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Liberdade de imprensa

Justiça argentina aceita RSF como ‘amicus curiae’ em processo de jornalista contra Milei por assédio online

Ao entrar na ação movida por Julia Mengeloni, a Repórteres Sem Fronteiras levará à Justiça argumentos sobre liberdade de imprensa, violência de gênero e deepfakes

Julia Mengolini, e Javier Milei, presidente da Argentina

Julia Mengolini fez declarações sobre Milei em 2023 (Fotos: redes sociais)




A Justiça argentina aceitou a entrada da Repórteres Sem Fronteiras (RSF) como amicus curiae no processo movido pela jornalista Julia Mengolini contra vários réus, entre eles o presidente Javier Milei.

Com a decisão, a organização poderá apresentar argumentos legais e técnicos no caso, que envolve acusações de assédio online, ameaças, ataques difamatórios e uso de deepfakes pornográficos contra a fundadora da rádio independente Futurock.

Segundo a RSF, sua participação busca levar à Justiça argentina uma perspectiva internacional sobre liberdade de imprensa, segurança de jornalistas e violência de gênero contra mulheres em ambientes digitais.

O processo da jornalista após comentários sobre Milei e irmã

De acordo com o comunicado da RSF, Mengolini apresentou uma queixa em agosto de 2025 depois de uma campanha de assédio que teria ocorrido em junho do mesmo ano. A jornalista havia comentado, em um programa do canal C5N, a relação entre Milei e sua irmã.

Depois disso, segundo a organização, ela passou a ser alvo de uma ofensiva online promovida por figuras próximas ao presidente argentino. A campanha teria incluído deepfakes de natureza pornográfica, ameaças de morte, ameaças de violência sexual, ações judiciais e ataques difamatórios.

A RSF afirma ainda que, segundo Mengolini, o próprio Milei teria sido responsável por 93 publicações na plataforma X em um intervalo de 48 horas.

Diante da escala da campanha online, segundo a RSF, um promotor abriu investigação contra Milei, integrantes de seu governo e apoiadores por suspeita de ameaças e assédio contra a jornalista. A organização já vinha alertando para o aumento do assédio contra jornalistas na Argentina durante o governo Milei.

Violência online contra jornalistas como forma de censura

Para a RSF,  campanhas coordenadas de ódio, humilhação sexualizada, desinformação e assédio têm sido usadas para silenciar vozes críticas e estimular a autocensura, especialmente contra mulheres jornalistas na América Latina.

“Os ataques contra Julia Mengolini não podem ser considerados como uma disputa individual, nem como uma expressão legítima no debate público. Eles constituem sérios obstáculos à prática do jornalismo. Este caso demonstra como a violência online baseada em gênero se tornou uma forma contemporânea de censura”, afirma Artur Romeu, diretor da RSF América Latina.

Romeu também relaciona o caso ao uso de conteúdo artificial, sexista e sexualmente explícito como ferramenta de intimidação contra mulheres jornalistas.

“A criação e disseminação de conteúdo gerado artificialmente, sexista e sexualmente explícito, juntamente com ameaças e campanhas coordenadas de assédio, não visam apenas prejudicar um jornalista. Eles são projetados para intimidar outras mulheres que investigam, expressam opiniões ou criticam aqueles que estão no poder, como jornalistas.”

Segundo o diretor da RSF América Latina, a Justiça argentina deve analisar o episódio como uma questão de liberdade de imprensa e igualdade de gênero.

“ A RSF pede às autoridades e plataformas digitais que tomem medidas contra a produção e disseminação de deepfakes, especialmente quando são usados para intimidar jornalistas ou excluí-los do debate público”, afirma Romeu.

Deepfakes contra jornalistas ampliam impacto do assédio online

A RSF salienta que o uso de inteligência artificial generativa para criar conteúdo falso vem ampliando o impacto dessas campanhas.

Em uma análise de 100 casos de deepfakes contra jornalistas em 27 países, de dezembro de 2023 a dezembro de 2025, a organização diz ter identificado que três quartos das vítimas, ou 74%, eram mulheres, e que 13% delas haviam sido alvo de deepfakes pornográficos.

O caso de Mengolini foi incluído pela RSF como exemplo do uso desse tipo de conteúdo para degradar, intimidar e prejudicar a credibilidade profissional de mulheres jornalistas.

Argentina cai no ranking de liberdade de imprensa

RSF afirma que insultos, difamação e ameaças contra jornalistas críticos e meios de comunicação se tornaram comuns sob Milei.

A entidade associa esse ambiente à queda da Argentina no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2026. Segundo a organização, o país aparece em 98º lugar entre 180 países e territórios, 11 posições abaixo de 2025. Em 2023, antes da chegada de Javier Milei ao poder, a Argentina ocupava a 40ª posição.

Julia Mengolini foi indicada ao Prêmio de Liberdade de Imprensa da organização em 2026, na categoria Independência. A categoria é concedida a jornalistas e organizações que seguem defendendo a liberdade de imprensa diante de assédio político, econômico e institucional.

Segundo a RSF, a indicação reconhece a continuidade do trabalho jornalístico de Mengolini e suas denúncias sobre mecanismos de perseguição contra a imprensa.


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