprovar a cura de um câncer.

O pesquisador Peter Lee, do City of Hope, por sua vez, explicou que parte dos pacientes usou o medicamento ao mesmo tempo em que fez outros tratamentos para curar a doença.

Logo, não seria possível saber se o combo de vermífugos ou a quimioterapia causaram a melhora.

Ação burla lei dos EUA

As publicações patrocinadas sugerindo que o remédio pode ser a cura do câncer violam a Lei de Alimentos, Medicamentos e Cosméticos de 1938, segundo o NewGuad. Nessa legislação, implementada pela FDA, “alegações terapêuticas falsas” são estritamente proibidas.

Além disso, ainda de acordo com essa legislação, médicos não podem fazer publicidade de um medicamento para curar doenças diferentes daquelas que estão previstas na bula dele. Logo, indicar um vermífugo para o câncer também .

O que acontece no caso da Wellness Company é que a empresa aproveita uma brecha na regra para promover o suposto estudo, e não o medicamento. Isso torna o campo de análise sobre ilegalidades mais nebuloso, já que não há uma propaganda direta da combinação das drogas.

O NewsGuard procurou a FDA, que não fez qualquer comentário específico sobre as ilegalidades apontadas.

Um porta-voz da agência disse que o órgão “aumentará a supervisão e a aplicação da lei” que diz respeito a violações das normas de publicidade de medicamentos controlados.

A agência está sob o guarda-chuva do secretário Robert F. Kennedy Jr, um conhecido negacionista de vacinas, que tenta, sem evidências concretas, ligar o uso de Tylenol na gravidez à incidência de autismo.


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