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Liberdade de expressão

Estudo da Unesco expõe colapso da liberdade de expressão e avanço da autocensura entre jornalistas

Relatório “Jornalismo: Moldando um Mundo em Paz” revela que a autocensura aumentou 63%, com base em relatos de profissionais de todo o mundo

Manifestação por liberdade de imprensa na Argentina

Manifestação por liberdade de imprensa na Argentina (foto: divulgação Sindicato de Jornalistas)



Desde 2012 o mundo vive uma queda progressiva na liberdade de expressão, resultado de pressões e perseguições a jornalistas que os levam a emigrar ou silenciar diante do medo.


A nova edição do relatório da Unesco sobre tendências em liberdade de expressão e desenvolvimento da mídia, divulgado nesta semana, constata um declínio histórico de 10% na liberdade de expressão em todo o mundo desde 2012 — um nível não visto em décadas.

 A edição 2022-2025, intitulada “Jornalismo: Moldando um Mundo em Paz”, baseia-se nas contribuições, percepções e dados fornecidos por mais de 100 especialistas em liberdade de expressão e desenvolvimento da mídia, e derivados de centenas de fontes acadêmicas e institucionais.

Segundo a Unesco, a tendência de queda na liberdade de expressão é consequência do alarmante aumento da autocensura por parte dos jornalistas e dos ataques que enfrentam — tanto na vida real quanto online. No período analisado, a autocensura aumentou 63%, a uma taxa de cerca de 5% ao ano. 

O comportamento defensivo, que priva a sociedade de informações confiáveis, tem múltiplos fatores: governos repressores que condenam profissionais de imprensa se importando cada vez menos com pressões internacionais, assédio digital que atinge até famílias dos que expõem poderosos, e grupos criminosos que ameaçam ou matam jornalistas cidadãos em pequenas localidades, silenciando denúncias de seus atos. 

O caso mais recente mostrando a indiferença de nações repressoras da liberdade de imprensa sobre o que o mundo pensa sobre elas, é o do magnata da mídia Jimmy Lai, de 78 anos.

Ele foi condenado à prisão perpétua em Hong Kong no início da semana, depois de ver seu conglomerado de jornalismo extinto por ter defendido o movimento pró-democracia no território controlado pela China. 

As formas de autoproteção variam, todas dolorosas e de alto custo pessoal e profissional.  Para fugir de ameaças digitais, físicas ou legais, muitos jornalistas são empurrados para o exílio com suas famílias, sobretudo na América Latina.

Segundo a Unesco, 913 profissionais da região tiveram que emigrar entre 2028 e 2024, de países como Venezuela e Guatemala. 

O preço alto das guerras para a liberdade de imprensa

As guerras também estão cobrando seu preço. Entre 2022 (quando a Rússia invadiu a Ucrânia) e 2025, 186 jornalistas perderam a vida em zonas de conflito — um aumento de 67% em comparação com o período anterior coberto pelo relatório. 

Ao todo, 310 profissionais de imprensa morreram nos últimos três anos e meio. E em 85% dos casos, os crimes ficaram impunes.  

Repórteres ambientais agora enfrentam risco elevado: a UNESCO registrou 749 ataques a jornalistas que cobrem questões ambientais entre 2009 e 2023, com aumento acentuado nos últimos anos.

O assédio online contra jornalistas — particularmente contra mulheres — aumentou em todo o mundo.

Uma nova pesquisa realizada pelo Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ) para a ONU Mulheres, em parceria com a UNESCO, revelou que 75% das mulheres jornalistas e profissionais da mídia sofreram violência online enquanto exerciam suas funções em 2025, acima dos 73% em 2020.

 Apesar dos compromissos internacionais para acabar com a impunidade por assassinatos de jornalistas, a responsabilização é rara. Embora tenha havido um progresso modesto — com as taxas de impunidade caindo de 95% em 2012 para 85% em 2024 — a maioria dos autores ainda não é punida, diz a Unesco.

Digitalização impulsiona liberdade de expressão e participação cívica

Apesar da gravidade do declínio global da liberdade de expressão, avanços significativos estão sendo feitos. Entre 2020 e 2025, 1,5 bilhão de pessoas passaram a ter acesso a redes sociais e plataformas de mensagens, ampliando as oportunidades de participação cívica em todo o mundo.

O jornalismo investigativo colaborativo ganhou força nesse período — levando ao aumento de investigações transfronteiriças importantes. Unidades de checagem de fatos estão crescendo em muitas organizações de mídia.

E leis que reconhecem a mídia comunitária estão se expandindo globalmente, ajudando a proteger uma fonte vital de informação confiável e local, aponta a organização.

As soluções apontadas pela Unesco no relatório 2025

O relatório apresenta um quadro alarmante, mas também propõe soluções práticas que podem ajudar a reverter essa maré.

  • Os Estados-membros da ONU estão sendo  instados a proteger e investir no jornalismo a fim de promover sociedades pacíficas. Defender o jornalismo livre e independente deve ser reconhecido como prioridade.
  • Transparência na esfera digital: em um ambiente de informação globalizado e online, a UNESCO defende a cooperação entre todos os atores para garantir acesso transparente à informação, promover a responsabilização e capacitar os usuários a fazer escolhas informadas. Em 2023, a UNESCO lançou suas Diretrizes Globais para a Governança de Plataformas Digitais, elaboradas com a participação de colaboradores em mais de 130 países. Desde então, elas têm ajudado os Estados-membros a fortalecer seus órgãos reguladores independentes para colocá-las em prática em todas as regiões do mundo.
  • Alfabetização midiática e informacional: ensinar os cidadãos a se engajarem criticamente com a informação e a navegar com segurança nas redes sociais é essencial para construir maior confiança no ecossistema informacional atual. A UNESCO treinou mais de 10.500 criadores de conteúdo de mais de 150 países para construir a confiança do público e moldar a opinião pública de maneira ética, criando conteúdo envolvente para promover a alfabetização midiática e informacional.

O documento completo pode ser visto aqui.

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