O apresentador de programas de natureza britânico David Attenborough chegou aos 100 anos nesta sexta-feira (8) com um presente pouco comum: uma vespa recém-descrita pela ciência ganhou do Museu de História Natural de Londres o nome de Attenboroughnculus tau.
Essa é uma das muitas homenagens que ele está recebendo pelo centenário, celebrando uma trajetória de comunicador que dedicou mais de sete décadas a apresentar ao público a diversidade da vida no planeta — dos grandes mamíferos aos organismos quase invisíveis. E que continua na ativa.
Apresentador, produtor, escritor e narrador de documentários de história natural, Attenborough entrou para a história da televisão e da conservação da natureza com séries que combinaram imagens impressionantes, conhecimento científico, voz marcante, carga dramática e boas doses de humor britânico.
Seu nome se tornou conhecido mundialmente a partir da BBC, onde começou a trabalhar nos anos 1950 e construiu uma carreira associada à popularização da ciência e da vida selvagem em documentários filmados e exibidos em todo o mundo, incluindo no Brasil.
Nesta mensagem, transmitida pela BBC, Attenborough fala de seu aniversário de forma bem-humorada, dizendo que pretendia passar a data quietinho “mas muitos tiveram outras ideias” para esse dia.
David Attenborough e o marco de Life on Earth
Aos 100 anos, David Attenborough representa um caso raro de continuidade na mídia. Sua carreira começou antes da televisão em cores se tornar padrão e chegou à era do streaming, das câmeras em altíssima definição, dos drones, das imagens subaquáticas sofisticadas e das plataformas globais.
Entre seus trabalhos mais importantes está Life on Earth, exibida pela BBC em 1979. A série apresentou a história da evolução da vida no planeta em 13 episódios e consolidou um formato que se tornaria marca das grandes produções de natureza: filmagens em diferentes partes do mundo, colaboração com cientistas e uma narrativa voltada ao público amplo.
Em um programa especial da BBC para marcar o aniversário de 100 anos, Attenborough relembrou histórias de bastidores das filmagens, incluindo o momento em que interage com gorilas, criando uma cena inesquecível.
Ao longo das décadas, várias produções narradas por ele ou ligadas à Unidade de História Natural da BBC passaram pelo Brasil e filmaram ecossistemas como a Amazônia e o Pantanal.
Como os 100 anos de David Attenborough são comemorados
As comemorações pelos 100 anos incluem um evento da BBC no Royal Albert Hall, em Londres, na noite desta sexta-feira, com transmissão ao vivo no país que aprendeu a idolatrar uma figura única e presente na vida de britânicos de todas as idades.
A BBC também reuniu grandes cenas transmitidas e narradas pelo apresentador neste vídeo.
Do menino que colecionava fósseis ao apresentador reconhecido no mundo
David Frederick Attenborough nasceu em 8 de maio de 1926, em Isleworth, nos arredores de Londres, e cresceu em Leicester, no campus da então University College Leicester, onde seu pai, Frederick Attenborough, era diretor.
Ainda criança, desenvolveu interesse por animais, pedras, fósseis e outros espécimes naturais, que colecionava nos arredores da universidade.
Esse contato precoce com o mundo natural aparece em sua trajetória como ponto de partida de uma curiosidade que depois seria levada para a televisão.
Antes de trabalhar na BBC, Attenborough estudou ciências naturais na Universidade de Cambridge, com formação em geologia e zoologia.
Ele não seguiu carreira como pesquisador acadêmico, mas levou para a mídia uma forma de observar a natureza baseada em descrição, comparação e explicação.
Seu primeiro trabalho de grande visibilidade foi Zoo Quest, série lançada em 1954 que acompanhava expedições em busca de animais para o Zoológico de Londres.
O programa apresentou Attenborough ao público e marcou o início de uma relação de longa duração entre televisão, viagem, ciência e vida selvagem.
O papel de Attenborough dentro da BBC
Antes de se tornar a voz mais conhecida dos documentários de natureza, Attenborough também ocupou cargos executivos na BBC.
Ele chegou a ser cotado para o posto mais importante da rede, o de Diretor-Geral. Mas recusou a indicação para se dedicar ao que mais gostava de fazer: contar histórias da natureza.
Na BBC Two, participou da formação de uma programação que abriu espaço para ciência, cultura, educação, artes e documentários em formatos mais ambiciosos.
A partir dos anos 1970, voltou a se dedicar de forma mais direta à produção e apresentação de séries de história natural. Foi nesse período que Life on Earth começou a ser desenvolvida.
Life on Earth e a escala da vida no planeta
Exibida em 1979, Life on Earth foi um marco na carreira de Attenborough e no formato de documentários ambientais.
A série organizou a história da vida em uma narrativa cronológica, partindo das formas mais antigas de vida até chegar aos seres humanos.
Foram 13 episódios produzidos para explicar, em linguagem televisiva, processos evolutivos que normalmente ficavam restritos ao ensino formal ou à literatura científica.
A série também definiu um padrão que seria repetido e ampliado em produções posteriores: grandes temas científicos, filmagens internacionais, imagens de difícil obtenção, colaboração com especialistas e a presença de Attenborough como guia da narrativa.
As grandes séries de natureza narradas por David Attenborough
Depois vieram séries como The Living Planet, The Trials of Life, The Blue Planet, Planet Earth, Frozen Planet, Blue Planet II e Our Planet.
Juntas, essas produções ajudaram a levar temas como evolução, comportamento animal, oceanos, florestas, regiões polares, biodiversidade e impacto humano sobre a natureza a audiências de vários países.
O Brasil nas séries de Attenborough
O Brasil aparece na obra associada a Attenborough porque ocupa lugar central nas narrativas sobre biodiversidade.
A Amazônia, o Pantanal, florestas inundadas, rios, aves, insetos, botos, jacarés e onças fazem parte do repertório visual dos documentários de história natural que circularam internacionalmente nas últimas décadas.
Em Planet Earth II, a equipe da BBC filmou onças em áreas brasileiras marcadas por rios e vegetação densa.
A BBC relata que a equipe passou seis semanas acompanhando os animais a partir da água, com equipamentos estabilizados para registrar o movimento das onças nas margens.
Da observação da natureza ao alerta ambiental
A carreira de Attenborough atravessa uma mudança importante na televisão de natureza. Nas primeiras décadas, os documentários eram centrados sobretudo na observação de espécies, comportamentos animais, ambientes remotos e processos evolutivos.
Com o avanço da crise ambiental, esse eixo mudou. Produções mais recentes passaram a tratar com mais frequência de mudança climática, perda de biodiversidade, poluição plástica, pesca predatória, destruição de habitats e risco de extinção.
Blue Planet II, exibida em 2017, teve impacto no debate público britânico sobre o uso de plásticos, segundo a Reuters.
Ao longo desse período, mudou a tecnologia, mudou o público e mudou a própria forma como a natureza é tratada na comunicação.
O que antes era apresentado principalmente como descoberta ou espetáculo visual passou a ser discutido também como sistema ameaçado e como parte das condições de sobrevivência humana.
Aos 99 anos, ele lançou um novo programa pedindo ação pela proteção dos oceanos.
E este ano, sem idade para fazer as longas viagens, ele mostrou que não pretende sair de cena tão cedo, com uma série sobre a vida selvagem em Londres, onde mora.
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