© Conteúdo protegido por direitos autorais

Pegada ambiental

Mais jogos, mais cidades, calorão: entenda por que a Copa 2026 pode levar o título de a mais poluente da história

por Alejandra del Carmen Meza Servín | Professora da Universidade de Guadalajara




Desde 1930, a cada quatro anos, o futebol consegue despertar o interesse de boa parte do mundo com a combinação de paixão, história e cultura reunida pela Copa do Mundo.

Mais do que um simples esporte , o futebol reflete as tensões políticas, as identidades e as emoções coletivas que marcaram a modernidade.

Em países como o México, estudos antropológicos mostram que o futebol funciona como um ritual. Ele une a comunidade e molda formas de pertencimento e de existir.

A Copa do Mundo diante dos limites do planeta

Mas, em pleno século 21, esse ritual global encontra uma fronteira ambiental: o planeta já não aguenta mais.

O relatório mais recente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC, deixa isso claro. A janela para evitar o desastre climático está se fechando.

E, sim, o futebol também entra em campo quando se trata dessa responsabilidade.

Diante desse cenário, a Fifa e os organizadores da Copa do Mundo de 2026 — Canadá, Estados Unidos e México — prometeram um torneio de vanguarda ambiental.

A estratégia se baseou em quatro pilares “independentes, mas inter-relacionados”: social, ambiental, econômico e de governança.

Quando os números são analisados, porém, a história é outra. Tudo indica que esta será a Copa do Mundo mais insustentável e poluente já organizada.

A ilusão da infraestrutura existente

O principal argumento ambiental da Fifa para 2026 é que, diferentemente de outros torneios, quase nenhum estádio novo foi construído para esta Copa do Mundo.

Em comparação, a Copa do Mundo do Catar, em 2022, foi disputada em oito estádios, sete deles construídos do zero e inaugurados pouco antes da competição.

O único que já existia, o Estádio Internacional Khalifa, foi inaugurado em 1976, mas passou por uma reforma completa antes de ser reaberto em 2017.

A enorme pegada ambiental da Copa do Catar

A Copa do Mundo de 2022 deixou uma enorme pegada ecológica: estádios refrigerados no deserto e, segundo dados oficiais, 3,6 milhões de toneladas de dióxido de carbono emitidas.

No entanto, estimativas como as publicadas pela Carbon Market Watch afirmam que o impacto real daquele evento, incluindo os voos diários, foi muito maior.

Por que usar estádios prontos não basta

Para 2026, a aposta segue na direção contrária. A proposta é utilizar estádios já construídos para evitar acrescentar toneladas de concreto ao meio ambiente.

O problema, porém, é mais profundo. O modelo dos “megaeventos esportivos” se baseia em crescer continuamente e ignora uma verdade ecológica elementar: a escala importa.

Tanta expansão e tanto turismo acabam anulando qualquer avanço obtido com medidas locais de eficiência.

Mais seleções e mais partidas

Ao ampliar o formato do torneio de 32 para 48 seleções e de 64 para 104 partidas, distribuídas por um continente inteiro, a Fifa multiplicou exponencialmente as chamadas emissões de Escopo 3.

Elas correspondem às fontes indiretas de emissões produzidas ao longo da cadeia de valor e serão dominadas, sobretudo, pelo transporte aéreo das delegações oficiais e dos milhões de torcedores estrangeiros.

Emissões indiretas costumam ser subestimadas

Esse fenômeno não é exclusivo do futebol.

Nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 e nos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim 2022, os deslocamentos internacionais e a construção de estruturas temporárias também geraram enormes volumes de emissões indiretas, muitas vezes subestimadas nos relatórios oficiais.

Voos de costa a costa pela América do Norte

Segundo dados de um relatório publicado por especialistas da Universidade Nacional Autônoma do México, a Unam, os deslocamentos aéreos em massa de uma costa a outra da América do Norte são incompatíveis com qualquer plano sério de descarbonização.

A dispersão geográfica obrigará delegações e torcedores a realizar voos frequentes de milhares de quilômetros para conectar sedes tão distantes entre si quanto Vancouver, Miami e a Cidade do México.

O transporte, sozinho, representará mais de 85% da pegada de carbono total da competição.

Essa estimativa preliminar aponta números muito superiores aos registrados nas edições anteriores.

Mais de 9 milhões de toneladas de carbono

O relatório FIFA’s Climate Blind Spot afirma que a Copa do Mundo de 2026 pode gerar mais de 9 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, número muito superior ao de suas antecessoras.

O torneio da maquiagem verde

Dizer que esta Copa do Mundo é sustentável apenas porque haverá reciclagem nas arquibancadas ou porque serão usadas lâmpadas de LED nos estádios é, na realidade, um exemplo claro de maquiagem verde ou greenwashing.

Não é a primeira vez que isso acontece.

Nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, os organizadores destacaram o uso de medalhas recicladas e de meios de transporte ecológicos, mas ignoraram o impacto dos voos internacionais e da geração de resíduos em grande escala.

O greenwashing se tornou uma estratégia frequente para mascarar os custos reais dos megaeventos esportivos, enquanto sua pegada ambiental continua aumentando.

Adaptação insustentável e paradoxo climático

A crise climática já chegou aos gramados dos estádios e transforma o futebol atual em uma atividade inviável.

As altas temperaturas nas cidades-sede da América do Norte colocam jogadores e torcedores em risco.

A solução? Ligar o ar-condicionado na potência máxima nos estádios fechados do sul dos Estados Unidos.

Quando a adaptação agrava o problema

Isso cria uma “paradoxo climático”: as mesmas medidas adotadas para nos adaptarmos aos efeitos das mudanças climáticas, como refrigerar estádios, podem acabar agravando o problema ao aumentar as emissões de gases de efeito estufa.

É o exemplo perfeito do que o IPCC chama de “má adaptação”, ou maladaptive actions, em inglês.

O conceito explica como se tenta apagar o fogo com gasolina, usando mais energia — muitas vezes proveniente de combustíveis fósseis — para enfrentar o calor que nós mesmos causamos.

É hora de dar um intervalo para o planeta

A ciência da sustentabilidade faz o alerta: problemas globais não são resolvidos com maquiagem.

Enquanto gigantes ligados aos combustíveis fósseis continuarem patrocinando o futebol, as metas de neutralidade de carbono da Fifa serão apenas promessas vazias.

Se o futebol quiser sobreviver em um planeta cada vez mais quente, será preciso mudar o jogo.

Isso significa apostar em sedes verdadeiramente regionais e compactas, reduzir o número de partidas e colocar o bem-estar do planeta acima dos índices de audiência.

O apito final está se aproximando, e o planeta já não admite prorrogação.


Este artigo foi escrito por Alejandra del Carmen Meza Servín, professora associada da Universidade de Guadalajara, e republicado do The Conversation sob licença Creative Commons.

error: Este conteúdo é protegido por direitos autorais.