O bloqueio de internet no Irã completou 12 semanas e se tornou o mais longo e severo já registrado no país, segundo comunicado conjunto do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) e da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), afirmando que o país está cercado por um “muro digital”.
As duas organizações afirmam estar “profundamente alarmadas” com o apagão nacional de internet imposto pelo governo iraniano, que já dura 83 dias consecutivos, segundo o monitor independente de internet NetBlocks.
Para o CPJ e a RSF, a interrupção isolou jornalistas do mundo exterior e transformou o país em um “buraco negro de informação”.
O comunicado, distribuído nesta quinta-feira (21), afirma que o bloqueio começou como uma tentativa de controlar informações, mas se tornou um ataque sustentado à liberdade de imprensa e uma dificuldade diária para repórteres locais que ainda tentam trabalhar dentro do país.
Bloqueio de internet no Irã cria “buraco negro de informação”, dizem ONGs
A CPJ e a RSF alertam que o que chamam de “muro digital” foi construído de propósito pelas autoridades iranianas para esconder uma campanha “silenciosa e implacável” de intimidação contra jornalistas independentes.
“Ao cortar a internet por quase três meses, o governo iraniano criou um vácuo operacional aterrorizante, no qual a imprensa foi privada de sua defesa mais básica: a consciência pública”, afirmou Sara Qudah, diretora regional da CPJ.
Ela afirmou ainda que as organizações observam “uma tentativa deliberada de tornar o assédio, as ameaças e as prisões arbitrárias de jornalistas locais totalmente invisíveis para o mundo”. Segundo Qudah, ao agir assim, as autoridades negam ao público o direito fundamental de ser informado.
Jornalistas no Irã enfrentam obstáculos para apurar e enviar informações
De acordo com a CPJ e a RSF, para os poucos repórteres e redações independentes que ainda tentam trabalhar dentro do Irã, o bloqueio tornou quase impossível produzir reportagens seguras e precisas.
As organizações afirmam que, sem plataformas seguras de mensagens ou acesso confiável à internet, jornalistas não conseguem conversar com fontes de forma segura, checar informações básicas nem enviar suas reportagens ao exterior.
Segundo o comunicado, o bloqueio não apenas dificulta o trabalho jornalístico. Ele também protege as autoridades de escrutínio público.
Jonathan Dagher, chefe da mesa de Oriente Médio da RSF, afirmou que o apagão de informação do regime iraniano está “sufocando o país, seus jornalistas e seus cidadãos”.
“Ao cortar a internet, vigiar o pouco que resta das atividades online dos jornalistas e continuar ameaçando trabalhadores da mídia no Irã, o regime encobre o país na obscuridade e se protege de qualquer responsabilização.”
Dagher disse ainda que o público iraniano e a comunidade internacional têm direito a informações livres, confiáveis e diversas sobre o país. Para a RSF, o bloqueio de internet é um ataque contra esse direito e deve ser suspenso imediatamente.
CPJ e RSF afirmam que bloqueio encobre repressão à imprensa
No comunicado, a CPJ e a RSF dizem que, nos últimos meses, autoridades iranianas detiveram, ameaçaram e convocaram jornalistas em diferentes regiões do país, e que esses abusos permaneciam invisíveis e sem registro público.
As ONGs afirmam que, ao impedir o acesso das pessoas à internet, o governo transformou cidadãos em “meros espectadores” dentro do próprio país e retirou dos jornalistas sua principal forma de proteção: a consciência pública e o apoio internacional.
O bloqueio também tornou mais difícil o trabalho de organizações internacionais de defesa da liberdade de imprensa, segundo a CPJ e a RSF. As entidades afirmam que confirmar prisões, verificar a segurança de profissionais da mídia e documentar ataques se tornou mais difícil do que nunca.
Bloqueio de internet no Irã preocupa por situação de jornalistas presos
Segundo as organizações, o vácuo de informação é especialmente perigoso para jornalistas presos no Irã, incluindo o jornalista iraniano-americano Reza Valizadeh, que permanece detido na prisão de Evin, em Teerã.
Com as comunicações restringidas, a CPJ e a RSF afirmam que pouco se sabe sobre as condições, a saúde ou a situação legal desses profissionais. As organizações dizem ainda que grupos internacionais não conseguem atuar adequadamente para proteger jornalistas vulneráveis.
No comunicado conjunto, a CPJ e a RSF pedem que as autoridades iranianas restaurem imediatamente o acesso integral à internet em todo o país e encerrem todas as restrições digitais.
As organizações também pedem o fim das ameaças, do assédio judicial e das detenções arbitrárias contra jornalistas que realizam seu trabalho.
Além disso, a CPJ e a RSF solicitam a libertação imediata de todos os jornalistas presos por causa de suas reportagens e defendem que monitores internacionais possam avaliar a saúde e a segurança de todos os profissionais de imprensa detidos.
Para as organizações, o mundo não pode permitir que a “escuridão digital” seja usada como cobertura para silenciar a imprensa.
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