Uma pesquisa coordenada pela ADL (Anti-Defamation League), instituição americana dedicada principalmente ao combate ao antissemitismo, mostra o quanto as barreiras impostas pelo Twitter à desinformação e ao discurso de ódio podem não passar de portas semiabertas, permitindo a entrada de conteúdos como os da rede social Gab. 

Como revela o COE (Center on Extremism), braço da ADL dedicado especificamente ao tema do extremismo, o Twitter modera o conteúdo postado na rede social, mas quando se trata dos links oferecidos pelos usuários em seus posts, o controle diminui.

Um exemplo apresentado pelo COE são os links em posts do Twitter que direcionam a conteúdo postado na rede social Gab, fundada em 2016.

Ela virou uma arena aberta ao discurso antivacina, e contra medidas de combate à Covid-19, bem como palco para o acirramento na extrema direita americana que levou à invasão do Capitólio, em janeiro, quando cinco pessoas morreram. 

Muitos dos banidos no Twitter e no Facebook naquele período correram para a Gab e ali continuaram a disseminar discurso de ódio e fake news. 

Durante pouco mais de dois meses, entre 7 de junho e 22 de agosto, o COE encontrou 112 mil links da Gab postados no Twitter. Os tweets foram compartilhados por mais de 32 mil usuários com um alcance potencial de cerca de 254 milhões de visualizações.

Em resposta ao estudo, Gab afirma que ADL é uma organização “anti-Cristo”

Os 50 links mais compartilhados “estavam repletos de conteúdo conspiratório e desinformação”, afirma o COE, alguns promovidos pelo próprio Gab no Twitter.

A rede social inclusive usou essa conta no Twitter para atacar a ADL após a publicação do estudo, acusando a instituição de ser “uma organização de ódio anti-Cristo, antiamericana e antibranca”.

O comunicado emitido pela Gab ainda pede o rótulo de “agente estrangeiro” para a ADL, prática usada por governos como os de China e Rússia, que boicota publicações críticas ao governo de Vladimir Putin.

“Eles devem ser registrados sob a Lei de Registro de Agentes Estrangeiros para suas operações nos Estados Unidos em nome de interesses estrangeiros em Israel”, argumenta o post, mantido no ar pelo Twitter, e com um link que leva para o pronunciamento completo no Gab.com.

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Pico de links do Gab no Twitter está ligado a bloqueio de fake news sobre eleições

A pesquisa da ADL mostra que o compartilhamento de links da Gab no Twitter atingiu um pico em 27 de julho, o que coincide com a proibição do Twitter a numerosas contas de “auditoria eleitoral”, que contestam a vitória de Joe Biden seguindo a narrativa disseminada pelo ex-presidente Donald Trump de que as eleições de 2020 foram roubadas.

A campanha “Stop the Steal” foi tema de comícios antes da invasão ao Congresso americano, no dia em que seria reconhecido o resultado oficial das eleições nos Estados Unidos (EUA).

O conteúdo mais popular da Gab no Twitter no período da pesquisa do COE foi um post da senadora estadual republicana do Arizona, Wendy Rogers. 

Neste tweet, Rogers encorajou os usuários a segui-la na Gab e no Telegram, avisando que ela “seria a próxima” [a ter o perfil bloqueado] depois que o Twitter suspendeu várias contas que divulgavam fake news sobre as eleições.

Neste gráfico é possível observar o pico de links para a Gab no Twitter. 

A segunda imagem mostra o alcance potencial de tweets com links do Gab por dia durante o período de estudo:

Houve cinco dias em que os “gab-tweets” ultrapassaram 7 milhões de visualizações em potencial no Twitter, atingindo o pico em 10 de agosto com um alcance potencial de 8,69 milhões de visualizações, mostra o estudo. 

Além disso, afirma o COE, os links da Gab no Twitter alcançaram potencialmente pelo menos 1,71 milhão de visualizações no Twitter por dia durante o período de estudo.

Combinados, esses números sugerem que o conteúdo da Gab pode estar influenciando milhões de usuários do Twitter e seu comportamento.

Termos ligados à política e mídia também aparecem nos links do Gab no Twitter

O levantamento da ADL elaborou uma “nuvem” com as 200 palavras mais frequentes (excluindo nomes de usuário do Twitter) que foram incluídas no texto de tweets contendo links do Gab, dimensionadas e coloridas por frequência relativa de palavras. 

Os termos relacionados à Covid-19 (como Covid, vacina, vacinado, isenção, etc.) ficaram entre os mais mencionados nos gab-tweets pesquisados. 

Além de termos relacionados à pandemia, a pesquisa detectou as referências políticas de alta frequência, com citações referentes ao presidente Joe Biden, Trump, America (como sinônimo para os EUA), entre outros.

“Um subconjunto proeminente inclui referências a redes sociais, meios de comunicação tradicionais e tópicos de notícias, como Twitter, Gettr (rede de forte apelo trumpista e também foco difusor de teorias da conspiração), YouTube, Telegram, news e Tucker Carlson”, aponta o estudo.

Carlson é um dos principais nomes do jornalismo da Fox News, apontada recentemente como parceira do governo Trump que funcionava como “TV estatal”, nas palavras da ex-chefe de comunicação da Casa Branca, que revelou bastidores do último governo em livro.

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Fake news sobre Covid-19 estão entre conteúdos do Gab mais populares no Twitter

Segundo a pesquisa, 16 dos 50 principais links da Gab no Twitter durante o período analisado promoviam desinformação e teorias de conspiração sobre a Covid-19. 

Um artigo escrito pelo CEO da Gab, Andrew Torba, foi o segundo link mais compartilhado nesse período, e compartilhado quase 1.900 vezes, alcançando quase sete milhões de visualizações em potencial no Twitter. 

O texto de Torba, publicado no final de julho, compartilha documentos que podem ser usados ​​para registrar um “pedido de isenção religiosa hermética” à vacina Covid-19 caso ela se tornasse obrigatória nos EUA.

O terceiro link do Gab mais compartilhado durante esse período foi um vídeo com o médico Dan Stock discursando para o conselho da escola Mt. Vernon, no estado de Indiana em agosto, fazendo afirmações falsas para se opor à obrigatoriedade do uso de máscaras e vacinação na volta às aulas.

A disseminação deste vídeo foi tema de alerta da organização First Draft, que monitora desinformação e fake news na internet. Segundo o COE, o conteúdo foi visto mais de 710 mil vezes apenas no Gab, e estima-se que do vídeo no Gab tenha ultrapassado 3,4 milhões de visualizações em posts no Twitter.

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Pesquisa aponta contas em língua japonesa com conteúdo no modelo QAnon

Ainda examinando o top 50 dos links da Gab no Twitter de maior repercussão, a pesquisa do COE destaca uma parcela de conteúdo conspiratório postado por contas em língua japonesa, presente em 21 posts, com traços comuns ao movimento QAnon, popular na extrema direita.

Algumas das conspirações citam teorias de que Bill Gates (fundador da Microsoft) foi preso por tráfico de crianças, e que a CIA (serviço secreto dos EUA) trabalha para a Nova Ordem Mundial –um “clássico” das teorias conspiracionistas.

A teoria da Nova Ordem Mundial defende que uma conspiração tirânica e socialista já tomou conta da maior parte do planeta e planeja eliminar o “último bastião da liberdade”, os Estados Unidos, com a ajuda de colaboradores dentro do governo.

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Esses links foram postados e compartilhados exclusivamente por contas do Twitter em língua japonesa, com algumas sendo mais explícitas sobre seu suporte ao grupo conspiracionista QAnon.

Outras contas publicam conteúdo conspiratório mais geral que sugere suporte de QAnon. Coletivamente, os links foram compartilhados mais de 5.700 vezes no Twitter, atingindo potencialmente mais de 3,9 milhões de visualizações no Twitter.

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