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Aos 4 anos da guerra na Ucrânia, rede de desinformação russa passa a mirar França e Alemanha

Com redução do apoio financeiro dos EUA à Ucrânia, países aliados de Zelensky se tornaram alvo de campanhas de desinformação

Tanque na guerra da Ucrânia


A desinformação russa na Europa ganhou um novo foco ao longo de 2025: além de atacar a Ucrânia, a operação Storm-1516 ampliou narrativas depreciativas contra França e Alemanha, mirando os líderes políticos Macron e Merz, de acordo com uma análise do NewsGuard.


No quarto aniversário da invasão da Ucrânia pela Rússia (em 24 de fevereiro de 2022), uma análise da plataforma de monitoramento NewsGuard concluiu que a Storm-1516, uma operação de desinformação russa descrita como ramificação da “fazenda de trolls” da Agência de Pesquisa da Internet,  publicou 34 alegações falsas mirando a França e a Alemanha desde janeiro de 2025.

Segundo o levantamento, essas narrativas foram impulsionadas em 175.000 posts e artigos, somando 274 milhões de visualizações apenas no X (antigo Twitter)..

Nos primeiros dois meses de 2026, a campanha já havia impulsionado três novas alegações falsas contra a França e uma contra a Alemanha.

Entre as 30 alegações falsas identificadas pelo NewsGuard como impulsionadas pela Storm-1516 em 2025, 17 miraram a França, 12 miraram a Alemanha e uma mirou os dois países. Outras 25 tiveram como alvo apenas a Ucrânia.

Desinformação russa concentrada em parceiros da Ucrânia na Europa

O relatório também aponta uma mudança na mira em relação aos EUA: houve apenas uma alegação falsa em 2025 mirando os Estados Unidos, contra 11 em 2024, quando o país era o maior apoiador financeiro da Ucrânia.

Além disso, a campanha contra França e Alemanha se intensificou no segundo semestre de 2025. A contagem de narrativas falsas e de visualizações aumentou 50% em comparação com o primeiro semestre.

No segundo semestre de 2025, a Storm-1516 impulsionou 18 alegações falsas contra França e Alemanha, somando 147 milhões de visualizações, ante 12 alegações e 97 milhões de visualizações no primeiro semestre.

A revisão do NewsGuard também cita John Mark Dougan, ex-vice-xerife da Flórida e fugitivo dos EUA que se mudou para a Rússia em 2016 e segundo a organização se envolveu na máquina de propaganda do Kremlin.

A União Europeia (UE) sancionou Dougan em dezembro de 2025, acusando-o de participar de operações de influência pró-Kremlin com objetivo de influenciar eleições, desacreditar figuras políticas e manipular o discurso público em países ocidentais.

Questionado sobre a campanha contra França e Alemanha, ele respondeu ao NewsGuard em 26 de fevereiro de 2026, via Signal: “Storm? Nunca ouvi falar disso.” Dougan nega qualquer ligação com o governo russo.

Desinformação russa na Europa: o modus operandi  da Storm-1516

Os métodos da Storm-1516 já foram descritos pelo NewsGuard e por outros pesquisadores. Em linhas gerais, a rede planta alegações inventadas em sites falsos disfarçados de meios de comunicação legítimos e amplifica as narrativas por meio de contas anônimas no X.

O método inclui escolher um tema controverso, fabricar uma afirmação falsa com o apoio de personas geradas por IA, documentos forjados e outros artifícios, e então amplificar o conteúdo com contas automatizadas, influenciadores pró-Kremlin e sites fabricados.

Em dezembro de 2025, o NewsGuard relatou que a Storm-1516 se tornou uma das operações russas mais prolíficas e em rápida expansão, superando inclusive RT e Sputnik como grandes disseminadores de falsas alegações sobre a guerra Rússia-Ucrânia.

As alegações falsas contra a França acompanharam expressões de apoio francês à Ucrânia, incluindo visitas diplomáticas, declarações de Macron e encontros de alto nível com Zelensky, segundo relato anterior do NewsGuard.

Nos últimos meses, porém, a operação teria refinado suas táticas para ganhar visibilidade.

Até meados de 2025, as alegações eram publicadas em uma ampla rede de sites “alimentados” por IA que simulavam imprensa local.

Desde julho de 2025, a campanha teria passado a usar repetidamente sites que se disfarçam de meios autênticos, apropriando-se de marca e logotipo e registrando domínios semelhantes aos verdadeiros.

Macron vira alvo central da desinformação russa na Europa

Segundo o NewsGuard, das 21 narrativas falsas direcionadas à França desde janeiro de 2025, 10 atacaram Macron ou sua esposa, Brigitte. Entre as alegações citadas estão histórias de teor sexual, escandaloso ou humilhante — um padrão descrito como eficiente para ganhar alcance.

Um caso citado no relatório envolveu um site falso que alegou, em 4 de fevereiro de 2026, que e-mails divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA (DOJ) ligariam Macron a Jeffrey Epstein.

O NewsGuard descreve o material como fabricado e diz não ter encontrado menção a Macron nos e-mails divulgados pelo DOJ.

A narrativa se espalhou em 38.000 posts no X, somando 20,4 milhões de visualizações, e motivou refutação pela conta @FrenchResponse, associada ao Ministério das Relações Exteriores francês.

O relatório também afirma que a operação tem usado personificação: domínios recém-registrados e páginas que imitam marcas, logotipos e a aparência de veículos reais, além de assinaturas falsamente atribuídas a jornalistas.

Merz e a Alemanha na mira

Na Alemanha, o NewsGuard afirma que a Storm-1516 impulsionou 13 alegações falsas desde janeiro de 2025, contra três em 2024. Oito teriam mirado Merz diretamente; outras buscaram minar confiança em eleições e instituições com alegações de irregularidades.

Uma das histórias mais virais citadas pelo relatório apareceu em 26 de novembro de 2025 em um site que se passava pelo tabloide britânico Daily Express, alegando que Merz teria ferido um funcionário em um aeroporto no Reino Unido em 2024.

O NewsGuard relata que um gerente do aeroporto negou o incidente e que a assessoria de Merz classificou a história como fictícia. A peça teria gerado 7,8 milhões de visualizações em quatro dias, e o relatório destaca que a publicação ocorreu pouco antes de votação orçamentária na Alemanha que ampliou recursos para a Ucrânia em 2026.

Outras redes e a lógica do ataque

O NewsGuard também cita a operação Matryoshka, que imita veículos como BBC e CNN em vídeos de desinformação, com 57 vídeos voltados para França e para a Alemanha em 2026, contra 45 em 2025, embora com alcance menor do que o da Storm-1516.

Um funcionário do governo francês ouvido pelo NewsGuard em fevereiro de 2026 afirmou que a estratégia busca não apenas atacar a Ucrânia, mas enfraquecer o moral e explorar temas polêmicos com apelo de audiência — como sexo, crime e disputas internas.


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