O nível de democracia desfrutado pelo cidadão global médio recuou aos patamares de 1978, eliminando quase todos os avanços da chamada “terceira onda de democratização”, iniciada há 50 anos, segundo a edição 2026 do relatório do V-Dem Institute.
Atualmente, 6 bilhões de pessoas (74% da população mundial) vivem sob regimes autocráticos, enquanto apenas 7% residem em democracias liberais, de acordo com a organização sueca que anualmente monitora o estado da democracia no mundo.
Um dos motivos desse quadro é o declínio das liberdades de expressão e de imprensa, apontadas como as primeiras peças do dominó a cair nos processos de autocratização – e arrastando as demais.
Em 2025, a deterioração desses direitos foi registrada em 44 países. A censura governamental à mídia aparece como tática preferida de 73% dos regimes que estão abandonando a democracia.
Na contramão dessa tendência, a Hungria acaba de eleger Péter Magyar como primeiro-ministro. Opositor de Viktor Orbán, integrante da lista de predadores da liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras, o novo premiê prometeu restaurar a destruição causada por Orbán.
E o Brasil melhorou de posição e é destacado como nação em retomada democrática.
Como é feito o relatório
O Democracy Report é produzido pelo V-Dem Institute por meio de uma abordagem científica que resulta no maior conjunto de dados global sobre democracia, acumulando mais de 32 milhões de pontos de dados para 202 países e territórios.
O processo conta com a colaboração de mais de 4.200 acadêmicos e especialistas de 186 países, garantindo o uso de conhecimento local, já que 61% desses especialistas nasceram ou residem nas nações que avaliam.
O relatório mensura mais de 600 atributos diferentes e utiliza a metodologia ERT (Episódios de Transformação de Regime), um método rigoroso que identifica mudanças anuais nos níveis de democracia e leva em conta variações nas medições.
Brasil em retomada democrática
Em meio ao declínio global, o Brasil surge como um dos raros exemplos de sucesso na reversão do autoritarismo.
Classificado pelo V-Dem como uma nação em “U-Turn” (retomada democrática), o país ocupa agora a 28ª posição no Índice de Democracia Liberal, com pontuação de 0,70.
Ainda assim, está atrás de três nações da América Latina: Costa Rica (em 7º), Uruguai (em 13º) e Chile (em 16%).
O relatório lembra que a fase de autocratização do Brasil, que se intensificou após a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, foi marcada por ataques diretos à mídia.
O país é destacado por sua “resiliência contra o colapso”, tendo conseguido frear os ataques contra a mídia e as instituições antes que a democracia fosse desmantelada, embora o relatório alerte que a sociedade brasileira continua profundamente polarizada.
Mas, em vários outros países, não há sinal de mudança. O relatório afirma que, além da censura direta, a autocensura cresceu em 39 nações, com jornalistas e veículos evitando criticar o governo para escapar de retaliações financeiras ou perseguições judiciais.
A queda da democracia no país símbolo da democracia ocidental
Nos Estados Unidos, o cenário é descrito pelo V-Dem como crítico: a liberdade de expressão atingiu seu nível mais baixo desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Pela primeira vez em mais de 50 anos, o país perdeu o status de “democracia liberal” e foi rebaixado à categoria de “democracia eleitoral”.
Em apenas um ano, os EUA caíram da 20ª para a 51ª posição no ranking mundial de democracia.
Sob o segundo mandato de Donald Trump, o país vive o que os especialistas chamam de o mais rápido processo de “Executive Aggrandizement” da história moderna.
Ele consiste em uma combinação de quatro fatores: ataques internos e graduais às liberdades democráticas (e não um golpe); concentração de poder, desmantelamento de freios e contrapesos e perseguição à imprensa e vozes dissidentes.
O relatório credita o termo à cientista política Nancy Bermeo e aponta que esta tem sido a forma mais comum de retrocesso democrático nos últimos 25 anos.
Onde a liberdade de imprensa mais caiu
O V-Dem separou os países que lideram o retrocesso em grupos por indicadores específicos:
Líderes em Censura Governamental: Hong Kong, México, Mianmar, Eslovênia e Togo são citados como os maiores infratores da última década.
Destaque de Magnitude: A Nicarágua é apontada como o país com a escala mais drástica de deterioração em censura e outros indicadores de expressão.
Assédio a Jornalistas e Viés: Afeganistão, Mianmar e Nicarágua lideram o aumento da violência e da parcialidade na mídia
Autocensura Crescente: Além de Belarus e Vietnã, o relatório destaca países democráticos como Reino Unido e Estados Unidos com pioras nesse quesito.
O cerco ao jornalismo e o conceito de “Mending”
No relatório, o instituto documenta o uso de coerção financeira e intimidação legal contra grandes veículos de imprensa, além de retórica agressiva que rotula jornalistas como “inimigos do povo”.
O assédio a jornalistas e o viés da mídia estatal também pioraram em mais de 30 países.
O documento destaca o processo de “mending” (reparação): em países que conseguem iniciar uma retomada democrática, a restauração dos direitos de mídia e das liberdades acadêmicas costuma ocorrer de forma precoce e substancial.
Em mais de 60% dos casos de melhora democrática, os direitos relacionados à mídia são os primeiros a serem restaurados.
Isso inclui a redução do assédio a jornalistas e da autocensura, permitindo que a imprensa volte a exercer seu papel crítico.
Os destaques são:
Redução de Censura: Guatemala, Montenegro, Polônia e Zâmbia são os principais exemplos onde o esforço governamental de censura diminuiu.
Fim do Assédio a Jornalistas: República Dominicana, Maurício, Polônia e Zâmbia registram quedas notáveis na perseguição aos profissionais de imprensa.
Recuperação da Liberdade Acadêmica e Cultural: Fiji, Gâmbia, Ilhas Maurício e Timor-Leste lideram a expansão desses direitos, que andam lado a lado com a liberdade de imprensa.
O relatório completo pode ser visto aqui.
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