A Federação Internacional de Jornalistas (IFJ) publicou nesta quarta-feira (25) seu relatório anual contabilizando mortes de jornalistas e profissionais de imprensa associadas ao trabalho ocorridas em 2025.
O relatório documenta a morte de 128 profissionais, incluindo 11 mulheres. Apenas nove das fatalidades foram acidentais.
“Estes números confirmam uma verdade global preocupante: o assassinato de jornalistas tornou-se uma ferramenta de guerra, repressão e controle de informação”, diz o documento.
A IFJ apela aos Estados-membros das Nações Unidas para que adotem urgentemente a Convenção Internacional sobre a Segurança e Independência dos Jornalistas, para acabar com o ciclo de violência e impunidade.
Guerra em Gaza lidera mortes de jornalistas em 2025
Pelo terceiro ano consecutivo, o Oriente Médio e o Mundo Árabe foram a região mais mortal para jornalistas em 2025, de acordo com a Federação, em linha com levantamentos de outras organizações de monitoramento da liberdade de imprensa.

Isso se deveu principalmente à guerra em Gaza. Com 74 jornalistas mortos –, incluindo 56 na Palestina, e uma morte acidental no Irã, a região foi responsável por 58% de todos os profissionais da imprensa mortos em todo o mundo.
As demais mortes aconteceram na África (18, incluindo sete mortes acidentais na Nigéria e uma no Burundi), na região Ásia-Pacífico (15), nas Américas (11) e na Europa (10).
Transformando números em casos reais, a IFJ selecionou cinco histórias sobre os 128 profissionais da mídia mortos em 2025, destacando os seres humanos por trás das estatísticas.
África, Sudão: Farouk Ahmed Mohamed Al-Zaher, Ibrahim Mohamed Mudawi, Magdy Abdel Rahman Fakhr El-Din e Waji Jaafar Mohammed Onwar
Uma equipe da Televisão Nacional Sudanesa –, três profissionais de imprensa e um motorista – foi morta num ataque de drone realizado pelas Forças de Apoio Rápido (RSF) em março, enquanto informavam sobre a tomada do Palácio Republicano em Cartum pelas Forças Armadas Sudanesas (SAF).
As vítimas foram o produtor Farouk Ahmed Mohamed Al-Zaher; o diretor de programas Ibrahim Mohamed Mudawi; o cinegrafista Magdy Abdel Rahman Fakhr El-Din; e o motorista Waji Jaafar Mohammed Onwar. A equipe estava cobrindo os últimos acontecimentos na capital quando sofreu o ataque.
Pelo segundo ano consecutivo, o Sudão foi o país mais mortal para jornalistas na África, com pelo menos seis jornalistas mortos em casos associados ao trabalho em 2025. Desde que a guerra civil eclodiu em abril de 2023 entre as Forças Armadas Sudanesas e o grupo paramilitar RSF, o país tornou-se um dos locais mais perigosos do mundo para a imprensa.
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Américas, Peru: Mitzar Castillejos
Mitzar Castillejos, conhecido por denunciar suposta corrupção por parte das autoridades locais, nunca chegou à Radio Latín Plus 107.7 FM para ler as notícias do dia em 12 de dezembro. Ao sair de sua casa na localidade de Aguaytía, na região de Ucayali, foi baleado e levado para um hospital em Lima, onde morreu no dia 26 de dezembro.
Ele foi um dos quatro jornalistas mortos no Peru em 2025. Segundo a Asociación Nacional de Periodistas (ANP), 2025 foi o ano mais mortal para jornalistas no país até agora neste século.
Não havia assassinatos de profissionais de imprensa no Peru há quase uma década.
“Esses assassinatos podem ter um efeito amordaçador porque criam entre os jornalistas a sensação de que ninguém em nossa profissão está seguro”, lamentou a presidente da ANP, Zuliana Lainez.
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Ásia-Pacífico, Índia: Mukesh Chandrakar
O corpo do jornalista freelancer Mukesh Chandrakar foi encontrado em uma fossa séptica na casa de um empreiteiro privado no estado central de Chhattisgarh em 3 de janeiro. Chandrakar foi visto pela última vez na noite de 1º de janeiro.
Poucos dias antes, em 25 de dezembro de 2024, ele havia feito uma reportagem para a New Delhi Television Ltd (NDTV) sobre supostas irregularidades em um projeto de construção de estradas entre Gangaloor e a aldeia de Nelasana. A denúncia levou o governo a abrir um inquérito. O empreiteiro responsável pelo projeto, Suresh Chandrakar, era parente do jornalista.
Três parentes e o empregador do jornalista foram indiciados por assassinato e tentativa de esconder o corpo. O jornalista foi brutalmente espancado até a morte após uma discussão com um de seus parentes e seu empregador e morreu de seus ferimentos.
Mukesh Chandrakar, um dos quatro jornalistas mortos na Índia em 2025, foi assassinado por suas tentativas de expor irregularidades, como é o caso de muitos profissionais da comunicação social em todo o mundo.
Dos 15 casos de mortes de jornalistas documentados na Ásia-Pacífico em 2025, foram feitas detenções relacionadas com apenas cinco dos assassinatos –, sendo a maioria delas na Índia.
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Europa, Ucrânia: Olena Gramova e Yevgen Karmazin
A correspondente de guerra ucraniana Olena Gramova e o cinegrafista Yevgen Karmazin foram a um posto de gasolina na cidade de Kramatorsk, no leste da Ucrânia, em 23 de outubro, para uma reportagem sobre um bombardeio russo que havia atingido a cidade no dia anterior.
Ambos trabalhavam para a organização de notícias Freedom Media, financiada pelo governo ucraniano. Um drone russo Lancet deliberadamente atingiu o veículo, matando Gramova e Karmazin instantaneamente e ferindo gravemente um terceiro repórter, Alexander Kolychev.
Este ataque ocorreu uma semana depois de Ivan Zuev, correspondente de guerra russo da agência de notícias estatal RIA Novosti, ter sido morto por um ataque de drone na região de Zaporizhzhia, na Ucrânia; e 20 dias depois de o fotojornalista francês Antoni Lallican morrer vítima de drone russo na região de Donbass.
“Hoje, na Ucrânia, a principal ameaça aos jornalistas, como a todos os civis, são os drones russos que caçam pessoas”, disse Sergiy Tomilenko, presidente do Sindicato Nacional dos Jornalistas da Ucrânia (NUJU).
Nove dos dez assassinatos registrados de jornalistas na Europa em 2025 estão relacionados à guerra entre a Rússia e a Ucrânia, que agora está entrando em seu quinto ano.
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Oriente Médio e o Mundo Árabe, Palestina: Walaa Al Jabari
A jornalista Walaa Al Jabari, seu marido e seus quatro filhos foram mortos quando sua casa no bairro de Tal Al-Hawa, no sudoeste da Cidade de Gaza, foi atingida por um ataque aéreo israelense em 23 de julho. Al Jabari, que trabalhava como editora de jornal para vários meios de comunicação locais, estava grávida.
Ela é uma das 56 jornalistas palestinas mortas por Israel em Gaza em 2025, e uma das pelo menos 234 que foram mortos desde o início da guerra, em 7 de outubro de 2023.
Apesar do frágil cessar-fogo acordado em outubro de 2025, a FIJ continuou a registar o assassinato de jornalistas no meio da destruição contínua e da violência indiscriminada em Gaza.
No rescaldo da guerra, a IFJ apresentou demandas urgentes para apoiar a comunidade jornalística de Gaza e o setor de mídia. As exigências incluem responsabilizar os responsáveis pelo assassinato de jornalistas; fornecer apoio emergencial a jornalistas e à mídia; e conceder a jornalistas estrangeiros acesso irrestrito a Gaza.
O relatório completo (em inglês) pode ser visto aqui.
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