© Conteúdo protegido por direitos autorais

Imprensa e democracia

Com imprensa sob ataque, democracia recua no mundo, despenca nos EUA e avança no Brasil, mostra relatório

Estudo do Instituto V-Dem aponta que a censura à mídia e o enfraquecimento da liberdade de expressão estão entre os principais motores do avanço da autocratização

Manifestantes em protesto contra Donald Trump, segurando cartaz No Kings.

Protesto contra Donald Trump nos EUA, país que despencou no ranking de nações democráticas segundo o V-Dem Institute (foto: Leo Visions / Unsplash)




O nível de democracia desfrutado pelo cidadão global médio recuou aos patamares de 1978, eliminando quase todos os avanços da chamada “terceira onda de democratização”, iniciada há 50 anos, segundo a edição 2026 do relatório do V-Dem Institute.

Atualmente, 6 bilhões de pessoas (74% da população mundial) vivem sob regimes autocráticos, enquanto apenas 7% residem em democracias liberais, de acordo com a organização sueca que anualmente monitora o estado da democracia no mundo.

Um dos motivos desse quadro é o declínio das liberdades de expressão e de imprensa, apontadas como as primeiras peças do dominó a cair nos processos de autocratização – e arrastando as demais.

Em 2025, a deterioração desses direitos foi registrada em 44 países. A censura governamental à mídia aparece como tática preferida de 73% dos regimes que estão abandonando a democracia.

Na contramão dessa tendência, a Hungria acaba de eleger Péter Magyar como primeiro-ministro. Opositor de Viktor Orbán, integrante da lista de predadores da liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras, o novo premiê prometeu restaurar a destruição causada por Orbán.

E o Brasil melhorou de posição e é destacado como nação em retomada democrática.

Como é feito o relatório

O Democracy Report é produzido pelo V-Dem Institute por meio de uma abordagem científica que resulta no maior conjunto de dados global sobre democracia, acumulando mais de 32 milhões de pontos de dados para 202 países e territórios.

O processo conta com a colaboração de mais de 4.200 acadêmicos e especialistas de 186 países, garantindo o uso de conhecimento local, já que 61% desses especialistas nasceram ou residem nas nações que avaliam.

O relatório mensura mais de 600 atributos diferentes e utiliza a metodologia ERT (Episódios de Transformação de Regime), um método rigoroso que identifica mudanças anuais nos níveis de democracia e leva em conta variações nas medições.

Brasil em retomada democrática

Em meio ao declínio global, o Brasil surge como um dos raros exemplos de sucesso na reversão do autoritarismo.

Classificado pelo V-Dem como uma nação em “U-Turn” (retomada democrática), o país ocupa agora a 28ª posição no Índice de Democracia Liberal, com pontuação de 0,70.

Ainda assim, está atrás de três nações da  América Latina: Costa Rica (em 7º), Uruguai (em 13º) e Chile (em 16%).

O relatório lembra que a fase de autocratização do Brasil, que se intensificou após a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, foi marcada por ataques diretos à mídia.

O país é destacado por sua “resiliência contra o colapso”, tendo conseguido frear os ataques contra a mídia e as instituições antes que a democracia fosse desmantelada, embora o relatório alerte que a sociedade brasileira continua profundamente polarizada.

Mas, em vários outros países, não há sinal de mudança. O relatório afirma que, além da censura direta, a autocensura cresceu em 39 nações, com jornalistas e veículos evitando criticar o governo para escapar de retaliações financeiras ou perseguições judiciais.

A queda da democracia no país símbolo da democracia ocidental

Nos Estados Unidos, o cenário é descrito pelo V-Dem como crítico: a liberdade de expressão atingiu seu nível mais baixo desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Pela primeira vez em mais de 50 anos, o país perdeu o status de “democracia liberal” e foi rebaixado à categoria de “democracia eleitoral”.

Em apenas um ano, os EUA caíram da 20ª para a 51ª posição no ranking mundial de democracia.

Sob o segundo mandato de Donald Trump, o país vive o que os especialistas chamam de o mais rápido processo de “Executive Aggrandizement” da história moderna.

Ele consiste em uma combinação de quatro fatores: ataques internos e graduais às liberdades democráticas (e não um golpe); concentração de poder, desmantelamento de freios e contrapesos e perseguição à imprensa e vozes dissidentes.

O relatório credita o termo à cientista política Nancy Bermeo e aponta que esta tem sido a forma mais comum de retrocesso democrático nos últimos 25 anos.

Onde a liberdade de imprensa mais caiu

O V-Dem separou os países que lideram o retrocesso em grupos por  indicadores específicos:

Líderes em Censura Governamental: Hong Kong, México, Mianmar, Eslovênia e Togo são citados como os maiores infratores da última década.

Destaque de Magnitude: A Nicarágua é apontada como o país com a escala mais drástica de deterioração em censura e outros indicadores de expressão.

Assédio a Jornalistas e Viés: Afeganistão, Mianmar e Nicarágua lideram o aumento da violência e da parcialidade na mídia

Autocensura Crescente: Além de Belarus e Vietnã, o relatório destaca países democráticos como Reino Unido e Estados Unidos com pioras nesse quesito.

O cerco ao jornalismo e o conceito de “Mending”

No relatório, o instituto documenta o uso de coerção financeira e intimidação legal contra grandes veículos de imprensa, além de retórica agressiva que rotula jornalistas como “inimigos do povo”.

O assédio a jornalistas e o viés da mídia estatal também pioraram em mais de 30 países.

O documento destaca o processo de “mending” (reparação): em países que conseguem iniciar uma retomada democrática, a restauração dos direitos de mídia e das liberdades acadêmicas costuma ocorrer de forma precoce e substancial.

Em mais de 60% dos casos de melhora democrática, os direitos relacionados à mídia são os primeiros a serem restaurados.

Isso inclui a redução do assédio a jornalistas e da autocensura, permitindo que a imprensa volte a exercer seu papel crítico.

Os destaques são:

Redução de Censura: Guatemala, Montenegro, Polônia e Zâmbia são os principais exemplos onde o esforço governamental de censura diminuiu.

Fim do Assédio a Jornalistas: República Dominicana, Maurício, Polônia e Zâmbia registram quedas notáveis na perseguição aos profissionais de imprensa.

Recuperação da Liberdade Acadêmica e Cultural: Fiji, Gâmbia, Ilhas Maurício e Timor-Leste lideram a expansão desses direitos, que andam lado a lado com a liberdade de imprensa.

O relatório completo pode ser visto aqui.


error: O conteúdo é protegido.