Ao mesmo tempo em que a destruição da infraestrutura dificulta o acesso de jornalistas aos locais afetados pelas enchentes no Nepal, outro risco está complicando o trabalho das equipes de emergência e da imprensa: a circulação de informações falsas.
O alerta foi feito pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Ela aponta que estatísticas não verificadas sobre vítimas e informações contraditórias estão se espalhando nas mídias sociais, agravadas pelo atraso inicial nas comunicações de crise das autoridades e à falta de dados confiáveis em tempo real.
No vizinho Tibete, as dificuldades de acesso à informação são ainda mais preocupantes.
Até o momento da emissão do comunicado da RSF sobre a situação local, nenhum meio de comunicação tibetano independente ou internacional foi autorizado a acessar a área atingida pelo desastre, de acordo com a ONG.
“Nos últimos anos, sob o comando de Xi Jinping na China, o Tibete se tornou um buraco negro de informação. Nenhum veículo de imprensa tibetano independente, nem qualquer mídia internacional, tem permissão para cobrir livremente notícias desta região.”
Informações falsas desmascaradas por site de fact-checking no Nepal
No Nepal, a combinação de impossibilidade de acesso devido à destruição de pontes e estradas, cortes de energia e telefonia e dados imprecisos fornecidos pelo governo alimenta a disseminação de informações falsas sobre a escala e as consequências do desastre, diz a RSF.
Pelo menos quatro jornalistas estão entre os desaparecidos, de acordo com informações preliminares obtidas pela RSF. Os que sobreviveram, muitos traumatizados, continuam trabalhando em condições extremamente difíceis.
A organização apurou que muitas estações de rádio estão fora de serviço nas áreas afetadas e é impossível imprimir jornais devido a quedas de energia. Pelo menos nove redações foram afetadas.
Nesse ambiente, a desinformação prolifera nas redes sociais e em até em meios de comunicação
O site de verificação de fatos NepalFactCheck desmascarou um vídeo de uma cena de inundação no Nepal que havia sido gerada por IA, bem como outro clipe supostamente mostrando o Ministro do Interior do Nepal entrando em um túnel com o exército, que na verdade se originou do estado indiano de Uttarakhand.
Outro conteúdo alegou falsamente que pessoas presas em um canteiro de obras de uma usina hidrelétrica haviam sido resgatadas. Na verdade, as operações de resgate ocorreram em um local vizinho.
Para combater a desinformação, o Conselho de Imprensa do Nepal criou um portal para receber denúncias de informações falsas.
No Tibete, ‘contraste impressionante’
Já no Tibete não há esforços do governo para informar a sociedade. Ainda que o Nepal apresente falhas em sua comunicação, a RSF diz que o contraste com o país vizinho é “impressionante”.
“Isso reflete uma prática de longa data do regime chinês, um dos mais rigorosos do mundo no controle sobre os profissionais da mídia. Apenas jornalistas pré-aprovados pelas autoridades são autorizados a entrar no território, geralmente como parte de missões de reportagem monitoradas rigorosamente.”
Após o desastre, de acordo com a Repórteres Sem Fronteiras, o regime chinês só autorizou a mídia estatal a cobrir as inundações, com matérias enfatizando as conquistas e sucessos do regime nos esforços de socorro, em vez de fornecer um relato abrangente da escala e do impacto do desastre.
O jornal estatal chinês Xinjing Bao (The Beijing News) informou que as autoridades também puniram pelo menos dez usuários da Internet por “espalhar rumores” relacionados ao desastre.
“Desta vez, o controle da informação parece ser muito mais rígido, tornando extremamente difícil para os jornalistas entenderem a verdadeira escala do desastre”, disse Kalsang Jigme, editor-chefe da mídia independente Tibet Radio, à RSF, comparando a cobertura deste desastre com a de eventos semelhantes no passado.
“Percebi um nível muito alto de censura e controle de informações dentro do Tibete.
Também tentei alcançar tibetanos no exílio cujas famílias estão nas áreas afetadas pelas enchentes. Muitos têm relutado em compartilhar informações porque temem que falar publicamente possa colocar suas famílias dentro do Tibete em risco.”
A RSF aponta que o número de vítimas no lado tibetano parece ser significativamente subestimado, de acordo com os meios de comunicação tibetanos, que estão tentando verificar as informações, apesar do acesso extremamente limitado a fontes e informações confiáveis.
Fontes da organização também relataram uma censura generalizada nas mídias sociais chinesas, particularmente na plataforma WeChat, onde as referências às inundações foram censuradas ou excluídas.






