O Pentágono proibiu fotógrafos de grandes veículos dos Estados Unidos de participarem de coletivas de imprensa no local, supostamente porque o secretário, Pete Hegseth, não saiu bem em fotos feitas durante a primeira entrevista realizada após os ataques ao Irã. A informação foi revelada pelo Washignton Post.
A ação marca mais um passo nos embates entre a imprensa dos EUA e o órgão militar. Mudanças nas regras para jornalistas credenciados, vistas como violações da liberdade de imprensa, levaram a um boicote coletivo ao Pentágono em 2025.
Os crachás devolvidos por jornalistas que cobriam o órgão há décadas foram redistribuídos para blogueiros e veículos simpáticos ao presidente Trump, enquanto as fotos passaram a ser feitas por profissionais do próprio Pentágono e divulgadas para toda a mídia.
No entanto, devido à importância da primeira coletiva após o ataque ao Irã, agências de notícias como Associated Press, Getty Images e Reuters solicitaram acesso apenas para esse evento, tendo suas fotos distribuídas para todo o mundo.
E algumas foram consideradas “pouco lisonjeiras” para a imagem do secretário, que durante muitos anos foi apresentador da Fox News e tem experiência em mídia.
Fotos chatearam assessores
Segundo o Washington Post, que revelou a notícia, duas fontes diferentes confirmaram que a equipe de Hegseth não gostou das fotos de 2 de março.
Não há clareza sobre se apenas uma, ou se o conjunto de imagens do dia causaram a chateação na equipe, e o que exatamente desagradou.
O fato é que nas duas coletivas seguintes, em 4 e 10 de março, somente fotógrafos oficiais do governo receberam autorização para fazer as os registros e divulgar as imagens.
Em resposta ao Washington Post, o Pentágono negou que tenha barrado fotógrafos independentes pela aparência do secretário. Segundo eles, o intuito era “gerenciar o espaço na sala de briefing de forma eficaz”.
Associação de jornalistas protesta
O National Press Club dos EUA instou o Departamento de Defesa a restaurar imediatamente o acesso de fotojornalistas e a reafirmar seu compromisso com a abertura para a imprensa, afirmando que ‘um governo confiante nas suas ações acolhe favoravelmente o escrutínio, não o restringe”.
“Os fotojornalistas desempenham um papel vital na informação do público. Seu trabalho permite que os americanos não apenas leiam sobre as ações do governo, mas também as vejam com seus próprios olhos. Em momentos de consequências nacionais, especialmente quando os Estados Unidos estão envolvidos em operações militares, o público tem o profundo direito de testemunhar como o seu governo lida com ações críticas que têm implicações globais.”
Para a associação, “quando o governo decide quais imagens o público pode ver, a transparência é substituída pelo controle; a responsabilização não ocorre a portas fechadas”.
“Se o Pentágono acredita que o público merece ser informado, deve permitir que os jornalistas prestem testemunho, e não restringi-los quando as imagens são inconvenientes”, diz a nota.
A National Press Photographers Association (NPPA) também protestou, por meio de uma declaração condenando a medida e apelando ao Pentágono para restaurar o acesso aos fotógrafos proibidos. O presidente da NPPA, Alex Garcia, disse:
“Excluir fotógrafos dos briefings do Pentágono porque as autoridades não gostaram da forma como as imagens publicadas os retrataram mostra uma avaliação de prioridades surpreendentemente falha no meio de uma guerra – para funcionários públicos, isso não recomenda bem”.
Pete Hegseth é ex-comentarista de TV
Comandante do Pentágono, o secretário de Defesa dos Estados Unidos é ex-militar, mas ficou famoso como comentarista do canal conservador Fox News.
Ele nasceu em Minnesota, se formou em Princeton e foi editor de uma revista conservadora na universidade. Na sua carreira militar, ele serviu no Iraque, no Afeganistão e em Guantánamo.
Quando entrou para a reserva, ele liderou organizações de veteranos até entrar na Fox News, em 2014. Desde então, sempre apoiou Donald Trump publicamente, enquanto era crítico ferrenho do trabalho da Otan.
Apesar de ter assumido um alto posto no governo Trump, ele segue “amarrado” a jargões e colocações comuns à TV dos EUA. Em um dos seus discursos recentes sobre a guerra, por exemplo, ele usou palavras fortes, quase caricatas, para se referir à situação dos iranianos.
“Eles vão enfrentar morte e destruição caindo do céu o dia inteiro”, disse.
Pentágono tem histórico de ações contra imprensa
A notícia sobre a proibição a fotógrafos independentes chega menos de dois meses após o Pentágono anunciar uma “reforma” no jornal militar Star and Stripes.
A pasta de Hegseth disse que a publicação, considerada independente, vai eliminar “distrações woke”, uma forma pejorativa de se referir a assuntos ligados a políticas inclusivas.
Leia também | EUA sob Trump têm a maior queda em ranking de liberdade de imprensa nas Américas; Brasil ficou em 4º
Leia também | ONG processa governo Trump por uso de vistos como instrumento de censura a pesquisadores que criticam Big Techs
Leia também | Jornalista hispânica que cobre imigração em Nashville é presa pelo ICE nos EUA
Leia também | Trump e procuradora-geral viram alvo de processo alegando irregularidades na venda do TikTok nos EUA






