Embora os riscos para os jornalistas na Europa não cheguem nem perto da violência física extrema registrada em outras regiões do mundo — como na América Latina ou no Oriente Médio, com taxas muito mais altas de mortes de jornalistas —, a liberdade de imprensa no continente europeu enfrenta uma perigosa deterioração.
Só que, em vez de balas ou mísseis, as principais ferramentas usadas para intimidar e silenciar o jornalismo independente são o assédio digital, a vigilância, o abuso do poder político e reformas legislativas restritivas.
De acordo com um novo relatório do Mapping Media Freedom, foram registradas 736 violações da liberdade de imprensa entre janeiro e junho de 2026 em países da União Europeia e candidatos a integrar o bloco.
O número equivale a mais de quatro ocorrências por dia e representa aumento de 3,8% em relação às 709 registradas no mesmo período de 2025. Ao todo, 1.174 jornalistas e outros profissionais ou pessoas com alguma ligação com a mídia foram afetados neste ano.
Isso aconteceu na região que, ao lado da América do Norte, sempre figurou entre os lugares do mundo mais seguros para a prática do jornalismo.
E assim como na Europa, os EUA vivem um período sombrio, com o governo Trump usando as mesmas armas apontadas no relatório europeu, como assédio digital e jurídico – situação que atingiu esta semana um perigoso terreno com a cassação de credenciais de correspondentes da Casa Branca.
Ambiente digital concentra mais ataques à imprensa
O Mapping Media Freedom faz parte do Media Freedom Rapid Response (MFRR), iniciativa que monitora violações da liberdade de imprensa nos 27 países da União Europeia e em países candidatos ao bloco. Esses países precisam demonstrar adesão aos princípios da UE, incluindo liberdades de imprensa e de expressão.
O relatório analisou ocorrências registradas entre 1º de janeiro e 30 de junho de 2026.
O ambiente online foi onde mais ataques aconteceram no primeiro semestre de 2026, concentrando 238 casos, ou 32,3% do total, seguindo um padrão dos últimos anos.
O assédio aparece principalmente na forma de insultos, ataques à credibilidade e tentativas de desacreditar jornalistas, registrados em 212 ocorrências. Ameaças foram identificadas em outros 155 casos e incluíram ameaças de morte.
Os responsáveis pelos ataques também recorreram a ferramentas digitais para atingir diretamente a identidade e os dados dos profissionais.
Segundo o levantamento, houve casos em que autores se passaram por jornalistas ou copiaram a identidade visual de profissionais e veículos — em algumas situações com o auxílio de inteligência artificial — para disseminar informações e narrativas falsas.
Outra prática registrada foi o doxxing, exposição maliciosa de informações pessoais como nomes, fotografias, telefones e endereços residenciais.
Dados jornalísticos e sigilo das fontes também são alvo
O relatório documentou 17 tentativas de apreender, acessar ou destruir dados jornalísticos. Em seis desses casos, jornalistas foram pressionados a revelar fontes confidenciais.
Ataques de hacking e de negação de serviço (DDoS) também tiraram do ar, de forma temporária ou completa, sites e contas de redes sociais de jornalistas e veículos. Em 81% dos casos, os responsáveis permaneceram anônimos, situação que, segundo o relatório, aumenta o risco de impunidade.
Na Alemanha, autoridades do estado de Sarre aprovaram mudanças que retiraram salvaguardas específicas contra a vigilância técnica de jornalistas.
Já em Berlim, alterações propostas à legislação de acesso à informação foram adiadas depois de críticas de que poderiam prejudicar reportagens de interesse público.
Políticos aparecem em quase um quinto dos ataques
Políticos estão por trás de 136 ocorrências, ou 18,5% do total registrado na Europa. Considerando apenas os 27 países da União Europeia, essa participação chega a 25% dos casos.
Segundo o relatório, políticos foram autores de ameaças, insultos e campanhas para desacreditar jornalistas. Mas também houve registros de agressões físicas, medidas judiciais e interferência direta no trabalho da imprensa.
Indivíduos privados (como empresários ou celebridades) continuam sendo o grupo mais frequente entre os autores identificados, com 195 ocorrências, ou 26,5% do total.
Turquia concentra 89% das detenções e prisões registradas
Entre janeiro e junho, o Mapping Media Freedom monitorou 47 casos de detenção, prisão ou encarceramento envolvendo 61 jornalistas em países europeus analisados. A Turquia respondeu sozinha por 42 dessas ocorrências, ou 89%.
Trinta casos no país envolveram detenções ou prisões relacionadas à cobertura de protestos ou a publicações em redes sociais, com acusações recorrentes de desinformação.
Outros 12 casos resultaram em condenações à prisão de 15 jornalistas, que somaram pelo menos 32 anos de reclusão, principalmente com base em leis antiterrorismo e de desinformação.
O relatório registra ainda detenções ou restrições contra jornalistas na Geórgia, Sérvia e Espanha.
Na Geórgia, o jornalista azerbaijano exilado Afgan Sadygov foi deportado para o Azerbaijão horas depois de ser preso, apesar de medidas do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos contrárias à extradição.
A jornalista germano-ucraniana Marina Klimchuk teve a entrada negada no aeroporto de Tbilisi e permaneceu retida por quase 24 horas.
Na Sérvia, fotojornalistas foram detidos enquanto cobriam manifestações e outros atos públicos. Uma missão realizada pelo MFRR no país apontou uma continuidade da violência contra profissionais de mídia, alimentada, segundo o grupo, por autoridades públicas, meios pró-governo e agentes de segurança.
Onze medidas legislativas levantam preocupação
O relatório identificou 11 mudanças ou iniciativas legislativas no primeiro semestre de 2026 consideradas preocupantes para a liberdade de imprensa. Elas envolvem restrições a financiamento estrangeiro, independência da mídia pública, acesso à informação e vigilância.
- Na Geórgia, novas regras passaram a exigir aprovação governamental para bolsas, treinamentos e outros tipos de apoio financeiro estrangeiro a organizações de mídia e da sociedade civil, com penas que podem chegar a seis anos de prisão.
- Na Romênia, o Senado aprovou um projeto que obriga ONGs, incluindo veículos de comunicação sem fins lucrativos, a divulgar seus doadores sob risco de serem obrigados a encerrar as atividades.
- Na Eslováquia, reformas propostas concentrariam os poderes do órgão regulador da mídia em um único presidente, nomeado e removível pelo Parlamento.
- Na Tchéquia, parlamentares chegaram a preparar uma ampla legislação para o registro de “influência estrangeira”, posteriormente arquivada.
O governo também aprovou planos para substituir as taxas que financiam a radiodifusão pública por repasses diretos e menores do orçamento estatal, gerando preocupação com sustentabilidade financeira e independência política.
Em países tradicionalmente vistos como democracias consolidadas também foram detectados sinais de deterioração.
- Na Itália, uma missão do MFRR identificou interferência política persistente na emissora pública Rai e concluiu que seu modelo de governança e financiamento ainda não atende às exigências da Lei Europeia da Liberdade dos Meios de Comunicação.
- Na França, uma missão realizada em junho apontou concentração crescente da propriedade de mídia, ações judiciais abusivas, riscos à segurança de jornalistas em protestos e fragilidade na proteção legal das fontes.
Guerra na Ucrânia atinge também a infraestrutura jornalística
Na Ucrânia, o MFRR registrou nove casos de bombardeios, ataques de artilharia ou incêndios criminosos contra profissionais e infraestrutura de mídia no primeiro semestre — praticamente a totalidade das ocorrências desse tipo registradas no conjunto dos países analisados.
Pequenas redações locais no leste do país foram especialmente atingidas, mas ataques russos também danificaram redações em capitais regionais e em Kiev.
Em maio, uma ofensiva da Rússia contra a capital atingiu escritórios de vários veículos ucranianos e internacionais.
Segundo o relatório, a destruição repetida da infraestrutura de mídia mostra o impacto mais amplo da invasão russa sobre a capacidade de jornalistas continuarem trabalhando, especialmente nas regiões próximas à linha de frente e em áreas atingidas com frequência.
O relatório completo pode ser visto aqui
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