No ano em que os EUA recuaram sete posições no ranking de liberdade de imprensa da organização Repórteres Sem Fronteiras, quatro categorias diferentes do prêmio de jornalismo Pulitzer de 2026, incluindo a mais importante delas, reconheceram reportagens sobre temas relacionados a atos do governo de Donald Trump.
O principal Pulitzer deste ano, na categoria Serviço Público, única a conceder ao vencedor uma Medalha de Ouro, foi para o The Washington Post. O jornal de propriedade de Jeff Bezos, amigo do presidente, destacou “os impactos humanos dos cortes no governo federal dos EUA e as consequências para o país”.
A cobertura descreve a reestruturação caótica feita pelo governo Trump nas agências federais. O papel do bilionário Elon Musk no seu cargo como chefe do “Departamento de Eficiência Governamental” dos EUA foi um dos destaques dos textos, assinados por Hannah Natanson e Meryl Kornfield.
A premiação concedida a Natanson foi simbólica: ela foi alvo de buscas do FBI e teve computadores confiscados durante uma operação em sua casa em janeiro deste ano. A jornalista foi aplaudida por colegas de redação após o anúncio dessa terça-feira.
Trump’s FBI kicked in her door.
Took her phones. Took her laptops. Took everything.
Hannah Natanson just took a Pulitzer Prize.
You cannot intimidate the truth out of a journalist.
You just make them more dangerous.
Never stop connecting the dots. pic.twitter.com/aJzwv1Xb4A
— Brian Allen (@allenanalysis) May 5, 2026
Reportagens vencedoras
O Pulitzer foi criado em 1917 e é administrado pela Universidade Columbia. Embora seja restrito a jornalistas e veículos americanos, o prêmio sempre foi uma referência para o jornalismo internacional, por homenagear o trabalho de grandes organizações de mídia com alcance global.
O vencedor da categoria de Reportagem Nacional foi a agência de notícia Reuters. Ela fez um reportagem especial sobre a campanha de retaliação de Trump contra funcionários federais, procuradores, universidades e veículos de comunicação que se oponham a ele.
A agência monitorou ao menos 470 alvos diferentes, elencados no texto. A reportagem é de autoria de Peter Eisler, Ned Parker, Linda So e Joseph Tanfani.
O prêmio de Reportagem Investigativa foi para a equipe do The New York Times. O jornal fez uma série de reportagens sobre como Trump “ignorou as restrições aos conflitos de interesse e explorou as oportunidades de enriquecimento que acompanham o poder, enriquecendo sua família e seus aliados”.
A medalha na categoria Reportagem Local foi dada ao jornal Chicago Tribune, que relatou como agentes do ICE agiram na cidade em 2026.
De acordo com o Pulitzer, os textos da equipe “descreveram em prosa vívida e contundente como a incursão dos agentes do ICE, semelhante a um cerco, uniu os cidadãos de Chicago em resistência”.
No mês passado, o World Press Photo escolheu como a Foto do Ano a imagem de uma família de imigrantes separada à força por agentes do ICE. O registro é de 26 de agosto de 2025 e mostra a reação de desespero da esposa e das três filhas de um imigrante equatoriano detido após uma audiência de imigração no país.
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O Chicago Tribune dividiu a premiação com outros dois jornais: The Conecticut Mirror e ProPublica, que revelaram um esquema de corrupção nas leis de reboque do estado. A princípio, a reportagem do Chicago Tribune foi inscrita na categoria “Serviço Local”, mas a própria organização do evento mudou a cobertura de setor.
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“Nos opomos à censura”, diz administradora do prêmio
Ao anunciar as reportagens vencedoras de 2026, Marjorie Miller, administradora do Pulitzer, mencionou diretamente Donald Trump.
“Defendemos o diálogo civilizado e nos opomos à censura. Infelizmente, é preciso repetir isso agora”, afirmou, ao listar processos envolvendo o republicano e veículos de imprensa.
“O acesso da mídia à Casa Branca e ao Pentágono está restrito, a liberdade de expressão está sendo desafiada nas ruas e o presidente dos Estados Unidos entrou com processos judiciais bilionários por difamação e malícia contra diversos veículos da imprensa escrita e televisiva.”
Trump já processou o conselho do Pulitzer
Donald Trump não é um grande fã do prêmio Pulitzer.
Em 2018, os jornais The New York Times e The Washington Post receberam um prêmio conjunto por cobrir a interferência russa nas eleições dos EUA em 2016 e as conexões com a campanha do republicano. Pouco tempo depois, o então presidente pediu a revogação dos prêmios e recebeu como resposta, dois anos depois, uma negativa.
Como resposta, o Conselho do Pulitzer afirmou que fez duas avaliações independentes dos trabalhos e que elas tiveram a mesma conclusão. “Nenhuma passagem ou manchete, argumento ou afirmação em qualquer um dos trabalhos vencedores foi desacreditada”, diz a decisão.
Trump já estava fora da cadeira presidencial quando o Pulitzer divulgou a decisão, em 2022. Ainda assim, o republicano processou o conselho por difamação.
A ação segue em curso e, coincidentemente, dois juízes que emitiram uma decisão favorável ao processo receberam indicações de Trump para cargos vitalícios.
Batalha de Trump contra a imprensa
Para além do processo contra o Pulitzer em 2022, o republicano coleciona ações judiciais contra comunicadores e reportagens que o desagradam. Uma das mais recentes, rejeitada por um juiz federal, foi contra o Wall Street Journal. O processo aconteceu após o jornal fazer uma reportagem que ligava o nome do presidente ao caso Epstein.
Nos últimos meses, governo do republicano tem acumulado derrotas nessas ações. Em um dos processos, a Justiça considerou contratação de Kari Lake, aliada de Trump, para um cargo similar ao de CEO na USAGM, agência de mídia global dos EUA, ilegal.
Pouco tempo depois, um juiz distrital suspendeu uma ordem executiva do presidente determinando corte do financiamento federal das emissoras públicas NPR e PBS.
Em outra frente, o governo perdeu um processo movido pelo The New York Times contra o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. O jornal buscou a Justiça após ter as credenciais de jornalistas que cobriam o Pentágono retiradas pela recusa de seguir um conjunto de regras.
Um juiz concluiu que a política era excessivamente ampla e violava garantias constitucionais básicas, e mandou devolver os crachás.
O Pentágono rebateu e acabou retirando o acesso de todos os jornalistas ao prédio principal, colocando-os em um anexo. Essa decisão também foi alvo de reprimenda do juiz responsável pela sentença, que a considerou um desrespeito à ordem judicial.
Nesse clima desfavorável para o jornalismo, os Estados Unidos despencaram no ranking de liberdade de imprensa do Repórteres Sem Fronteiras. Neste ano, o país ficou na 64ª posição, atrás do Brasil, perdendo sete colocações.
Veja outros vencedores do Pulitzer de jornalismo
Reportagem Internacional: Dake Kang, Garance Burke, Byron Tau, Aniruddha Ghosal e Yael Grauer,do Associated Press — investigação global sobre sistemas de vigilância e o papel de empresas de tecnologia americanas;
Reportagem aprofundada (Explanatory Reporting): Susie Neilson, Megan Fan Munce e Sara DiNatale, do San Francisco Chronicle — análise de como seguradoras falharam com vítimas de incêndios florestais, usando práticas injustas;
Cobertura de última hora: Equipe do The Minnesota Star Tribune — Cobertura do ataque a tiros à missa de volta às aulas em uma escola católica, que deixou duas crianças mortas e 17 feridas;
Reportagem (Beat Reporting): Jeff Horwitz e Engen Tham, da Reuters — investigação sobre práticas da Meta envolvendo anúncios fraudulentos e uso indevido de IA
Fotografia de notícias : Saher Alghorra, freelancer do The New York Times — Pela sua série comovente e sensível que retrata a devastação e a fome em Gaza resultantes da guerra com Israel.
See Saher Alghorra’s photography documenting the toll of Israel’s attacks in Gaza. https://t.co/Ok8WSc12dM
— The New York Times (@nytimes) May 4, 2026
Fotografia de Destaque: Jahi Chikwendiu, do The Washington Post — ensaio fotográfico sobre uma família lidando com câncer terminal e nascimento
Reportagem Especial (Feature Writing): Aaron Parsley, do Texas Monthly — relato pessoal sobre sobrevivência após enchentes devastadoras no Texas
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