O Irã vive desde sábado (28) um novo apagão de internet, segundo a plataforma de monitoramento de conectividade NetBlocks, deixando a população estimada em 90 milhões de pessoas com dificuldade para se comunicar dentro e fora do país.
Monitoramentos independentes indicam que, mesmo quando há sinais de recuperação parcial, o tráfego permanece severamente degradado, sem evidência de restauração ampla, “mascarando violações de direitos humanos”, aponta a ONG.
A NetBlocks confirmou que a interrupção começou imediatamente apósos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao território iraniano, que culminaram na morte do aiatolá Ali Khamenei.
A interrupção não é um evento isolado: desligamentos e restrições de conectividade têm sido usados pelo regime como instrumento de controle em períodos de instabilidade. O mais recente havia sido em janeiro e durou vários dias, impondo um silêncio forçado a jornalistas, como apontou a organização Repórteres Sem Fronteiras.
Desta vez, o corte se soma a relatos de ciberataques contra sites de notícias iranianos e ocorre no momento em que a escalada militar amplia a pressão sobre o fluxo de informações.
Apagão de internet no Irã e a disputa pelo controle da narrativa
No plano pessoal, o blackout da internet no Irã rompe canais básicos de contato, dificultando a confirmação de segurança de familiares e a comunicação com a diáspora. No plano econômico e administrativo, compromete comércio, logística e o funcionamento de serviços essenciais que dependem de redes e plataformas.
Para o jornalismo, o efeito é direto: sem acesso estável a aplicativos, redes sociais e serviços de hospedagem, fica mais difícil registrar, checar e distribuir informações em tempo real.
Redes internacionais como a CNN têm exibido vídeos curtos recebidos do Irã, sinalizando que não puderam ter acesso a confirmações sobre danos e números de vítimas.
Prisões desde dezembro e a repressão a jornalistas
A deterioração da liberdade de imprensa no Irã, porém, vinha sendo construída antes dos ataques do fim de semana e em particular desde a onda de protestos iniciada em dezembro de 2025.
Nesse período, a repressão à imprensa voltou a resultar em detenções e acusações vagas, como “propaganda contra o Estado” e disseminação de “desinformação”, além de interrogatórios, confisco de equipamentos e pressão sobre redações e profissionais autônomos — um padrão documentado por organizações como a RSF (Repórteres Sem Fronteiras), o CPJ (Committee to Protect Journalists) e o Center for Human Rights in Iran.
Um caso simbólico citado destacado pela RSF é o de Narges Mohammadi, jornalista e ativista feminista, laureada com o Nobel da Paz de 2025.
Segundo a ONG, ela teria sido violentamente agredida durante a prisão mais recente, em 12 de dezembro de 2025, e visto sua pena aumentar em 8 de fevereiro, com sentenças adicionais.
O Irã ocupa o 176º lugar no Global Press Freedom Index 2025 da Repórteres sem Fronteiras.
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