A relação complexa entre mãe e filho não é algo fácil de capturar na tela. Para o Dia das Mães, o portal acadêmico The Conversation pediu a especialistas em história da arte, cultura e artes visuais que compartilhassem seu quadro favorito de uma mãe ou figura materna.
Veja o que Marius Kwint (University of Portsmouth) Alice Sanger (The Open University) Jen Harvie (Queen Mary University of London); Pragya Agarwal (Loughborough University e Samuel Shaw (The Open University) escolheram.
1. Hunting for Lice (Caçando piolhos), de Gerard ter Borch (1652)
Esta pequena pintura, exposta no museu Mauritshuis, em Haia, mostra uma cena que pode ser familiar a qualquer pessoa que cuide hoje de crianças em idade de creche ou escola. Gerard ter Borch captura o olhar de determinação materna concentrada e a resignação paciente da criança, que provavelmente é um menino, a julgar por sua bata e pela bola em sua mão.

Ele interrompeu a brincadeira e se inclina sobre a estrutura robusta da mãe sentada, vestida de forma respeitável. Típica da pintura de gênero holandesa, a obra carrega uma mensagem moral e encontra espiritualidade nos atos mais humildes.
O pente fino era um símbolo artístico e poético da purificação da alma, assim como do corpo. Portanto, essa mãe não está apenas cuidando da saúde física do filho, mas também pensando em sua salvação futura.
Mas também podemos simplesmente apreciar seu leve sorriso de prazer e satisfação nesse momento de proximidade significativa com seu filho querido.
Marius Kwint é professor de Cultura Visual.
2. Madonna of the Pilgrims (Madonna dos Peregrinos), de Michelangelo Merisi da Caravaggio (1603-1605)
A pintura de altar de Caravaggio, Madonna of the Pilgrims [exposta na Basílica de Santo Agostinho / Campo Marzio], oferece uma mistura sedutora entre o ordinário e o extraordinário.
O cenário é mínimo, simples e dolorosamente mundano: o batente de uma porta com a alvenaria lascada; alguns tijolos aparentes; um degrau de pedra. Uma jovem mãe — bonita, mas um tanto maltrapilha — apoia no quadril um bebê pesado.

O vínculo entre mãe e filho é palpável, verossímil e profundamente humano. Seus halos discretos, porém, confirmam que essas figuras estão longe de ser comuns. A porta sombria diante da qual eles aparecem é, aparentemente, a entrada do santuário da Santa Casa de Loreto, a casa da Virgem Maria.
Os humildes peregrinos ajoelhados à porta da Virgem não estão apenas vestidos de forma pobre, mas são de fato sujos — os pés encardidos de um deles tornaram esta pintura notória.
Ainda assim, sua piedade é recompensada, pois as figuras sagradas olham para eles com simpatia, e Cristo parece estender sua pequena mão em um gesto de bênção.
Alice E. Sanger é professora associada de História da Arte.
3. Interior, Mother and Sister of the Artist (Interior, mãe e filha do artista), de Édouard Vuillard (1893)
A maior parte da pintura ocidental romantiza as mães, destacando uma intimidade terna e feliz. Nessas pinturas, as mães geralmente são jovens, com bebês ou crianças pequenas.
Mas onde estão as realidades complexas das dificuldades entre mãe e filho, da separação e do ressentimento — e da maternidade como tribulação e resistência, pense nos filhos adolescentes e nos filhos adultos que voltam para casa?

Interior, Mother and Sister of the Artist, de Édouard Vuillard, de 1893, retrata uma relação adulta entre mãe e filha psicologicamente intensa. Vuillard pintou sua mãe mais de 500 vezes e viveu com ela até sua morte, quando ele tinha 60 anos. Ele disse:
“Ma maman, c’est ma muse — minha mãe é minha musa).”
No espaço abarrotado de Interior, a madura Madame Vuillard domina: pernas afastadas, cotovelos projetados como os de uma boxeadora sentada, seu corpo sólido e negro como um vórtice que puxa para dentro o quarto, os móveis e a filha.
A filha é consumida pela domesticidade opressiva, como mostra o papel de parede, e simultaneamente repelida e atraída — curvando-se — em direção à mãe. O poder é nitidamente assimétrico, e a intimidade, perturbadora.
Relações entre mães e filhos às vezes são desagradáveis. Em Interior, Vuillard reconhece essa verdade com ousadia.
Jen Harvie é professora de Teatro e Performance Contemporâneos.
4. The Mothers (As mães), de Käthe Kollwitz (1921-1922)
Mães aglomeradas em uma dor e um luto inimagináveis. Não consigo deixar de pensar nessa imagem neste momento. Esta xilogravura de Käthe Kollwitz é a penúltima de seu portfólio sobre a guerra. Sua experiência pessoal informou a gravura. Seu filho, Peter, foi morto no front em 1914.

As mães na imagem de Kollwitz formam quase uma massa escultural, uma comunidade unida por uma dor pulsante. Esta imagem altamente emotiva mostra as consequências irreparáveis da guerra, os filhos que essas mães perderam e têm medo de perder.
Guerras podem ser vencidas e perdidas no ar, no front ou em uma sala de controle em algum lugar distante, mas acredito que são as mulheres e as crianças em terra que mais sofrem. E são as mães que precisam carregar o peso da perda de uma geração.
Pragya Agarwal é professora visitante de Desigualdades e Injustiça Sociais.
5. Mother and Child (Mãe e filho), de William Rothenstein (1903)
Nos anos 1900, William Rothenstein completou uma série de pinturas retratando sua mulher — a atriz Alice Knewstub — posando em vários interiores.
As pinturas acompanham os primeiros anos do casamento dos dois e o crescimento da família. Mother and Child, que fica em algum ponto no meio dessa série, representa Alice segurando o filho mais velho do casal, John, que viria a se tornar diretor da Tate.

As representações de Rothenstein da relação entre mãe e filho variam ao longo das pinturas. Nesta, ele captura especialmente bem a maneira como os pais apoiam os filhos para que fiquem de pé, sabendo que um dia essas pernas poderão levá-los para longe.
A atenção de Alice está em John, mas a atenção de John está em algo que acontece do lado de fora da janela. A posição do navio em miniatura logo acima de sua cabeça prolonga o tema do desejo de segurar algo que não poderá ser segurado para sempre.
Sempre me perguntei se esta pintura era bem conhecida por um dos alunos posteriores de Rothenstein, um jovem escultor chamado Henry Moore, que foi igualmente — e mais famosamente — atraído pelo tema da mãe segurando uma criança. Parece muito provável.
Samuel Shaw é professor sênior de História da Arte
Breakfast in Bed (Café na Cama), de Mary Cassat
Complementando a seleção, a editora de artes e cultura do The Conversation, Anna Walker escolheu como seu quadro de maternidade favorito Breakfast in Bed, de Mary Cassatt (1897).

“Tantas coisas podem ser lidas no rosto da mãe – exaustão, amor, medo, proteção. Cassatt imortalizou um momento íntimo do período fugaz da infância de uma criança.”
Este artigo foi publicado originalmente no portal acadêmico The Conversation e é republicado aqui sob licença Creative Commons.
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