Desde o início da ofensiva EUA-Israel contra a República Islâmica do Irã e os ataques iranianos contra países da região, especialmente os estados do Golfo e a Jordânia, seus governos intensificaram sua repressão à mídia e apertaram ainda mais o cerco em torno dos jornalistas desses países, denuncia a Repórteres Sem Fronteiras (RSF).
Em um levantamento da situação na região duas semanas após o ataque a Teerã, a organização afirma que as autoridades em toda a região estão usando a escalada de conflito como “um pretexto perigoso” para apertar as restrições nos países já classificados entre os piores do mundo no Índice de Liberdade de Imprensa da RSF.
Nesta quinta-feira (12), o Grupo Detained in Dubai, sediado em Londres, informou que pelo menos 21 turistas e residentes de Dubai foram presos e enquadrados da Lei de Crimes Cibernéticos dos Emirados Árabes Unidos por terem registrado imagens, compartilhado-as ou comentado posts sobre os ataques de Israel à cidade.
Sem se referir ao caso, a embaixada britânica postou alertas em suas redes sociais sobre o risco de prisão para quem divulgar imagens ou notícias sobre a situação local.
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Campanha da Arábia Saudita compara câmeras a armas
Este é um dos exemplos do movimento de repressão apontado pela Repórteres Sem Fronteiras, que inclui jornalistas profissionais e também internautas que usam suas contas em redes sociais para transmitir informações sobre o que está acontecendo nesses países.
Na Arábia Saudita, segundo a RSF, o governo lançou uma campanha com a hashtag “A Fotografia Serve ao Inimigo”, ilustrada por imagens de câmeras como se fossem armas. O público é instado a não compartilhar rumores ou imagens de fontes desconhecidas, limitando-se a conteúdo divulgado pelo Estado.
No dia em que a campanha começou a circular, fotos e vídeos tirados por cidadãos e postados online pareciam contradizer as declarações do governo de que nenhum míssil havia penetrado nas defesas do país.
Diante de imagens de um incêndio na refinaria de petróleo Ras Tanura, no Golfo, o governo recuou, reconhecendo que um míssil havia atingido o local. No entanto, de acordo com a organização, as autoridades continuam a negar outros danos relacionados à guerra e não permitiu o acesso da imprensa a locais supostamente atingidos para verificar os fatos.
Dezenove jornalistas estão atualmente detidos na Arábia Saudita, que está em 166º lugar entre 180 países e territórios no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa da RSF.
Ataques do Irã em países do Golfo: Estados tentam evitar notícias e imagens
O mesmo padrão está sendo visto em todos os países do Golfo e na Jordânia, em um esforço para proibir reportagens e compartilhamento de qualquer informação sobre ataques iranianos de mísseis e drones visando esses países ou interceptados em seu território, diz a organização.
Nos Emirados Árabes Unidos (164º no Índice da RSF), o procurador-geral proibiu a publicação de imagens ou informações sobre os bombardeios. Em fevereiro, antes da guerra, os Emirados Árabes Unidos já haviam intensificado seu monitoramento de postagens de mídia social em resposta à tensão com a Arábia Saudita em torno da situação política no Iêmen.
Sob o mecanismo estabelecido naquela época – pedindo aos cidadãos que denunciem qualquer conteúdo online considerado suspeito – a denúncia de postagens relacionadas à guerra aumentou desde o início da guerra no Irã, como aponta a RSF.
Em 3 de março, diz a organização, vários usuários, incluindo jornalistas, relataram ter recebido e-mails da plataforma X informando que suas contas haviam sido bloqueadas nos Emirados Árabes Unidos. Capturas de tela amplamente compartilhadas mostram uma mensagem mencionando uma carta supostamente enviada pelo escritório do promotor público pedindo à plataforma para bloquear uma lista de contas.
Entre elas está a do canal de televisão saudita Al Arabiya, que tem quase 20 milhões de assinantes. A RSF disse ter sido informada de que o canal é acusado de incentivar os usuários da internet baseados nos Emirados Árabes Unidos a enviar imagens de ataques aéreos iranianos interceptados sobre Dubai.
O Al Arabiya, por sua vez, emitiu uma declaração rejeitando essas acusações e alegando que postagens falsificadas em seu nome tentaram espalhar esses rumores.
Acesso proibido a locais de ataques
No Bahrein (157º no Índice da RSF), o acesso dos jornalistas a áreas afetadas por ataques do Irã é estritamente restrito: eles só podem entrar depois que as forças de segurança concluírem suas investigações. A cobertura também é prejudicada por um clima de medo.
Após a prisão de mais de 11 pessoas – por “filmarem locais militares e postarem conteúdo simpático à agressão iraniana”, de acordo com o Ministério do Interior – muitas pessoas agora estão se recusando a falar com a mídia.
No Qatar (79º no Índice da RSF), o Ministério do Interior proibiu tirar fotos e compartilhar conteúdo relacionado aos ataques aéreos do Irã desde o início da guerra. “É impossível sair com uma câmera na rua”, disse um jornalista baseado na capital, Doha, à RSF, descrevendo a situação no Qatar como cada vez mais difícil para os repórteres.
No Kuwait (128º no Índice da RSF), o Ministério do Interior pediu ao público que não publique imagens ou informações relacionadas aos ataques aéreos, alegando que elas poderiam semear o caos e desestabilizar a opinião pública.
As restrições aos jornalistas foram ainda mais rígidas: qualquer foto ou comentário que se desvie da versão oficial do governo agora pode expor os jornalistas a processos, tornando ainda mais difícil para eles trabalharem fora da estrutura estabelecida pelas autoridades.
Na Jordânia (classificada em 147º lugar no Índice da RSF), a Comissão de Mídia anunciou que a publicação de qualquer vídeo ou informação relacionada às operações de defesa do reino poderia resultar em processo pelas autoridades.
Fora do Golfo, as pressões se agravam sobre jornalistas e cidadãos
O levantamento da RSF lembra que não são apenas os países do Golfo atingidos por ataques do Irã a tentarem controlar a narrativa e evitar notícias negativas.
No Irã, os jornalistas continuam a ser perseguidos pelas autoridades e estão submetidos a um apagão da Internet enquanto tentam fornecer cobertura independente da ofensiva EUA-Israel contra seu país.
O judiciário iraniano apertou ainda mais as restrições em 10 de março, disse a organização. A agência de notícias oficial da IRNA citou o porta-voz do judiciário Asghar Jahangir dizendo que vários meios de comunicação que publicaram fotos ou vídeos de certos sites “para fins informativos” receberam avisos por violação dos regulamentos de segurança.
Ele alertou que as infrações repetidas resultariam em ação legal. A RSF informou ter sabido que algumas horas depois, funcionários do governo anunciaram a prisão de 30 pessoas – nenhuma delas jornalistas – por compartilhar informações.
A agência de inteligência do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) também informou que dez pessoas que forneceram vídeos aos meios de comunicação foram presas. Enquanto isso, as leis de censura militar draconianas em Israel há anos restringem a reportagem da mídia israelense e estrangeira que opera no país, aponta a instituição.
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