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De áudio a vídeo: novo relatório mostra a virada dos podcasts na busca por audiência, relevância e receita

Estudo do Instituto Reuters aponta como YouTube, Spotify e TVs conectadas estão levando veículos jornalísticos a repensarem formato, distribuição e receita.

Estúdio de podcast

Foto: Unsplash




Pouco mais de duas décadas depois de o termo podcasting ter sido criado, os podcasts de notícias estão passando por uma mudança de formato e de modelo de negócio, segundo um novo relatório do Instituto Reuters para Estudos de Jornalismo, da Universidade de Oxford, apontando tendências nesse mercado.

O trabalho, assinado pelo pesquisador Nic Newman, mostra que programas antes pensados principalmente para escuta passaram a ser adaptados para vídeo, redes sociais, TVs conectadas e serviços de assinatura. Programas conduzidos por apresentadores ganham espaço e os modelos de negócio passam a incluir mais opções pagas.

Em “The changing shape and new economics of news podcasting: From listening to watching, from podcasts to shows”, Newman analisa como veículos jornalísticos, produtoras especializadas e plataformas digitais estão respondendo à expansão dos podcasts em vídeo.

Plataformas privilegiam vídeo

O estudo se baseia em pesquisa qualitativa com usuários nos Estados Unidos, Reino Unido e Noruega, além de entrevistas com editores, empresas nativas de podcast, plataformas e especialistas do setor.

O relatório afirma que organizações jornalísticas aceleraram seus investimentos em vídeo ou passaram a acrescentar elementos visuais aos programas. Essa mudança é apresentada como uma resposta às estratégias de YouTube, Spotify e Apple, que deram maior visibilidade a podcasts em vídeo dentro de suas plataformas.

No caso específico dos podcasts de notícias, dados do Digital News Report citados por Newman indicam que a Apple perdeu espaço ao longo do tempo, enquanto o YouTube se tornou a plataforma mais importante para esse consumo nos Estados Unidos. O Spotify aparece no relatório como uma plataforma relevante em outros mercados.

O estudo também mostra que o consumo em TVs conectadas passou a influenciar a produção. Algumas empresas passaram a gravar podcasts em estúdio, com câmeras, apresentadores e convidados em formatos próximos aos de programas de entrevista ou debate.

O relatório cita casos como Goalhanger, no Reino Unido, e Chora Media, na Itália.

O movimento, porém, não ocorre da mesma forma em todos os mercados. A pesquisa indica que usuários nos Estados Unidos estão mais abertos aos podcasts em vídeo, enquanto os da Noruega demonstram mais resistência.

Segundo o relatório, isso se relaciona em parte ao menor peso de plataformas como YouTube em mercados nórdicos menores e à oferta mais limitada de podcasts locais em vídeo.

Áudio e vídeo atendem a momentos diferentes

O estudo não apresenta o avanço do vídeo como uma substituição simples do áudio. A interpretação de Newman é que o podcast passou a funcionar em dois formatos, usados conforme o contexto, o tipo de conteúdo e a preferência do público.

Dados da Edison Research citados por ele mostram que, nos Estados Unidos, 26% das pessoas com 12 anos ou mais escutam e assistem podcasts semanalmente. O percentual é maior do que o grupo que apenas escuta, 13%, e do que o grupo que apenas assiste, 6%.

A pesquisa qualitativa feita para o estudo indica que o vídeo tende a ser mais usado em casa, especialmente no YouTube ou em TVs conectadas. O áudio segue associado a deslocamentos, caminhadas, exercícios, tarefas domésticas e outras situações em que a pessoa não está diante de uma tela.

Em notícias, o relatório aponta que o vídeo pode ajudar na explicação de temas complexos ou na cobertura de acontecimentos que dependem de imagens. Já o áudio aparece, nos relatos dos usuários, ligado à escuta concentrada, à construção de conhecimento e à possibilidade de acompanhar análises mais longas.

Programas de conversa ganham espaço

Outra tendência em podcasts de notícias identificada por Newman é o crescimento dos programas de conversa, entrevista e análise, conduzidos por apresentadores reconhecidos.

O relatório organiza os podcasts jornalísticos em três grupos principais: boletins diários de notícias e explicação, programas conversacionais e séries documentais ou investigativas.

Segundo o estudo, os programas conversacionais ganharam espaço porque são mais baratos, podem ser produzidos com maior frequência e se adaptam com mais facilidade ao vídeo. As séries narrativas e investigativas continuam sendo valorizadas pela audiência, mas exigem mais tempo, investimento e produção.

Executivos ouvidos por Newman associam essa mudança também à forma como a audiência acompanha grandes notícias. O relatório registra que parte do público procura análises rápidas de apresentadores nos quais confia quando ocorre um fato de grande repercussão.

Economia dos podcasts busca novas fontes de receita

As mudanças não são apenas editoriais ou tecnológicas. O relatório mostra ainda que a economia dos podcasts está se tornando mais diversificada.

Segundo Newman, a publicidade continua sendo central para o setor, mas cresce o interesse por modelos híbridos, com assinaturas, conteúdo extra, acesso antecipado, eventos ao vivo, programas de associação, licenciamento e integração dos podcasts a pacotes pagos mais amplos.

O estudo cita The Economist, Die Zeit, The New York Times, Schibsted e Politiken entre as organizações que experimentaram ou adotaram algum tipo de conteúdo pago em áudio.

Ao mesmo tempo, a pesquisa qualitativa mostra que convencer usuários a pagar por podcasts continua sendo difícil, especialmente porque muitos se acostumaram a acessar esse conteúdo gratuitamente. Por essa razão, várias empresas procuram combinar alcance aberto com conteúdo pago, oferecendo bônus, arquivos, séries exclusivas, escuta sem publicidade ou benefícios para assinantes.

Newman também aponta que os podcasts têm valor estratégico para veículos jornalísticos porque ajudam a criar hábito de consumo.

Segundo o relatório, a dimensão humana do formato, marcada por vozes conhecidas e relações recorrentes com apresentadores, pode se tornar um diferencial em um ambiente digital cada vez mais influenciado por inteligência artificial (IA) e distribuição automatizada.

Nem todo podcast jornalístico precisa virar vídeo

Apesar do avanço do vídeo, o relatório afirma que nem todos os podcasts jornalísticos podem ou devem ser adaptados para esse formato.

Segundo Newman, programas de conversa, entrevista e debate tendem a ser mais fáceis de converter para vídeo. Já séries narrativas, documentais e investigativas podem depender mais de roteiro, edição, apuração e construção sonora, o que torna a adaptação mais complexa e cara.

O estudo cita veículos como Schibsted, Politiken e Der Spiegel para mostrar que algumas organizações avaliam a adoção de vídeo caso a caso. As preocupações incluem custo de produção, necessidade de novas equipes, reorganização de fluxos de trabalho e preservação da qualidade editorial.

O relatório observa ainda que veículos jornalísticos permanecem cautelosos em relação a uma migração apressada para o vídeo, área em que parte da indústria já teve experiências frustradas no passado.

O desafio para os veículos, segundo o relatório, é decidir quais programas fazem sentido em vídeo, quais devem permanecer principalmente em áudio e como essas decisões se conectam a audiência, receita, equipes e controle editorial.

O relatório completo pode ser visto aqui.


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