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Guerra em Gaza

Como é ser um jornalista em Gaza? Profissionais contam como continuam se arriscando para cobrir a guerra

Repórteres Sem Fronteiras cobra fim do bloqueio israelense, demanda antiga das associações de imprensa internacional

Funeral de um dos jornalistas que morreram em Gaza vítimas de bombardeios

Funeral de jornalista em Gaza (Foto: divulgação / Sindicato de Jornalistas Palestinos)



Jornalistas que continuam reportando da Faixa de Gaza relataram à Repórteres Sem Fronteiras que o interesse internacional sobre a região diminuiu e agora eles se sentem esquecidos, enquanto ainda enfrentam um série de dificuldades e correm risco de vida.


Como é a vida de um jornalista em Gaza? Como os outros cidadãos, os jornalistas vivem em constante perigo e sofrem as consequências do bloqueio israelense na região, conforme relatos de vários deles à organização de liberdade de imprensa Repórteres Sem Fronteiras.

A guerra na Faixa de Gaza está oficialmente em uma fase de cessar-fogo desde outubro, ainda que Israel continue a atacar a região repetidamente.

Nos primeiros dias de fevereiro, Israel reabriu parcialmente a passagem de Rafah, fronteira entre Gaza e o Egito, e permitiu que algumas poucas pessoas passassem. A passagem estava fechada desde o início do conflito, em 2023.

Mesmo neste processo lento e gradual de arrefecimento da guerra, os jornalistas que atuam na Palestina seguem em risco, sem acesso a recursos e infraestrutura adequada e sem liberdade de movimento.

RSF pede fim do bloqueio

Dado o cenário atual, a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) reforça o pedido que vem se repetindo há meses para que Israel encerre o bloqueio imediatamente.

O chefe do escritório do Oriente Médio da RSF, Jonathan Dagher, aponta o cenário crítico e ressalta que os profissionais não deixaram de noticiar os fatos.

“Quase quatro meses após o cessar-fogo, os jornalistas de Gaza estão à beira de um colapso. Embora tenha sido anunciada uma abertura limitada, eles continuam isolados do mundo, ameaçados, exaustos e esquecidos. Mesmo assim, apesar dos recursos limitados, da infraestrutura destruída e de tudo, continuam a noticiar os fatos.”

Dagher explicou que o bloqueio impedes os jornalistas de saírem do território, mas também impossibilita o acesso a recursos essenciais e barra o acesso da imprensa internacional à região.

Nour Swirki, uma jornalista em Gaza, falou à RSF sobre a importância da entrada de profissionais vindos de outros países no território:

“Precisamos do apoio dos nossos colegas. Não porque sejamos incapazes, mas porque estamos exaustos e nos faltam certas habilidades investigativas, ferramentas e conhecimentos especializados que eles podem nos fornecer.”

Recursos indisponíveis

Entre os recursos indisponíveis para quem é jornalista em Gaza estão equipamentos funcionais, equipamentos de proteção individual e acesso a eletricidade, combustível e internet.

Nour Swirki explicou para a RSF algumas das dificuldades que enfrentam:

“O acesso à internet não está disponível em todos os lugares e é muito caro – às vezes dez vezes o preço normal. O mesmo acontece para carregar o celular, encontrar um carro para chegar a um local e comprar combustível.”

Assim como todas as outras pessoas, os repórteres também perderam suas casas nos bombardeios e muitas vezes precisam trabalhar de tendas ou perto de hospitais.

“Reportar tornou-se uma luta pela sobrevivência, em vez de apenas um trabalho jornalístico”, resume Anas Baba, outra jornalista em Gaza.

Interesse internacional diminuiu

Ainda que a situação no território palestino esteja longe de se estabilizar, jornalistas que continuam trabalhando na região relatam que desde o início do cessar-fogo o interesse internacional no que acontece ali diminuiu.

Nour Swirki, que trabalha para o canal egípcio Al Sharq TV relata que constumava fazer cerca de seis ou sete entradas ao vivo por dia. Agora, ela só é requisitada uma ou duas vezes por dia.

“Em 2026, não somos mais a notícia principal. Finalmente temos tempo para o luto. Percebemos o que perdemos. Todos os nossos colegas que foram assassinados e, ao mesmo tempo, sentimos que o mundo se esqueceu de nós.”

Riscos continuam

Mesmo com o cessar-fogo e o interesse reduzido, os jornalistas que seguem em Gaza afirmam que os riscos continuam.

Em 21 de janeiro de 2026, três jornalistas foram mortos por um ataque de drone israelense. Mohammad Salah Qashta, Anas Ghneim e Abdul Raouf Shaath eram freelancers.

Até o momento, mais de 220 jornalistas morreram em Gaza, sendo que ao menos 68 deles foram alvos de ataques direcionados ou morrerama enquanto trabalhavam.

A Faixa de Gaza é a região mais mortal para jornalistas no mundo. Em 2025, 46% dos profissionais de imprensa que morreram como consequência do exercício da profissão estavam em Gaza, segundo dados da Federação Internacional de Jornalistas (IFJ).

“Todos somos alvos, vulneráveis ​​a qualquer momento, e nenhum lugar é seguro”, diz Swirki. “O exército continua a caçar e matar jornalistas em Gaza”, afirma Thaer al-Moustafa, jornalista independente que trabalha para o jornal britânico The Guardian. “Precisamos de proteção”, completa.

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