Um novo relatório da Federação Internacional de Jornalistas (IFJ na sigla em inglês) destaca o Brasil entre os dez países analisados em um estudo global sobre vigilância digital sobre profissionais da imprensa.
O documento afirma que a vigilância de jornalistas passou de casos isolados de monitoramento por parte de governos para uma indústria internacional sustentada por spyware, rastreamento de celulares, exploração de vulnerabilidades em redes de telecomunicações e análise de dados por inteligência artificial.
No caso brasileiro, a análise cita as investigações sobre o uso da plataforma FirstMile pela Agência Brasileira de Inteligência, ABIN, para geolocalizar milhares de dispositivos móveis sem autorização judicial. Os alvos teriam incluído jornalistas e opositores políticos.
Samar Al Halal, engenheira de computação e comunicações e especialista em segurança e direitos digitais, é a autora do estudo. Ela falou sobre os efeitos do problema para a sociedade:
“A vigilância é a arma usada para matar silenciosamente a liberdade de expressão. Quando os jornalistas são observados, as fontes desaparecem, as investigações param e a autocensura torna-se normal”.
Brasil é citado por caso envolvendo a ABIN e o FirstMile
O destaque dado ao Brasil decorre principalmente de investigações realizadas entre 2023 e 2024. Segundo o documento, investigações da Polícia Federal e operações autorizadas pela Justiça alegaram que a ABIN usou indevidamente a plataforma FirstMile para seguir milhares de dispositivos móveis sem ordem judicial.
A ferramenta pode ter sido usada dezenas de milhares de vezes, segundo a análise. O caso envolveu prisões de autoridades ou funcionários ligados à inteligência, buscas em vários estados e escrutínio judicial e parlamentar sobre a compra e o uso de tecnologias de rastreamento no país.
Na leitura da IFJ, o episódio brasileiro integra um padrão observado em diferentes países: a combinação entre tecnologias de vigilância, atuação de serviços de inteligência e mecanismos frágeis de transparência, controle judicial, fiscalização legislativa ou auditorias independentes.
Além de plataformas de alta tecnologia, os jornalistas brasileiros também enfrentam ameaças de baixa tecnologia, mas generalizadas, como phishing direcionado, personificação em redes sociais e buscas em dispositivos ou extração de dados por meio de invasões, diz o estudo.
Esses padrões alinham-se com a documentação mais ampla de grupos de liberdade de imprensa sobre spyware e ferramentas investigativas sendo usadas contra repórteres em todo o mundo.
Indústria global de spyware mira jornalistas
A indústria global de spyware é descrita no documento a partir de ferramentas como Pegasus, da NSO Group; Predator, da Intellexa; e Graphite, da Paragon. Vendidos como tecnologias de interceptação legal, esses sistemas aparecem repetidamente associados a abusos contra jornalistas, ativistas e integrantes da sociedade civil.
Essas ferramentas podem permitir acesso silencioso a celulares e computadores, extração de mensagens, fotos, áudios e dados em tempo real, além da ativação remota de microfones e câmeras.
Em alguns casos, a infecção ocorre por meio de ataques chamados zero-click, nos quais a vítima não precisa clicar em links ou baixar arquivos para que o dispositivo seja comprometido.
Sobre o Brasil, a IFJ afirma que há alegações sobre o uso do Pegasus, mas observa que as evidências baseadas em investigações oficiais são mais limitadas do que em países vizinhos, como México e El Salvador.
Jornalistas brasileiros também aparecem expostos a métodos mais baratos e disseminados, como phishing direcionado, personificação em redes sociais e buscas ou extração de dados de dispositivos em investigações criminais.
Infraestrutura de telecomunicações é apontada como risco
Uma face menos visível da vigilância envolve a própria infraestrutura de telecomunicações. Falhas em protocolos como SS7 e Diameter podem permitir localização, interceptação e clonagem de comunicações móveis sem a instalação de spyware no aparelho do alvo.
O uso de IMSI catchers, equipamentos que simulam torres de celular para capturar identificadores de aparelhos próximos, também aparece entre as táticas mapeadas. Em protestos, eventos sensíveis ou áreas de cobertura jornalística, esse tipo de ferramenta pode ser usado para identificar aparelhos de repórteres e ativistas.
Essa forma de vigilância é apontada como especialmente difícil de detectar porque pode ocorrer fora do dispositivo do jornalista. Um telefone pode estar tecnicamente seguro e, ainda assim, ter chamadas, localização ou metadados monitorados por meio da rede de telecomunicações.
Inteligência artificial amplia a escala do monitoramento
A fusão de dados por inteligência artificial aparece como uma nova fronteira da vigilância contra jornalistas. Sistemas analíticos já permitem cruzar registros de chamadas, localização, atividade em redes sociais, dados extraídos de dispositivos e informações públicas para mapear relações, rotinas e redes profissionais.
Nesse cenário, o risco não se limita a um repórter individualmente. Redações, fontes, colaboradores, advogados, organizações da sociedade civil e pessoas que mantêm contato com jornalistas em investigações sensíveis também podem ser atingidos por esse tipo de monitoramento.
Uma das mudanças destacadas é a passagem do monitoramento individual para o perfilamento em massa. Em vez de apenas invadir o telefone de um jornalista, sistemas de vigilância podem reunir dados de telecomunicações, redes sociais, registros públicos, dispositivos apreendidos e ferramentas de inteligência artificial para mapear redes inteiras de contatos.
A IFJ associa esse cenário a efeitos psicológicos e profissionais. A percepção de que chamadas, mensagens, deslocamentos e contatos podem ser monitorados contribui para exaustão, autocensura e abandono de investigações sensíveis.
Provar a vigilância ainda é difícil
Muitas formas de vigilância são invisíveis para o alvo. Em ataques com spyware sofisticado, jornalistas frequentemente só descobrem que foram monitorados depois de uma investigação especializada, às vezes meses após a infecção.
O problema é agravado pela falta de capacidade técnica disponível. Poucas organizações no mundo, como Citizen Lab, Amnesty International Security Lab e Access Now, têm condições de confirmar infecções por spyware ou rastrear ataques complexos.
A limitação afeta de forma particular jornalistas do Sul Global, como os do Brasil, que muitas vezes têm menos acesso a apoio técnico especializado. Em muitos casos, jornalistas só buscam treinamento de segurança digital depois de um incidente, quando fontes e comunicações já podem ter sido comprometidas.
IFJ recomenda moratória e mais controle público
A resposta à vigilância contra jornalistas, segundo a IFJ, não pode ser apenas técnica. Ferramentas como criptografia, aplicativos seguros, autenticação em dois fatores, VPNs e armazenamento protegido continuam importantes, mas são insuficientes sem responsabilização política, legal e institucional.
Entre as recomendações está uma moratória sobre a exportação, venda e uso de spyware invasivo até que existam salvaguardas robustas de direitos humanos.
A federação também defende proteções legais para fontes jornalísticas e comunicações digitais, além da criação ou fortalecimento de órgãos independentes com poder para auditar atividades de vigilância estatal.
Para jornalistas e redações, as recomendações incluem treinamento contínuo em segurança digital, avaliação de risco em apurações sensíveis, protocolos de proteção de fontes e acesso a apoio técnico especializado.
O documento recomenda ainda investimento em capacidade de investigação regional, especialmente em contextos onde jornalistas têm pouco acesso a laboratórios capazes de verificar infecções por spyware.
O relatório completo pode ser visto aqui.
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