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Marketing desastroso

Starbucks fecha todas as lojas na Coreia do Sul para curso sobre democracia após boicote por campanha lembrando massacre

Empresa lançou o “Dia do Tanque” para vender copos gigantes no aniversário de um massacre militar que, entre outras armas, usou tanques para matar manifestantes

Protesto diante do Starbucks na Coreia do Sul

Foto: captura de tela YouTube




Os sul-coreanos fãs do Starbucks ficaram sem seus cafés preferidos na tarde desta segunda-feira (22), quando as mais de 2 mil lojas da rede no país tiveram que fechar simultaneamente às 15h para que os funcionários participassem de um treinamento sobre democracia e história em consequência de uma desastrosa campanha de marketing que resultou na demissão do CEO.

A crise explodiu após uma promoção oferecendo copos gigantes chamada “Tank Day”, lançada justamente no dia 18 de maio, data que relembra uma episódio sombrio na história da Coreia do Sul: um massacre usando tanques para conter uma rebelião pró-democracia em 1980.

Ação promocional do Starbucks acabou com demissão de CEO e aula coletiva sobre história da Coreia do Sul
Foto: Starbucks/Reprodução de redes sociais

A promoção causou revolta da população, levando a boicotes, atos com copos quebrados diante das lojas e até condenação do presidente da nação, fragilizada por um atentado à democracia há menos de dois anos.

E as vendas despencaram, com queda de mais de 25% nas transações de cartão de crédito nas semanas seguintes ao lançamento da campanha.

O treinamento foi uma das medidas adotadas pela rede para reverter a crise de imagem, agravada por ser uma empresa estrangeira, mesmo liderada por dirigentes locais, que custou o cargo do CEO, Son Jeong-hyun.

Na liderança do esforço de recuperação está agora o bilionário que é dono da controladora da empresa no país, Chung Yong-jun.

Ele também parou suas atividades para participar do treinamento nesta segunda-feira, e em um pedido de desculpas transmitido pela TV se curvou três vezes, sinal de respeito máximo.

Promoção durou poucas horas e gerou comentário do presidente

O massacre que deu origem ao Tank Day foi um protesto contra o ditador Chu Doo-hwan. Ao longo de 10 dias, milhares de manifestantes pediam democracia no país e foram reprimidos com violência pelo regime. Grupos de vítimas dizem que centenas foram mortos.

Assim que a promoção foi anunciada, pessoas começaram a protestar contra o Starbucks em publicações nas redes sociais.

O Grupo Shinsegae, que controla a empresa na Coreia do Sul, tirou a campanha do ar em menos de seis horas e pediu desculpas em público duas vezes, mas ainda assim enfrentou boicotes e manifestações.

Um dos protestos mais populares aconteceu em Gwangju, cidade que viveu o massacre. Moradores foram para a frente da loja da Starbucks e quebraram com marretadas copos e xícaras, pedindo a saída da marca do país.

Até mesmo o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, comentou o assunto, afirmando que a empresa teve um comportamento “desumano e vergonhoso”.

Ele chamou, ainda, a marca de aproveitadora e disse que eles negam os valores da comunidade sul-coreana. A Starbucks opera na Coreia do Sul desde 1999.

CEO demitido

Após a crise gerada pela campanha, a Starbucks anunciou a demissão do diretor-executivo da companhia na Coreia do Sul, Son Jeong-hyun.

Além disso, Chung Yong-jun, pediu desculpas em uma carta divulgada no site da empresa. Ele chamou a campanha de marketing de “inadequada, que jamais deveria ter ocorrido e que não pode ser tolerada”.

Além de anunciar um treinamento para todos, incluindo ele mesmo, o presidente do grupo informou que vai investigar o incidente “de forma minuciosa”. Ele disse, ainda, que o processo de revisão de conteúdo do marketing em todas as afiliadas será analisado.

“Mais uma vez, peço sinceras desculpas aos espíritos dos mártires de 18 de maio e às suas famílias enlutadas, que foram profundamente feridas por este incidente, aos cidadãos de Gwangju, à família enlutada do mártir Park Jong-cheol, a todos aqueles que se sacrificaram pela democracia deste país e a todo o povo.”

Papel da IA no erro do marketing

De acordo com a marca, a inteligência artificial teve papel importante na campanha catastrófica da Starbucks na Coreia do Sul. A empresa afirmou que os responsáveis usaram inteligência artificial para gerar possíveis slogans para a promoção.

Com as sugestões de IA em mãos, e sem conhecimento sobre o contexto das frases, eles enviaram o material às instâncias superiores do marketing, que rodam a campanha.

Uma das frases, “bate na mesa”, foi interpretada como referência à morte por tortura em 1987 do estudante ativista Park Jong-chul. A polícia alegou que ele morreu quando um agente usou seu punho para “bater na mesa com um baque”.

Os gerentes que aprovaram a campanha, por sua vez, nunca abriram os anexos do e-mail com o material de marketing, segundo o posicionamento do Grupo Shinsegae.

Lojas fechadas por meio expediente

Após a demissão do CEO e o pedido de desculpas, a empresa explicou que as mais de 2.000 lojas da companhia em toda a Coreia do Sul fechariam às 15h dessa segunda-feira (22).

O fechamento adiantado aconteceu para que todos os 24.000 funcionários da Starbucks na Coreia do Sul passassem por um treinamento sobre consciência histórica e sensibilidade cultural.

O treinamento aconteceu dentro das próprias lojas. Todos os funcionários assistiram a vídeos educativos gravados por professores da Universidade de Sungkyunkwan sobre o assunto.

A ideia dos treinamentos é reforçar a memória coletiva dos funcionários, assim como relembrar os principais fatos históricos na Coreia desde a década de 1950. As lojas funcionam normalmente nesta terça-feira (23).

Histórico recente de atentado à democracia

O caso da Starbucks acontece em um momento delicado para a história da democracia na Coreia do Sul. Em 2024, o presidente do país, Yoon Suk-yeol, decretou lei marcial.

Ele acusou sua oposição, o Partido Democrático, de simpatia à Coreia do Norte e de sabotagem ao governo.

Na prática, a lei permitiria a dissolução do parlamento e até mesmo a imposição de uma legislação militar. Seis horas após a decretação de Suk-yeol, porém, o parlamento aprovou uma moção para derrubar a lei.

Menos de dois anos após o ato presidencial, a Coreia condenou alguns dos envolvidos. Entre eles estão o próprio Yoon Suk-yeoul, condenado à prisão perpétua por abuso de poder e insurreição, o ex-primeiro-ministro e o ex-ministro da Justiça do país.


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